A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Car Culture

2+2: a tradição quase esquecida das Ferrari de quatro lugares

Ok, talvez você já tenha esquecido que a Ferrari acabou de lançar um novo modelo de quatro lugares  — na verdade uma evolução da FF, que tinha um nome meio sem graça para uma Ferrari V12. A GTC4 Lusso ficou mais bonita/elegante, mais potente e, de quebra, resolveu o problema do nome com uma espiada no passado da marca. Nós explicamos tudo neste post, caso você não tenha lido.

Mas o nome não é o único fator da GTC4 Lusso que evoca a tradição ferrarista. Embora o perfil shooting brake seja algo inédito em uma Ferrari (ou nem tanto, se você considerar a 250 GT Breadvan e outros exemplares fora-de-série feitos por encomenda), o arranjo de quatro lugares é tão comum na história da marca quanto os motores V12 dianteiros.

Na verdade, a primeira Ferrari de rua da história, a 166 Sport, teve versões de quatro lugares, sendo a primeira delas a 166 Sport chassi 005S, de 1948. Ela era equipada com um V12 dianteiro de dois litros, com modestos 80 cv a 6.000 rpm — não é muito, mas o belo cupê italiano pesava só 800 kg, então dava para chegar além dos 170 km/h.

 

A Ferrari 166 Inter de 1949 também teve uma versão de quatro lugares feita pela Bertone, mas tanto a 005S quanto esta versão da Bertone eram modelos produzidos por encomenda, ainda na época em que você comprava o chassi em um lugar e mandava fazer a carroceria em outro. A linhagem das Ferrari de quatro lugares começou mesmo com a 250 GT/E, em 1960.

 

250 GT/E

ferrari_250_gt_e_2_2_54

A primeira Ferrari de quatro lugares produzida em série apareceu em 1960: a 250 GT/E. Ela era baseada na 250 GT de entre-eixos longo, e o espaço para o banco de trás foi conseguido movendo o motor V12 de 240 cv para a frente. Como todo 2+2, os bancos acomodavam crianças sem problemas, mas não eram muito confortáveis para adultos.

ferrari_250_gt_e_2_2_18 ferrari_250_gt_e_2_2_52

Ao contrário do que possa parecer, a 250 GT/E foi a principal responsável pela boa situação financeira da Ferrari naquele começo dos anos 1960. Foram feitas quase 1.000 unidades da GT/E entre os protótipos de 1959 e os últimos modelos de 1963.

 

330 GT 2+2

ferrari_330_gt_2_2_21-1

No ano seguinte, 1964, veio a 330 GT 2+2, com um novo V12 de quatro litros e 300 cv, entre-eixos ainda mais longo, amortecedores ajustáveis da Koni e freios a disco nas quatro rodas.

ferrari_330_gt_2_2_uk-spec_5

Naquele primeiro ano o visual da nova Ferrari era controverso: apesar do belo perfil com os recortes nos para-lamas para retirar o ar do cofre do motor, a dianteira com faróis duplos dividiu opiniões — embora tenha conquistado o beatle John Lennon, que viu na 330 GT 2+2 um carro adequado para rodar por aí com sua esposa Cynthia e seu filho Julian (esse exemplar azul acima).

ferrari_330_gt_2_2_1

Em 1965 a Ferrari reestilizou o cupê, adotando um conjunto óptico mais tradicional. O câmbio 4+E deu lugar a uma caixa de cinco marchas, as rodas passaram a ser de liga leve e ar-condicionado e direção hidráulica passaram a ser oferecidos como opcionais.

ferrari_330_gt_2_2_21

Com o novo câmbio e o motor de 300 cv, a velocidade máxima era de 245 km/h e o modelo foi ainda mais popular que a 250 GT/E, com 1.099 unidades produzidas entre 1964 e 1967, quando foi substituída pela 365 GT 2+2.

 

365 GT 2+2

autowp.ru_ferrari_365_gt_2+2_1

A nova Ferrari era uma evolução da 330: a cilindrada aumentou para 4,4 litros, a potência foi para 320 cv e o comprimento chegou aos 4,97 metros, proporcionando espaço suficiente para quatro adultos com sua bagagem — algo inédito em uma Ferrari de quatro lugares.

