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15 expressões automotivas que as pessoas usam do jeito errado

Quando você aprende o bê-a-bá da comunicação, uma das primeiras lições é que, resumidamente, para ser eficaz, a mensagem deve ser plenamente decodificada pelo receptor. O exemplo mais banal dessa teoria é uma conversa entre duas pessoas que falam a mesma língua. Você fala “oi” e o receptor que compreende a língua portuguesa entende a mensagem. O emissor é quem fala, a mensagem é a saudação, o código é a língua portuguesa falada, e o receptor é a pessoa a quem você saudou. Se você apenas acenasse com a mão, a mensagem seria a mesma, porém o código seria o gesto manual.

Se o receptor fosse espanhol e não entendesse português, ele decodificaria o som de “oi” como “hoy”, que é “hoje” em sua língua nativa. E assim a mensagem se perderia.

Outro tipo de código de comunicação é a linguagem técnica, criada para que não haja possibilidade de interpretações do termo. É por isso que médicos usam “obstipação” em vez de “prisão de ventre” e é por isso que, ao falar de certos componentes, elementos e conceitos do universo automotivo, é preciso usar os termos corretamente para que não haja confusão entre o que foi dito e o que foi entendido.

Por isso, selecionamos 15 dos termos mais frequentemente usados de maneira errada no universo automotivo. Veja quais são a seguir.

Nota: não estamos sugerindo que você deve adotar os termos formais em uma conversa de bar/garagem/oficina. A linguagem falada, como sabemos, é muito mais flexível que a linguagem escrita. O objetivo deste post é apenas esclarecer que alguns termos populares são equivocados e não devem ser usados em textos formais como uma carta de reclamação, um tutorial do-it-yourself, ou um pedido de ajuda em fórum.

 

CC e cilindradas

Aqui temos dois erros em um. O primeiro é usar a sigla “cc” para se referir ao número de cilindros de um carro. Você provavelmente já viu alguém perguntar se o Opala é 4cc ou 6cc, ou se tal Maverick é 4cc, 6cc ou V8.

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A sigla “cc” é uma abreviação da língua inglesa para “centímetros cúbicos”. Por não adotar o Sistema Internacional, os americanos e ingleses não usam cm³ ou pol³ (nem m², km² e qualquer outra unidade que use o expoente de potenciação). Em vez disso, eles escrevem a unidade por extenso ou abreviam, e assim cubic centimeter vira “cc” ou “ccm”; cubic inch (polegada cúbica) vira “cu in” ou “ci”; square meter (metro quadrado) vira “sq mt” ou “sq m”e por aí vai.

Estas abreviações e abreviaturas deixaram de ser usadas no final dos anos 1970, quando os americanos passaram a designar o volume de cilindrada em litros. Em documentos antigos é comum encontrar 302 ci e 5,000 cc, mas hoje todos usam 5.0 ou 5.0L mesmo (embora no Brasil o correto seja usar a vírgula no lugar do ponto).

Nesse caso, não se trata de uma modificação do idioma como a abreviação informal “ccs” para concessionária: “cc” sempre foi uma sigla para centímetros cúbicos (ou “cheiro de corpo”, segundo as propagandas antigas de sabonete e perfume) e usá-la de outra maneira pode resultar na distorção da mensagem.

Há ainda quem diga que é uma abreviação para caneco, mas… é um argumento difícil de colar — especialmente porque é mais fácil abreviar 4c e 6c e também porque a ideia de usar “cc” para o número cilindros veio desse equívoco com centímetros cúbicos.

O segundo erro é usar “cilindradas” como unidade de medida. Esse erro já foi mais comum no passado, mas ainda persiste especialmente quando se fala de motos, que em sua maioria usam motores com deslocamento inferior a um litro.

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Cilindrada é simplesmente um sinônimo para o deslocamento dos cilindros de um motor, que é sempre medido por unidades de volume como metro cúbico e suas variáveis ou litro e suas variáveis. Talvez por uma questão de agilidade na fala, convencionou-se falar “moto de 125 cilindradas” em vez de “moto de 125 centímetros cúbicos”. De modo informal não há muito problema em falar assim, mas na forma escrita é como dizer que o Leo Contesini tem 1,85 alturas em vez de 1,85 metro.

 

Bloco

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Nos últimos dez ou quinze anos tornou-se muito frequente o uso da palavra bloco como sinônimo de motor, o que resultou em frases bizarras como “o bloco de dois litros”. Bloco é apenas um dos componentes do motor. Além do uso da palavra como sinônimo estar errado, o bloco também não designa o deslocamento volumétrico de um motor. Quem faz isso é o diâmetro de seus cilindros e o curso dos pistões, que é determinado pela medida do virabrequim.

