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Car Culture

Volkswagen W12 Nardò: o supercarro de Wolfsburg que (infelizmente) nunca foi produzido

No início, Volkswagen era o nome de um modelo de carro: o Fusca, Beetle, Vocho, Carocha… o “Carro do Povo”, que é o que significa, literalmente, o nome Volkswagen. De origem controversa e polêmica — especialmente por sua associação ao nazismo do Führer Adolf Hitler —, o Volkswagen era um carro barato e acessível, comprado apenas em consórcio. Depois da guerra, se tornou um ícone cultural e, ironicamente, foi associado à cultura hippie americana na década de 60.

Sendo uma fabricante de automóveis que começou produzindo um carro popular e optou por seguir nesta direção por décadas a fio — preferindo, à medida que crescia, lançar ou comprar outras marcas para ingressar nas fatias superiores do mercado. Por isso Volkswagen não é o tipo de marca que investe em superesportivos — ela tem outras marcas para isso.

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Mas em um breve momento na história a Volkswagen talvez tivesse pensado em criar de fato um superesportivo. Seu nome era Volkswagen W12 Nardò, mas ele nunca passou da fase de protótipo — o que é uma pena.

O W12 Nardó foi uma ideia de Ferdinand Piëch, presidente da Volkswagen no fim dos anos 1990. A companhia estava no meio de um projeto importantíssimo: seu primeiro motor W12, criado a partir da união de dois motores VR6 pelo virabrequim, separados por um ângulo de 72°. O motor W12 foi criado para obter a força de um V12 em um pacote mais compacto.

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Ele tem o mesmo comprimento de um VR6 e é tão estreito quanto um motor de 12 cilindros em V, permitindo, por exemplo, a construção de um sedã com 12 cilindros e tração integral, pois na frente há espaço para o conjunto de transmissão e diferencial que, no caso de um V12, seria inexistente ou exigiria uma dianteira muito longa, ou ainda dependeria de soluções incomuns, como um motor central dianteiro com câmbio à frente do motor. Loucura.

Talvez Piëch estivesse especialmente empolgado, ou até inspirado com o projeto. É a única explicação que encontramos para alguém encomendar um superesportivo totalmente novo a Giorgetto Giugiaro somente para testar a resistência de um motor.

Ouvindo a ordem, Giorgetto Giugiaro decidiu “uma vez na vida”, como ele mesmo disse, não ter o estilo do carro como foco principal. “O que eu construí foi um casulo, uma casca em volta do motor – que deixei à vista para enfatizar sua importância e aumentar o nível do desempenho”. De fato, é possível enxergar boa parte do motor e até os componentes da suspensão dianteira olhando o primeiro protótipo por cima do Volkswagen W12 Syncro.

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O carro foi apresentado no Salão de Tóquio de 1997, e era dotado de um motor W12 de 5,6 litros que entregava exatos 420 cv, que iam para as quatro rodas através de um sistema de tração integral Syncro, daí seu sobrenome.

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O estilo harmônico desenhado por Giugiaro foi muito bem recebido — assim como sua segunda versão, poucos meses depois, no Salão de Genebra.

Ao todo, o projeto do Volkswagen W12 durou seis anos e quatro versões do conceito foram construídas. O W12 Roadster era, obviamente, uma versão roadster do W12 Syncro — e não tinha tração integral, e sim traseira. Ainda era possível ver os componentes da suspensão dianteira ao olhar o carro por cima, e a tampa de válvulas do motor ficava exposta por uma abertura no deque traseiro.

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O motor era exatamente o mesmo — e os dois caros até posaram juntos para uma sessão de fotos.

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Demoraria mais três anos até que o W12 aparecesse novamente. Certamente os primeiros dois protótipos, que eram totalmente funcionantes, foram de fato usados no desenvolvimento do motor W12, porque em 2001 uma versão atualizada do conceito foi mostrada em Tóquio.

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Agora pintado na cor laranja, o W12 ganhava um novo sobrenome: Nardò, e tinha um motor bem mais potente, com 600 cv e 63,3 mkgf de torque. Era capaz de chegar aos 100 km/h em 3,5 segundos, com máxima de 357 km/h. O câmbio era manual de seis marchas, com trocas sequenciais.

O nome tinha uma boa razão de ser: o carro foi construído especialmente para quebrar um recorde de velocidade média e distância em 24 horas no Centro Técnico de Nardò, na Itália, em uma pista que formava um círculo perfeito e cuja inclinação a tornava, do ponto de vista físico, uma reta infinita: o esterçamento do volante era mínimo e assim, era possível acelerar ininterruptamente sem precisar corrigir a trajetória constantemente e nem parar por falta de espaço.

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O recorde anterior pertencia a um Chevrolet Corvette, com uma velocidade média de 283,059 km/h em 24 horas. Uma semana antes de ser apresentado em Tóquio, o W12 Nardò foi até a pista que lhe deu o nome e percorreu, em 24 horas, 7.085,7 km a uma velocidade média de 295,24 km/h — quase 12 km/h mais rápido que o recorde anterior.

Com seu nome escrito na história pela primeira vez, a Volkswagen decidiu tentar de novo no ano seguinte. Para isto, eles levaram a Nardò o ultimo protótipo fabricado do W12. Apropriadamente batizado de W12 Record, o carro tinha pintura preto fosco e rodas BBS — companhia que foi uma das patrocinadoras do projeto.

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Então há (quase) exatos 13 anos – entre os dias 22 e 23 de fevereiro de 2002 –, o W12 Record percorreu nada menos que 7.740,536 km a uma velocidade média de 322,891 km/h. Eram mais de 663 km de distância e 27,7 km/h de vantagem sobre o recordista anterior.

Aparentemente, este é o único registro em vídeo da tentativa – uma pena

Acontece que o maior objetivo da Volkswagen não era quebrar recordes, e sim provar que o motor W12 – que teve o deslocamento ampliado para seis litros, porém continuou com 600 cv – era mais robusto e capaz de suportar longas horas funcionando no limite. No fim das contas, porém, a ideia não era colocá-lo em um supercarro, e sim em modelos de luxo, como sedãs e SUVs.

Foi graças ao W12 Nardò – o nome pelo qual o conceito ficou mais conhecido – que existiram (e existem) na linha da Volkswagen modelos como o Touareg W12 e o Phaeton, primeiro sedã de luxo da companhia.

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Na verdade a Volks tem tanto orgulho do W12 Nardò que, em 2013, o usou como pegadinha de Primeiro de Abril — criou um anúncio falso com uma de suas fotos de divulgação e o rebatizou como Volkswagen LeVanto, um supercarro equipado com um conjunto de motor a diesel e propulsor elétrico.

E, querem saber? Não ficou difícil de acreditar!