A aceleração de zero a 100 km/h era feita em 7 segundos e a velocidade máxima chegava aos 245 km/h. Teve somente 800 exemplares produzidos entre 1968 e 1970.

 

365 GTC/4

ferrari_365_gtc_4

Depois da 365 GT 2+2 a Ferrari tentou continuar a linhagem dos quatro lugares com a 365 GTC/4 — que inspirou o nome da atual representante da família — porém a evolução do design não resultou em um 2+2 muito bom.

Baseada na 365 “Daytona”, ela tinha pouco espaço para as pernas dos ocupantes de trás, e a traseira fastback também tirava o espaço para a cabeça. Por isso ela acabou produzida somente em 1971 e 1972, embora tenha sido relativamente bem vendida, com 505 unidades produzidas.

 

365 GT4 2+2 / 400 GT / 400 GTi / 412

ferrari_365_gt4_2_2_7

Naquele mesmo 1972 veio a série mais duradoura e bem sucedida das Ferrari de quatro lugares até então: a 365 GT4 2+2, e suas sucessoras 400 GT e 412. Essa série de cupês 2+2 começou a ser produzida em 1973 e durou até 1989 — foram 16 longos anos e mais de 2.900 exemplares.

ferrari_365_gt4_2_2_12

O visual com linhas retas, bem mais moderno para a época, estreou na 365 GT4 2+2. Ela tinha o motor 4.4 das antecessoras,  com seis carburadores Weber side draft (que você talvez conheça como “Weber deitada”) para produzir 320 cv e chegar aos 245 km/h. As rodas eram de liga leve com desenho de cinco raios em forma de estrela, mas era possível escolher rodas raiadas da Borrani como opcional (que, cá entre nós, não combinavam muito com o visual moderno da 365). Por dentro, sendo um legítimo grã-turismo, a 365 GT4 tinha bancos de couro, ar-condicionado e vidros elétricos.

ferrari_400_automatic_i_18

Em 1976 veio a primeira evolução: o motor ganhou pistões mais largos para chegar aos 4,8 litros e, alimentado pelos seis carburadores Weber, chegou aos 340 cv.

ferrari_400_automatic_i_13

Com o aumento do deslocamento, um novo nome: 400 GT. Pela primeira vez na história da Ferrari o câmbio poderia ser automático — uma caixa Borg Warner de três marchas (algo comum na época) substituía o câmbio manual de cinco marchas caso o cliente desejasse. Era uma opção que privilegiava o conforto e até condizente com a proposta estradeira do carro, que era batizado 400 Automatic. Com o câmbio manual e o motor 4.8 a Ferrari 400 chegava aos 100 km/h em 7,1 segundos e à máxima de 245 km/h — o automático limitava o modelo em 240 km/h.

ferrari_400_automatic_i_16

Mas a verdadeira evolução chegou em 1979: o enorme conjunto de seis carburadores era substituído pela injeção eletrônica Bosch K-Jetronic. Com isso o nome adotava o pequeno “i’ ao final e os modelos passaram a se chamar 400 GTi e 400 Automatic i.

ferrari_400i_11

Apesar da alimentação mais moderna, a potência não aumentou, e sim diminuiu para 310 cv. O motivo não era falta de talento, e sim os limites de emissões, que começaram a dar as caras nos anos 1970. Mesmo assim a velocidade máxima continuou nos 245 km/h (240 km/h no automático). Mesmo com a potência inferior, a 400 GTi e a 400 Automatic i foram a série mais vendida dessa linha: 1.305 unidades foram produzidas entre 1979 e 1985.

Ferrari412-002

A última delas foi a 412, lançada em 1985 com um novo motor V12 de cinco litros que devolveu os 340 cv ao carro. Você talvez a conheça pelo vídeo “Electroma” do Daft Punk, que usa um modelo 1987 na cor preta.