Para calcular o volume do cilindro basta usar a fórmula V=π*r²*h (a famosa “altura do Pierre ao quadrado”). Depois multiplique o volume pelo número de cilindros e você terá o deslocamento volumétrico total do motor.

 

Barra de torção, eixo de torção, barra de amarração e barra estabilizadora

Esta é uma das grandes confusões terminológicas do mundo automotivo. Todas têm relação com torção, todas têm forma de barra mas cada uma tem sua própria função.

Começando pela barra de torção, trata-se de um elemento elástico usado como componente da suspensão. Como seu nome sugere, ela é uma barra que se torce ao ser submetida à carga em uma de suas pontas, servindo como um tipo de mola para sustentar a massa do carro. O modelo mais popular com esse tipo de mola é o Fusca, que usa duas barras de torção no quadro da suspensão dianteira.

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Ela também é muito usada em utilitários e SUVs, como o Mercedes-Benz ML do final dos anos 1990. As bandejas estão ligadas diretamente a uma ponta das barras, enquanto a outra ponta está fixa no chassi do carro. Com o movimento das rodas as pontas das barras são torcidas.

Por serem componentes de suspensão, as barras de torção são frequentemente confundidas com o eixo de torção, que é um tipo de suspensão completamente diferente. Enquanto as suspensões com barras de torção são independentes, o eixo de torção é uma suspensão semi-independente.

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Semi-independente porque nesse tipo de suspensão o elemento elástico é o próprio eixo, ligado simultaneamente às duas rodas — que são deslocadas em relação ao eixo para obter um efeito de alavanca. Quando uma extremidade do eixo é submetida a carga pela alavancagem da roda ele torce — exatamente como a barra de torção lá de cima —, porém o movimento independente dessa extremidade é limitado pela natureza física do eixo, especialmente sua espessura. A partir de determinado ponto da torção, a extremidade oposta também passa a ser afetada por ela.

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A barra de torção ainda é confundida com uma outra barra: a de amarração. É aquela barra instalada geralmente no cofre do motor, ligando as torres dos amortecedores. Sua função é minimizar a torção da carroceria, por isso ela também é chamada informalmente de “barra anti-torção”.

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Por último, a quarta barra é a estabilizadora (acima), cujo nome mais adequado à sua função seria barra anti-rolagem. Trata-se de uma barra auxiliar da suspensão também submetida a torção, porém sem função de amortecimento ou sustentação. Sua única função é limitar a rolagem da carroceria. Quando um dos lados é submetido a carga, a barra estabilizadora torce e produz movimentos opostos em cada ponta, contendo a rolagem.

 

Aspirado

É muito comum usar o termo “aspirado” para designar motores preparados sem indução forçada. O termo é correto, porém pouco preciso. Todo motor que não usa compressores é aspirado — ou usa “aspiração natural” para ser mais preciso —, seja ele preparado ou não.

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Assim, dizer que seu carro é aspirado não explica muita coisa e dizer que irá “aspirar o motor” não faz sentido algum. A menos que você seja maníaco por limpeza.

Claro, em uma conversa informal e contextualizada não há problemas em chamar de aspirado um carro com fluxo de ar otimizado para produzir mais potência e torque. Mas em situações explicativas é melhor dizer que ele tem “preparação aspirada” para deixar as coisas claras.

 

Montadora

Essa é polêmica. O ilustre Bob Sharp, do AutoEntusiastas foi o primeiro a levantar a bandeira contra o uso indiscriminado deste termo. É que a palavra “montadora” vem sendo cada vez mais usada como sinônimo de fabricante de automóveis — algo completamente equivocado e que leva a confusão com a real atividade da empresa.

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Linha de montagem da Ford na Rua Solon, em São Paulo

Veja só: até 1956 o Brasil não tinha fabricantes de automóveis. Ford, GM e várias outras marcas já operavam por aqui, porém apenas como montadoras: os carros eram fabricados em outros países e trazidos desmontados para serem montados por elas aqui. Mais tarde, os carros passaram a ser fabricados no Brasil, e a montagem se tornou apenas uma das várias etapas do processo. Por isso é errado usar o termo “montadora” como sinônimo de fabricante.

Esse erro foi tão popularizado que o Google Tradutor sugere “montadora” como tradução de automaker — que significa literalmente “fabricante de carros”. Há quem argumente que as fabricantes também são montadoras pois recebem muitos componentes prontos de fornecedores e apenas montam os carros, mas aceitar esse argumento seria reduzir a atividade de uma empresa que concebe, projeta, desenvolve, fabrica, monta e distribui um produto.

