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Car Culture

1.000 Mile Trial: a corrida que mostrou ao mundo que os carros vieram para ficar

Para quase todos nós, é virtualmente impossível imaginar nossas vidas sem os carros — especialmente se você lê o FlatOut, pois para você carros certamente são muito mais que meios de transporte.

Só que a situação era bem diferente no início do século passado: o automóvel era uma invenção recente e, ainda que muitos tenham se tornado entusiastas no momento em que descobriram aquelas “carruagens sem cavalos”, muitos mais jamais acreditavam que eles, os cavalos, poderiam ser subtraídos da equação e substituídos por motores de combustão interna.

Na verdade as pessoas não gostavam muito daquelas máquinas, que assustavam os animais e levantavam enormes nuvens de poeira quando passavam a “toda velocidade”.

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Foi então que um bando de malucos o Clube do Automóvel do Reino Unido e da Irlanda decidiu provar que esses caras estavam errados. Ou melhor, provar que, mesmo em desenvolvimento, o carro já era “um meio de locomoção sério e confiável, e não um brinquedo perigoso para seu dono e para o público”. Imagine: um grupo de distintos cavalheiros discutindo uma forma de provar para todas as outras pessoas que aquela máquina lenta, barulhenta e frágil poderia, um dia, mudar o mundo. O que eles decidem fazer?

Organizar uma corrida, claro!

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Obviamente que não seria qualquer corrida — os caras eram ambiciosos, e da mente do secretário do clube, Claude Johnson, veio a ideia: que melhor maneira de provar que um carro é confiável do que fazê-lo por rodar 1.000 milhas (pouco mais de 1.600 km), atravessando o Reino Unido duas vezes — de Londes, Inglaterra, para Edimburgo, Escócia, e de volta para Londres? Certamente hoje pensaríamos em várias outras formas, mas não havia muito o que inventar naquela época.

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O roteiro da chamada 1900 One Thousand Mile Trial passava pelas cidades de Bristol, Birmingham e Manchester no caminho para Edimburgo, e depois por Newcastle, Leeds, Sheffield e Nottingham na volta para Londres. Os carros deveriam percorrer cerca de 100 km por dia para cumprir o roteiro no tempo estipulado — 23 de abril a 12 de maio.

Ao todo, 83 equipes se inscreveram, mas apenas 65 partiram, de fato, às seis horas da manhã do dia 23 de abril. Entre eles, nomes como Charles Stewart Rolls — sim, o “Rolls” da Rolls-Royce, que pilotou um Panhard de 12 cv; além de uma boa variedade de fabricantes que, de um jeito ou de outro, persistem até hoje, como Daimler, Benz e Peugeot.

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Seria uma corrida de respeito, claro, mas mais do que isso, seria também uma ambiciosa manobra de publicidade. Era preciso provar que carros eram bons, e para isso foram realizados, além da corrida principal, eventos em cada uma das cidades — de subidas de montanha a testes de velocidade cronometrados — que eram opcionais, mas também uma boa chance de provar competência mecânica. O que poderia dar errado?

Muita coisa, se querem saber: como já dissemos, os carros eram uma invenção recente e não eram exatamente robustos ou confiáveis. Além disso, quase não havia estradas e, quando elas existiam, não eram exatamente tapetes. Os carros exalavam um cheiro forte, faziam um barulho ensurdecedor e viviam quebrando. Contudo, nada disso impediu que milhares de pessoas se aglomerassem para ver os carros passando em cada uma das cidades.

Ao chegar em Edimburgo, todos os participantes tiraram uma foto em grupo para registrar o momento antes de dar meia volta em direção à capital britânica.

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Os noticiários da época mostraram que estava dando certo. Uma edição do jornal Bristol Times & Mirror disse o seguinte no relato da passagem da caravana pela cidade:

Com tantos motores movidos a petróleo, havia um odor perceptível, mas não era forte o bastante para ser totalmente repulsivo. Os carros pareciam, no geral, estar sob esplêndido controle, e a facilidade com que os sistemas de direção funcionavam foram frequentemente elogiados pelos espectadores.”

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Em outras palavras: as pessoas viram que os carros não eram tão ruins assim. Claro, aconteceram várias baixas — dos 65 carros que largaram, entre 35 e 49 cruzaram a linha de chegada (varia conforme a fonte) e duas mortes aconteceram: um cachorro e um cavalo, que foram atropelados. O cachorro morreu na hora, já o cavalo quebrou uma perna e foi sacrificado.

O saldo final, contudo, foi positivo. “A viagem de Londres a Bristol em um dia demonstrou muito bem a capacidade dos veículos a motor e os coloca entre viajar de trem expresso e conduzir as rédeas de bons cavalos”, disse o mesmo jornal. Frases semelhantes seriam publicadas ao longo daquelas três semanas, mostrando que era uma questão de tempo até que as pessoas se acostumassem com os carros e passassem a enxergá-los como uma alternativa viável às velhas carruagens.

Ah, e quem ganhou a corrida? Foi o Sr. Rolls que, com seu Panhard, chegou à velocidade máxima de 60,56 km/h e levou para casa uma medalha como prêmio por ter o melhor carro de todos.

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Muita coisa aconteceu de lá para cá mas, se hoje estamos contando esta história em um site sobre carros, temos muito a agradecer a este bando de malucos que decidiu provar ao mundo que o automóvel havia chegado para ficar. E hoje, mais de um século depois, a Historic Endurance Rallying Association, ou só “HERO”, realiza todos os anos uma reedição da corrida, com carros anteriores à Segunda Guerra seguindo aquele mesmo roteiro.

 

 

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