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16 cilindros, dez litros, 600 cv e peças de Fusca: conheça o Isdera Autobahnkurier 116i

As gigantes da indústria automotiva produzem e vendem carros no mundo todo e têm receitas bilionárias — e muitas fabricantes de supercarros são financiadas por elas, como a Ferrari pela Fiat ou Lamborghini pela Volkswagen. Mas existem as fabricantes menores, mais artesanais, que compensam a relativa falta de recursos com criatividade. A alemã Isdera, em 2006, provou que está entre estas com o Autobahnkurier 116i, inspirado nos grandes carros aerodinâmicos da década de 1930.

As primeiras décadas da história do automóvel viram uma evolução gigantesca: antes verdadeiras “carruagens sem cavalos”, com aspecto frágil e motores rudimentares, os carros dos anos 1930 eram grandes, luxuosos e cheios de detalhes.

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O conceito de “supercarro” ainda não existia — o que havia era um segmento de luxo, com carros feitos sob encomenda usando o que havia de melhor em termos de materiais, construção e tecnologia. A Bugatti, fundada em 1909 por Ettore Bugatti, era uma das mais exclusivas e cobiçadas — e carros como o Type 57 Atlantic, produzido entre 1934 e 1940, dificultavam a distinção entre arte e engenharia.

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Outros eram mais focados no desempenho do que em suas formas — mas, ainda assim, eram máquinas suntuosas e grandalhonas. A Mercedes-Benz, por exemplo, tinha o 540K, lançado em 1936. Seu desenho empregava as últimas tendências em aerodinâmica, tudo para que a carroceria cortasse o ar da forma mais eficiente possível e o motor de oito cilindros em linha e 5,4 litros pudesse empurrá-lo com uma desenvoltura ainda maior. Com 180 cv, o carro de 2.700 kg chegava aos 170 km/h — não parece muito hoje, mas era uma das formas mais rápidas e estilosas de se cruzar as Autobahnen alemãs há oito décadas.

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E por que estamos falando tudo isso antes de começar a falar logo do Isdera Autobahnkurier 116i? Porque, segundo Eberhard Schulz —seu idealizador e fundador da companhia — os Bugatti e Mercedes dos anos 1930 foram suas maiores influências na hora de criar o grand tourer retrô que você vê nestas fotos.

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Tudo nele evoca o passado, começando pelas proporções: um longo capô e uma cabine recuada, com um pequeno para-brisas e algumas formas que parecem ter vindo de um Fusca… porque vieram. Na verdade, boa parte da estrutura da cabine e outros elementos da carroceria tiveram origem no carro do povo da VW, o que garante ao carro um ar familiar bastante agradável.

Mas as semelhanças com o Fusquinha param por aí — o motor é um V16 dianteiro que, na verdade, é feito usando dois V8 Mercedes-Benz, usados no 500SE W126. Ambos são acoplados a uma caixa automática de cinco marchas, também de origem Mercedes, e cada um deles é responsável por mover um eixo do carro — ou seja, o 116i tem tração integral. A potência combinada é de mais de 600 cv a 5.100 rpm, com torque máximo de 91 mkgf da 2.700 rpm — o suficiente para um 0-100 km/h na casa dos 4,5 segundos, com velocidade máxima de 242 km/h.

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O interior tem uma aspecto mais moderno que o lado de fora, mas ainda assim não parece ter sido projetado em 2006. Isso porque o projeto do Autobahnkurier começou a tomar forma em meados da década de 1980 — o carro levou duas décadas para ficar pronto. Os componentes do interior vieram de diferentes fontes — Jaguar, Mercedes-Benz, Porsche e alguns de fabricação própria, mas o resultado é luxuoso e aparentemente bem projetado.

Agora, se você pensa em acelerar um carro desses até o limite nas estradas sem limites alemãs (ou em qualquer outro lugar, na verdade), saiba que ele não é exatamente econômico: ele não consegue rodar mais de 6 km com um litro de gasolina em um percurso combinado. Por sorte, seu tanque de combustível comporta 145 litros — o suficiente para uma autonomia de quase 900 km.

É o tipo de carro que não tem razão para existir a não ser provar ao mundo que coisas assim podem ser feitas. Apenas um Autobahnkurier 116i foi feito até agora — e, provavelmente, será assim por muito tempo, a não ser que alguém tenha pelo menos US$ 1 milhão (preço divulgado na época) e convença a Isdera do contrário. Se você faz tanta questão de um carro com dezesseis cilindros, talvez seja mais fácil procurar um Veyron de segunda mão…

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P.S.: O leitor Matheus Utzig lembrou de uma alternativa que, certamente, sai bem mais em conta — e está disponível no Brasil, basta saber procurar: os Fuscas com capô “Mini-Rolls”, oferecido na década de 1970 — e, o mais importante, “aprovado pelo Detran!”

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Bem, é quase a mesma coisa, não é? E ainda aumentava o espaço no porta-malas!

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