 

Bicos

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É óbvio que você não pensou em pássaros ou ornitorrincos ao ler “bico” no FlatOut. A primeira imagem que veio à sua cabeça certamente foi o sistema de injeção de combustível dos carros, que leva a gasolina ou álcool ao coletor (ou diretamente às câmaras de combustão) através de “bicos injetores”.

Só que este não é o nome correto do pulverizador de combustível do seu carro. Os bicos chamam-se, tecnicamente, válvulas de injeção. A menos que seja um motor diesel, nesse caso o nome será “bico injetor” mesmo.

 

Câmbio mecânico

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Tecnicamente todo câmbio é mecânico (ou você conhece algum câmbio mágico?). Automático, automatizado, manual, sequencial, todos usam engrenagens, garfos atuadores e rolamentos. O que diferencia um do outro é simplesmente sua forma de operação e funcionamento. Quando as marchas de um câmbio precisam ser trocadas manualmente, não há nome mais preciso para ele do que “câmbio manual”.

 

Árvore vs. Eixo

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Sim, precisamos admitir: o FlatOut usa uma expressão errada motivado pela convenção. Sabe os semi-eixos que transferem o movimento do diferencial do câmbio para as rodas do seu carro? Eles não se chamam semi-eixos. O nome correto é “semi-árvores”.

A observação foi levantada pelo mestre Bob Sharp há mais de cinco anos em seu AutoEntusiastas. Um eixo é uma peça em torno da qual alguma coisa gira. O eixo traseiro do carro, por exemplo, é uma peça fixa ao redor da qual as rodas giram.

As peças rotativas que transmitem movimento são chamadas de “árvores” — e não só em português: em italiano e em espanhol também. Assim, o comando de válvulas não é um eixo de cames, e sim uma árvore de cames. Os semi-eixos que ligam o diferencial às rodas são, na verdade, semi-árvores. O virabrequim não é o eixo de manivelas, e sim a árvore de manivelas. O cardã não é um eixo de transmissão, e sim uma árvore de transmissão.

 

Farol de neblina vs. farol de milha

Só o FlatOut tem ao menos dois posts explicando a diferença entre estes dois farois, mas ainda há um longo caminho até que as pessoas finalmente compreendam qual é qual.

Os faróis de milha se diferenciam dos faróis de neblina em dois fatores: largura e alcance do facho de luz. Os faróis de milha têm facho estreito e de longo alcance (por isso são tecnicamente chamados de “faróis de longo alcance” e classificados pelo código de trânsito como “luz alta”), e por isso são recomendados para altas velocidades e, no Brasil, permitidos apenas onde não há iluminação pública, nem motoristas à frente ou no sentido contrário.

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XR3: milha em cima, neblina embaixo

Já os faróis de neblina têm facho largo, com cobertura de 70 a 120 graus com um corte plano e abrupto na parte superior par, e alcance curto — geralmente imediatamente à frente do carro. Eles também são instalados em posição baixa, normalmente entre 40 e 60 cm de altura do solo. Isso por que eles são projetados para iluminar a via por baixo da neblina, que se forma a pouco mais de 30 cm do chão.

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As luzes de neblina são auxiliares e jamais devem substituir o farol baixo — isso pode até render uma bela multa ou, no mínimo, uma encrenca com agentes de trânsito. Mas se você não alterar o facho desses faróis e usá-los sempre combinados ao farol baixo, eles podem ter outras funções além de te ajudar na neblina. O facho largo pode ser usado para iluminar curvas naquela estradinha sinuosa que você tanto curte ou, por estar em posição baixa, também ajuda a visualização de irregularidades e da sinalização horizontal. Com o facho original, você pode usar os faróis de neblina o tempo todo sem incomodar ninguém.

 

 

PC de bordo

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Esta é muito popular nos fóruns de internet: PC de bordo é um jeito mais rápido de digitar “computador de bordo”. Faça as contas: são oito toques a menos no teclado. Se for o teclado apertado de um smartphone parecem 800 toques a menos.

O problema é que se um computador é de bordo, ele não pode ser um PC. A sigla é a abreviação de personal computer, ou “computador pessoal” — um nome antigo para os computadores domésticos, da época em que computadores eram equipamentos profissionais imensos (como os mainframes) e o objeto eletrônico mais pessoal que você tinha era um relógio Casio G-Shock ou uma calculadora de bolso.

Atualmente a sigla PC já não faz mais sentido, bem como chamar um computador de bordo de PC de bordo. Quer abreviar? Tente “comp de bordo”. São só dois caracteres a mais.

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