O nome passou a ser o mesmo para as duas versões e pela primeira vez uma Ferrari foi equipada com freios ABS. O visual mudou sutilmente: as lanternas traseiras circulares continuaram lá, mas agora o círculo externo passou a ser maior.

Captura de Tela 2016-02-23 às 17.53.33

Outra mudança foi o deck traseiro, que foi ligeiramente elevado para aumentar a capacidade do porta-malas (compare com as antecessoras; elas parecem ter a traseira caída). Os para-choques passaram a ser pintados na cor do carro e, nas laterais, os frisos cromados das janelas foram substituídos por acabamento preto e as rodas côncavas foram substituídas por modelos planos.

Com a nova potência a 412 precisava de apenas 6,7 segundos para chegar aos 100 km/h (8,3 com o câmbio automático) e aos 245 km/h de velocidade máxima. A 412 foi produzida somente até 1989, e não teve uma sucessora direta como as demais.

 

Dino 308 GT4

ferrari_dino_308_gt4_4

Embora não tenha deixado uma sucessora direta, a 412 não era a única Ferrari de quatro lugares da época. Na verdade, em 1973, quando a 365 GT4 2+2 foi lançada, a Ferrari lançou a Dino 308 GT4. Ela foi a primeira Ferrari com um V8 em posição central-traseira (e nem venha com essa conversa de que ela “não era uma Ferrari” só porque se chamava Dino) e também a primeira a combinar essa configuração de motor a um layout de 2+2.

ferrari_dino_308_gt4_us-spec_6

O V8 de três litros tinha 255 cv, o que faz dela uma das menos potentes desta lista, porém ela pesava pouco mais de 1.100 kg, e por isso chegava aos 250 km/h tranquilamente. Além do motor 3.0 também houve uma versão com cilindrada reduzida para dois litros batizada 208 GT4, que foi criada em 1975 para driblar o imposto duas vezes mais alto para motores com cilindrada superior a dois litros.

ferrari_dino_308_gt4_8

Com 172 cv e sem alterações no peso, a velocidade máxima era um pouco mais baixa — 220 km/h. Em 1976 a Ferrari passou a chamá-la oficialmente como Ferrari 308 GT4 e assim ela ficou até 1980, quando deixou de ser produzida. Nesses sete anos, foram feitas 2.826 308 e 840 208.

 

Mondial

ferrari_mondial_8_us-spec_3

A outra Ferrari de quatro lugares que dividiu as lojas com a 400 e a 412 foi a Mondial, um dos maiores sucessos da história da marca, ainda que tivesse a configuração pouco comum de motor central-traseiro e quatro lugares — e até uma versão conversível. A ideia com a Mondial era oferecer uma Ferrari que pudesse ser usada diariamente, unindo a praticidade de um cupê 2+2 com o desempenho e todas as demais características de uma Ferrari.

ferrari_mondial_t_7

Isso resultou em um cupê de proporções estranhas e mais lento que seus irmãos de dois lugares. O motor era o mesmo V8 de três litros da 308 GT4, porém alimentado com injeção eletrônica. Apesar da evolução, a calibragem feita para agradar os ambientalistas reduziu a potência para 214 cv. Some isso aos 1.450 kg do carro, e o resultado é uma velocidade máxima inferior à da antecessora — “apenas” 230 km/h.

ferrari_mondial_quattrovalvole

O problema começou a ser resolvido em 1982 com o lançamento da Mondial Quattrovalvole. A potência subiu para 240 cv e a velocidade máxima para 240 km/h. Depois, em 1985 veio a Mondial 3.2, que teve sua cilindrada aumentada para… 3,2 litros. A potência subiu para 270 cv, a aceleração de zero a 100 km/h era cumprida em 7,5 segundos e a velocidade máxima finalmente chegou aos 250 km/h.

ferrari_mondial_cabriolet_us-spec_2

Antes de deixar a linha de produção a Mondial passou por mais uma evolução em 1989: o V8 ganhou mais 200 cm³ e chegou aos 3,4 litros, a potência aos 300 cv e a velocidade máxima aos 255 km/h — a aceleração até os 100 km/h era feita em apenas 6,5 segundos. Rebatizada como Mondial T, ela foi a primeira Ferrari com direção hidráulica e tinha suspensão eletrônica com três posições e ABS de série.

ferrari_mondial_t_1

A Mondial T foi a única Ferrari de quatro lugares disponível entre o fim da 412 e a chegada de sua sucessora, a 456 GT.

