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Car Culture

1º de janeiro de 2014: Márcio Fujii, seu Gol GT e uma estrada de montanha vazia

Não sei se vocês já tiveram a experiência de dirigir – seja na cidade ou em uma estrada de montanha, desde que distante do litoral – em uma manhã de 1º de janeiro. É o mais próximo que você vai chegar de um cenário pós-apocalíptico: sem carros, sem pessoas, sem vida. Se isso traz uma sensação de solidão insuportável para boa parte das pessoas, para quem tem gasolina na veia este cenário rende uma experiência imersiva única: você, o seu carro e onde você quiser estar, praticamente da forma que quiser. Liberdade.

Quando soube que o leitor Márcio Fujii, dono de um Gol GT caracterizado, fez um dos roteiros mais sensacionais que alguém poderia ter feito no amanhecer do ano novo – subir a montanha do Pico do Jaraguá -, perguntei se ele não poderia escrever algumas linhas para a gente. O resultado está aí embaixo!

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Dia 31 de dezembro de 2013, ligo para alguns amigos que ficaram na cidade de São Paulo:
– Vamos subir o Pico do Jaraguá amanhã cedo?
– Cedo? Ah mano, amanhã eu vou estar dormindo / vou estar de ressaca / vou estar no almoço da família.
– Ok, já entendi…

…e é por isso que 1º de janeiro é um dos melhores dias para andar de carro pela capital. Sem perder mais tempo, ligo para um amigo que mora perto – e mais importante, sei que ele me acompanha nas doideiras de alta octanagem.

– Bora Leandro?
– Bora! Até amanhã.

Simples, rápido e rasteiro.

 

A subida: Pedal to the Metal

Pós-reveillon, oito e pouco da manhã.
Carros limpos, tempo bom, cara amassada, tanque cheio e ruas vazias. É agora.

Meu carro é um Gol “GT” turbo que já apareceu no finado Jalop. Ele não é nenhum foguete, mas está com uma pimentinha bacana e é bem equilibrado. Ele tem um kit turbo básico, suspensão preparada, barras estruturais e discos frisados de 284 mm na dianteira. O carro tem cerca de 960 kg e a pegada da turbina já aparece aos 3000 rpm. De lá pra cá, troquei o jogo de rodas por réplicas da japonesa Work Equip, nas dimensões 15 x 7,5″. É um modelo bem old school lá fora e que eu julguei casar muito bem com o Volks – considere como um cruzamento de escolas.

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O Prisma do Leandro é mais original, mas tem uma pegada racing no visual que gosto muito. Motor 1.4, tow hook, faróis com máscara negra, rodas largas, suspensão mais baixa e um escape barulhento. Um conjunto que já deixa o carrinho bem divertido e com cara de mau.

Neste dia e horário, a rota que leva até o Parque do Jaraguá, que fica na região do km 14 da Rodovia Anhanguera, estava praticamente livre de veículos e pessoas, então deu para brincar um pouco com os carros até chegarmos ao começo da “estradinha” que sobe até o ponto mais alto da cidade de São Paulo. Por que as aspas?

Para quem não conhece, esta é uma senhora estrada estreita de mão dupla que vai unicamente até o topo do Pico do Jaraguá, sem desvios, sem cruzamentos. São quatro quilômetros de asfalto bom e 28 curvas com uma pegada totalmente hillclimb – tanto que, por muitos anos, o pessoal do Auto Union DKW Club do Brasil organizava a prova de subida de montanha mais tradicional do País por lá.

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Logo que passamos pelo portão de entrada, paramos para posicionar a GoPro e começamos a subir tranquilamente para conhecer o lugar. Chegando à parte mais alta em que se pode subir com os carros (a partir daquele ponto, há uma escadaria de 247 degraus que sobe até o cume, onde fica a famosa antena, a 1.135 m de altura), estacionamos e fomos apreciar a vista. Dali é possível ver claramente a separação entre natureza e cidade – o Parque do Jaraguá tem aproximadamente 5 mil hectares.

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Por cerca de 30 minutos ficamos conversando sobre histórias passadas, final de ano, planos futuros… Na verdade, naquela hora não importava o carro ou o lugar, mas sim a amizade. Por isso estávamos ali, relembrando o tempo em que estudávamos juntos na faculdade:

– Márcio, lembra quando voltávamos da facul imitando o som do turbo?
– Ah tempo bom, um imitava o som da turbina enchendo e o outro o espirro!
– Haha, era demais! E não tínhamos nem um real pra mexer nos carros…

Universitários duros sonhando um pouco, quem nunca? Três anos depois, continuamos duros, mas a amizade continua e os projetos vão caminhando.

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A descida: Touge Battle

– Vamos descer?
– Demorou!

Descer a montanha é uma encrenca bem maior que subir. O carro desenvolve muito mais velocidade, as entradas de curva ficam mais ariscas e parece até que a inclinação fica maior. Nesta estrada, as curvas são quase todas cegas e não tem calçadas ou áreas de escape. É preciso cuidado e atenção, mas é neste desafio que está o prazer.

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Para quem gosta de curvas como eu, é diversão pura. Subimos e descemos algumas vezes, alternando com uma volta tranquila para apreciar a vista. Asfalto liso, punta-tacco antes das curvas mais fechadas, o ronco do Prisma com escape esportivo ecoando atrás de mim, cheiro de álcool no ar, ponteiro do RPM enlouquecido, som da turbina enchendo e um espirro a cada tirada de pé. Cara, não há nada que instigue mais do que o som do turbo nessa hora!

A experiência de estar ali é simples e recompensadora. Sabe aquele sentimento de liberdade meio fora-da-lei que o filme Vanishing Point passa? Apenas você, o carro e uma boa estrada… Nada de pensar em consumo de combustível, no trânsito, em compromissos do dia a dia, é simplesmente dirigir. Na sua forma mais primitiva e livre.

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Não vou mais tentar descrever. Em meio a todas essas voltas, fizemos as fotos que vocês estão vendo e o vídeo abaixo. Espero que eu consiga traduzir um pouco do que foi esse dia para nós:

Muitos pensam que eram dois moleques querendo aparecer em seus automóveis barulhentos, poluindo o planeta, causando por aí. Isso não é um racha, não é competição, não é tomada de tempo. Quem tem gasolina nas veias sabe do que eu estou falando.

Três quatros de tanque a menos, cheiro de queimado, escapamento estalando, 110 km a mais no hodômetro e uma boa história pra contar com um sorriso no rosto. Tem forma melhor de se começar o ano?

Márcio Fujii

PS: a estrada é privada e em dias “comuns”, mesmo durante a semana, está cheia de pessoas caminhando e pedalando. Fora que tem guardas armados para garantir a segurança do local – e eles não gostam de carros.

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