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300SL Gullwing Roadster: quando a Mercedes tentou fazer um conversível com portas asa-de-gaivota

As portas asa-de-gaivota não foram um capricho estilístico da Mercedes. Elas foram a solução para um problema causado por outra solução. Quando Rudolf Uhlenhaut projetou o chassi spaceframe para o futuro carro de corridas da Mercedes, o W194, ele acabou com uma estrutura estupidamente leve e rígida, mas que impedia a instalação de portas.

Para resolver o problema, o jeito foi desenvolver uma porta a partir da base da janela lateral, estendendo-se pelo teto. Por causa da curvatura da janela para o teto, quando aberta, a porta parecia a asa de uma gaivota planando. Estava criada a porta asa-de-gaivota.

Nos modelos seguintes Uhlenhaut conseguiu fazer uma porta mais extensa, que abrangia a lateral do carro e que foi adaptada quando o W194 se transformou no W198, a versão de rua que conhecemos como 300SL. Como mostramos em nosso especial de Araxá, as soleiras são elevadas e o banco fica encaixado entre os elementos do chassi. É uma concessão que você precisa fazer para dirigir um carro de corrida convertido em esportivo de rua. Até hoje é assim.

Lançado em 1954, o carro foi um sucesso instantâneo em seu segmento e foi comprado por praticamente todas as celebridades e poderosos da época, como Juan Perón, Herbert von Karajan, Tony Curtis, Juan Manuel Fangio, Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Zsa Zsa Gabor e Glenn Ford. Dois anos depois, contudo, as vendas começaram a cair e a Mercedes começou a pensar no que fazer com o carro: tirá-lo de linha ou desenvolver uma evolução?

Na mesma época a Porsche e a BMW estavam indo razoavelmente bem na Califórnia com o 356 Speedster e o 507, então a Mercedes decidiu criar uma versão conversível para o mercado californiano. Foi assim que nasceu o 300SL Roadster, em 1957.

Para fazer o roadster, a Mercedes fez modificações no chassi que permitiam a adoção de portas convencionais — afinal não havia um teto fixo para ancorar as portas asa-de-gaivota (o que torna esta história ainda mais intrigante) — e deu a ele um motor revisado, com 243 cv para compensar os 125 kg a mais. O chassi também foi modificado para que o compartimento traseiro do estepe pudesse ser usado como porta-malas, passando a roda sobressalente para o assoalho do compartimento.

Em 1957 ele foi oferecido somente com uma capota de tecido, mas a Mercedes já planejava uma alternativa para deixar o carro mais adequado ao uso durante o ano inteiro: uma capota rígida. O opcional foi lançado no segundo semestre de 1958 e oferecido até o fim da produção do 300SL Roadster em 1963.

Entre 1957 e 1963 a Mercedes fabricou 1.858, mas não se sabe exatamente quantos destes saíram com a capota rígida opcional.

O desenvolvimento da capota rígida começou ainda em 1957. Com a intenção de reproduzir a silhueta do 300SL Coupé, ela tinha um teto em queda, mas adotou um vigia envolvente em vez de três janelas separadas pelas colunas C. Por algum motivo, a Mercedes tentou reproduzir as asas de gaivota no primeiro protótipo desta capota. Ela tinha com duas abas recortadas e pivotadas em su porção central, muito parecidas com as portas do primeiro 300SL de corrida, de 1952, e foi batizado provisoriamente como Flügeltüren Roadster — que pode ser traduzido como “roadster asa-de-gaivota”, uma vez que Flügeltüren significa literalmente “portas asa”.

A Mercedes fabricou apenas um protótipo com essa capota, mas por alguma razão ele jamais chegou à linha de produção. Perguntei o motivo à arquivista da divisão de clássicos da marca, a sra. Beate Frank, mas ela disse que não é autorizada a comentar os protótipos da fabricante, nem enviar fotos originais, embora tenha me enviado a única foto pública deste carro (acima), que foi editada em um livro já fora de catálogo sobre a história dos Mercedes SL, intitulado “Mercedes-Benz SL Faszination Seit Sechs Jahrzehnten”.

Na internet é possível encontrar uma galeria de fotos modernas de um exemplar do 300SL Flügeltüren Roadster, feita pelo fotógrafo alemão Sefan Bau e vendida como parte de um calendário temático do esportivo, mas a Mercedes me disse que “o carro em questão não é um veículo original” porque nenhum teto deste chegou à linha de produção. São as imagens acima.

A HK Engineering, empresa especializada em restaurações do 300SL, também compartilhou a imagem de um outro 300 SL Flügeltüren Roadster nos Stories de seu Instagram oficial. Na ocasião eles disseram que o carro era um dos dois únicos produzidos. Cheguei a entrar em contato com eles, mas não obtive respostas.

Considerando que a própria Mercedes diz que os carros não são originais, só podemos crer que são réplicas muito bem feitas deste teto inusitado para um conversível. E lamentar por ele nunca ter sido produzido em série.

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