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1.000 cv e 400 km/h: o Toyota Supra V12 da Top Secret em detalhes

Se você tem idade o bastante para ter acompanhado a cena tuning da década passada – a época do carros coloridos, com body kits exagerados, luzes de neon e Velozes e Furiosos como referência, provavelmente conhece a história de Smokey Nagata, o cara que foi preso no Reino Unido por passar dos 300 km/h em vias públicas e acabou banido de entrar na terra da Rainha Elizabeth II por conta disso.

Isto aconteceu em 1998, quando a dissolução do Mid Night Club, mais famosa gangue de pilotos de rua do Japão, ainda era meio recente. Kazuhiko “Smokey” Nagata foi um dos membros que transformaram o hobby em um modo de ganhar a vida. Usando as técnicas de preparação que aprendeu e desenvolveu para seu Supra, Nagata abriu a Top Secret Performance Engineering Service. Agora, se disséssemos que ele parou de acelerar nas ruas e estradas… seríamos hipócritas. Ele provavelmente não parou.

Seu Supra ficou mundialmente famoso por conta do incidente no Reino Unido, que só contribuiu para a reputação de Nagata como preparador. Imagine: um carro tão forte e rápido que o cara por trás dele foi proibido de entrar em um país inteiro! Como não querer que ele fuce seu carro? Foi assim que, a partir daí, “Smokey” Nagata tornou-se referência em preparações extremas, especialmente envolvendo o Toyota Supra. Na verdade, dizem que ele até ficou meio entediado por conta disto tudo.

A primeira metade dos anos 2000 foi meio broxante para o Mercado Doméstico Japonês. Por causa da situação econômica do arquipélago e também como consequência dos níveis cada vez mais rigorosos para emissão de poluentes e consumo de combustível. Os esportivo lendários dos anos 90, em sua maioria, não sobreviveram à chegada do novo século – Nissan Skyline GT-R, Mazda RX-7, Mitsubishi 3000GT e Toyota Supra deixaram de existir e era quase certo que eles não deixariam

Para agitar um pouco as coisas, “Smokey” Nagata decidiu que ele mesmo iria acabar com o marasmo do mundo automotivo. Como? Com um novo Supra.

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O Supra que ficou famoso em 1998 era movido por um, pasme, quatro-cilindros. Era um 3S-GTE – o motor do Toyota Celica, que foi produzido entre 1986 e 2007 e, em suas últimas versões, entregava saudáveis 260 cv. Isto original de fábrica, pois com o toque da Top Secret, a potência arranhava os 580 cv. Como superá-lo? Para Nagata, a solução foi bem simples: fazer um novo Supra. Só que, em vez de um quatro-cilindros, ele teria um V12.

Para deixar tudo em casa, o motor escolhido foi o 1GZ-FE, de cinco litros, o único V12 fabricado pela Toyota. É o motor do sedã Century, o carro mais luxuoso da fabricante japonesa e o veículo oficial da família real do Japão.

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Dotado de comando variável VVT-i nos cabeçotes e taxa de compressão de 10,5:1, o 1GZ tem potência declarada 280 cv — como de costume, por causa do acordo informal entre as fabricantes japonesas. Contudo, a potência real é de 310 cv, que aparecem às 5.200 rpm, enquanto o torque é de 49 mkgf a 4.000 rpm, sendo que mais de 40 mkgf já estão disponíveis desde as 1.200 rpm. É um motor voltado a longas viagens, com torque em abundância e funcionamento suave e silencioso.

Só que Nagata queria criar um monstro. Seu objetivo era chegar aos 1.000 cv – potência que considerava “na medida” para ultrapassar a marca dos 400 km/h. E, por mais que fosse o motor de um sedã familiar, o 1GZ era um V12 bastante robusto e de projeto moderno, com comando duplo nos cabeçotes, variador de fase VVT-i e um sistema com dupla ECU onde cada módulo controlava uma bancada de cilindros, permitindo ao V12 funcionar como um seis-em-linha no caso de qualquer defeito.