 

456 GT / 456M GT

ferrari_456_gt_17

Lançada em 1993, ela foi a primeira Ferrari desenvolvida sob a batuta de Luca di Montezemolo, que acertou a mão no modelo. A receita: um V12 dianteiro de 5,5 litros e 442 cv ligado a um transeixo de seis marchas. A bela carroceria tinha linhas curvas, faróis escamoteáveis e espaço suficiente para quatro pessoas e sua bagagem, com os clássicos 2+2 da marca.

Mesmo com 1.690 kg, a 456 GT deu um salto de desempenho em relação às antecessoras: precisava de apenas 5,2 segundos para chegar aos 100 km/h e podia seguir até 302 km/h — o que a tornou o carro de quatro lugares mais rápido do planeta na época.

ferrari_456_m_gt_24

Em 1996 a 456 ganhou a versão GTA, com câmbio automático. Foi o quarto modelo da Ferrari a trocar as marchas sozinho, embora ainda com um câmbio tradicional, com conversor de torque.

ferrari_456_m_gt_26

Dois anos depois, em 1998 a 456 ganhou uma reestilização para atualizar seu visual. Os faróis escamoteáveis foram mantidos e ela se tornou o último modelo da marca com esse tipo de farol. O motor continuou o mesmo, recebendo apenas uma ECU mais moderna e ordem de ignição modificada para tornar o funcionamento mais suave. Ela permaneceu assim até 2003, quando deu lugar à 612 Scaglietti depois de 3.289 unidades produzidas ao longo dos dez anos de estrada.

 

612 Scaglietti

ferrari_612_scaglietti_one-to-one_program_5

Uma das mais recentes Ferrari de quatro lugares também é uma das menos lembradas pelo público em geral, o que é uma grande injustiça. Lançada em 2004, a 612 Scaglietti certamente acabou ofuscada pelos outros grandes carros que a Ferrari fez no mesmo período, como a 360 Challenge Stradale, a 430 Scuderia, a 599 GTB Fiorano e suas versões radicais GTO  599XX e, claro, a Ferrari Enzo.

ferrari_612_scaglietti_one-to-one_program_3

Mas isso não significa que a Scaglietti era um carro para ser esquecido: o visual é controverso, mas inegavelmente italiano e ferrarista: foi inspirado na lendária 375 MM Pinin Farina Berlinetta Speciale “Ingrid Bergman”, um modelo feito em 1954 sob encomenda do diretor de cinema Roberto Rossellini como presente para sua esposa, a atriz sueca Ingrid Bergman.

FerrariIngridBergman

Com 4,90 m de comprimento, 1,97 de largura e 1,34 de altura, ela era baixa, larga e longa, mas também tinha espaço de sobra para seus quatro ocupantes. Sob o enorme capô está um V12 central-dianteiro de 5,5 litros e 540 cv, capaz de empurrar os 1.800 kg do grã-turismo até os 100 km/h em 4 segundos e seguir até os 320 km/h.

 

Ferrari California / California T

2015-Ferrari-California-T-interior-from-above

A primeira Ferrari com um motor V8 dianteiro também se tornou a primeira Ferrari conversível com quatro lugares desde o fim da Mondial T em 1993. Os dois lugares entre os bancos da frente e a capota retrátil talvez sejam os menores já oferecidos em uma Ferrari, mas eles estão lá para emergências e nenhum guarda poderá multá-lo por levar alguém ali.

 

 

 

 

 

 

Matérias relacionadas

As melhores propagandas de carros já feitas no Brasil – parte 1

Dalmo Hernandes

Coração mecânico: como uma fabricante de carros ajudou a revolucionar as cirurgias cardíacas

Eduardo Rodrigues

Eu e minha grande boca: as polêmicas causadas pela língua afiada de Jeremy Clarkson

Eduardo Rodrigues