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Assim, para começar, Nagata trocou todos os componentes internos do motor por peças forjadas, feitas sob medida. Detalhe: as peças tiveram de ser desenvolvidas e fabricadas pela Top Secret, pois simplesmente não havia componentes aftermarket para o 1GZ – que, compreensivelmente, nunca foi o favorito dos preparadores. Então, foram instalados dois turbocompressores HKS GT2835, um ao lado de cada bancada, com um intercooler na dianteira.

O setup acabou com o espaço no cofre para o radiador, que precisou ser deslocado para o porta-malas, dividindo espaço com o tanque de combustível selado fabricado especialmente para o projeto. Um par de ventoinhas foi colocado à frente do intercooler, e toda a tubulação do sistema de arrefecimento foi remanejada para o assoalho do carro, escondida dos olhos. Comandos de graduação mais agressiva foram instalados e um cilindro de óxido nitroso foi colocado lá atrás  para conseguir uma dose extra de potência ao toque de um botão. Por fim, as ECU originais foram trocadas por duas HKS F-Con Vpri, com programação exclusiva, a fim de permitir que o motor trabalhe mais “no limite” e aproveite melhor seus recursos. O resultado: 943 cv a 7.300 rpm e 103 mkgf de torque à pressão máxima de 1,2 bar – nada de treskilimei aqui, não.

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Como se um V12 de 1.000 cv (depois do jato de N2O) não fosse chamar atenção o bastante, Nagata também aproveitou o projeto para estrear seu novo body kit, que vinha sendo desenvolvido havia algum tempo, com uma dianteira alongada, faróis triangulares e alongados, e para-lamas esculpidos com linhas marcantes e, de certo modo, influenciadas pela década de 80. O carro ficou 10 cm mais largo no total – 5,5 cm de cada lado. O kit, que se chama Top Secret Wangan G-Force (um belo nome, por sinal).

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Por mais chocante e controverso que seja, o visual do Supra seguia a função: segundo Nagata, seu conjunto aerodinâmico trazia perfeito equilíbrio entre aumento de downforce e redução de arrasto – duas coisas necessárias para se chegar aos 400 km/h de forma estável e razoavelmente segura.

A pintura dourada foi escolhida simplesmente porque o outro Supra da Top Secret já era dourado. O carro ainda recebeu rodas Rays GTF de 19”, calçadas com pneus de medidas 245/35 na dianteira e 275/40 na traseira. Quase todo o diâmetro é ocupado pelos discos de freio da GReddy, ventilados e slotados, com 380 mm de diâmetro na dianteira e 350 mm na traseira, com pinças de seis pistões e quatro pistões, respectivamente. A suspensão usa amortecedores do tipo coilover, feitos sob medida pela Top Secret.

Top Secret Toyota Supra V12

O carro apareceu pela primeira vez em público há dez anos, durante o Tokyo Auto Salon de 2007. Nagata disse, a princípio, que seria apena um show car para eventos desse tipo, porpem não demorou para mudar de ideia: no ano seguinte o carro foi levado até o circuito alemão de Nardó Ring para testar sua velocidade máxima – e, quem sabe, comprovar que o Supra seria mesmo capaz de chegar aos 400 km/h.

Em uma sessão de testes que durou duas horas, com o próprio Nagata ao volante, o Supra conseguiu chegar aos 358 km/h usando um câmbio manual de seis marchas da Getrag.

Se formos ver apenas os números, o carro de Smokey Nagata foi um fracasso. No entanto, ele não poderia se importar menos: o visual inigualável e a potência de quatro dígitos garantiram que os holofotes se voltassem para a Top Secret. O Supra apareceu em capas de revista, matérias em sites e eventos por todo o Japão. Aliás, o faz até hoje.

A notícia da vez é que o carro será leiloado por uma agência japonesa chamada BH Auctions no dia 12 de janeiro de 2018. E o leilão acontecerá durante o Tokyo Auto Salon, exatamente no mesmo lugar onde o carro foi apresentado em 2007. Não foi divulgada qualquer estimativa a respeito do valor de arremate, mas qualquer um que levar este Supra para casa levará consigo um pouco da história do tuning japonês. E isto não tem preço.

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