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350 GT: primeiro de todos os Lamborghini levava um ano inteiro para ser fabricado

Uma das anedotas mais conhecidas no mundo dos automóveis é a treta entre Ferruccio Lamborghini e Enzo Ferrari – tanto que, no ano passado, até fizemos um post contando como exatamente aconteceu a contenda: Ferruccio, que gostava de disputar corridas em estradas com sua Ferrari 250 GT Coupé 1958. Em uma destas corridas, no começo dos anos 60, a embreagem da Ferrari simplesmente falhou, pois “não suportava as exigências do carro”, segundo conta o filho de Ferruccio, Tonino Lamborghini.

Depois de adaptar – com sucesso! – a embreagem de um de seus tratores na Ferrari, Ferruccio foi reclamar com Enzo Ferrari. “Il Commendatore“, furioso, disse a Ferruccio que ele simplesmente não sabia dirigir carros esportivos, e que continuasse a dirigir os tratores que fabricava.

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“Ah, é? Nesse caso, eu vou construir um carro esportivo melhor que o seu, cazzo!” Pode ser que Ferruccio Lamborghini não tenha dito estas palavras mas, de fato, foi a briga que o motivou a construir o Lamborghini 350GT, primeiro carro produzido em série pela companhia de Sant’Agata Bolognese.

Ferruccio produziu 120 unidades do 350GT entre 1964 e 1966. Sua ideia era criar um automóvel melhor que uma Ferrari em todos os aspectos. Curiosamente, porém, o italiano não planejava que seus carros disputassem corridas, e queria que seus carros fossem os melhores nas ruas.

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Por esta razão, o 350GT era um grand tourer por excelência: interior espaçoso, com um compartimento de bagagem atrás dos bancos dianteiros, carroceria com três volumes bem definidos (e um porta-malas razoavelmente amplo) e, claro, um motor V12 na dianteira. Com 3,4 litros, o propulsor desenvolvido por Giotto Bizzarrini era capaz de desenvolver até 400 cv e girar a 11.000 rpm. Ele tinha cárter seco, seis carburadores Weber de corpo duplo e taxa de compressão de 11:1. Por questões de durabilidade, Ferruccio pediu para que o motor fosse amansado, resultando em “apenas” 280 cv a 6.500 rpm, cárter úmido e taxa de compressão reduzida para 9,5:1. Tudo bem: o 350GT ainda era capaz de acelerar até os 100 km/h em 6,8 segundos e prosseguir até os 250 km/h. O câmbio era manual de cinco marchas, fornecido pela ZF.

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É um carro bastante raro, e por isso este exemplar que encontramos à venda no eBay nos é tão atraente: jamais restaurado, com carroceria e mecânica originais, e apenas uma repintura.

O carro de chassi nº 0343 foi o 62º produzido, e é reflexo de uma época em que a produção de esportivos de luxo era realmente artesanal: Lamborghini usou nele o processo de fabricação conhecido como Superleggera, patenteado pela Carrozzeria Touring, de Milão, que fixava os painéis de alumínio diretamente a uma estrutura feita com finos tubos de metal. Diferentemente da construção tubular, o método Superleggera exige que se tenha um chassi separado, pois a armação tubular só serve para encaixar os painéis da carroceria, e não é capaz de dar suporte a componentes de suspensão, por exemplo. No entanto, a carroceria fica muito mais leve. O 350GT, por exemplo, pesava 1.450 kg em ordem de rodagem – pouco para um carro do início dos anos 1960 com interior luxuoso revestido de couro, cromados na carroceria e um motor V12 na dianteira.

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A fabricação à mão, porém, tinha seus poréns – especialmente para uma fabricante iniciante, como a Lamborghini. O maior deles era a demora: primeiro, vinha a fabricação dos componentes individuais. Depois, a construção e pintura da carroceria, a montagem do motor, a instalação de todos os componentes mecânicos, o acabamento do interior e os testes nas ruas. O carro passava semanas em um setor da fábrica e depois ia para outro, onde ficava mais algumas semanas. Sem contar os atrasos.

Por isso, a carroceria, o motor, o câmbio e outros componentes têm números diferentes: a caixa de direção tem o nº 368726 e foi feita em março de 1964; a transmissão, nº 220, é de outubro de 1964; o motor, nº 0274, foi construído em junho de 1965 e o diferencial traseiro foi feito em julho de 1965.

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Portanto, este exemplar precisou de um certificado de originalidade emitido pelo setor histórico da Lamborghini – provando que, mesmo com números completamente diferentes, trata-se de um matching numbers. Para isto, foi preciso que uma inspeção completa fosse realizada pela Lamborghini, que tirou mais de 100 fotos de todos os componentes do carro para garantir que o 350GT não recebeu um novo motor ou um novo câmbio, por exemplo. Loucura, não?

Os primeiros testes com o carro aconteceram em janeiro de 1966 e, depois de alguns ajustes finos, só em abril daquele ano o carro foi entregue a seu primeiro dono, um entusiasta de Madrid, na Espanha. Ele foi buscar o carro na fábrica e voltou dirigindo para casa. Aliás, a durabilidade era um dos maiores argumentos de venda da Lamborghini: Ferruccio garantia que o conjunto de motor e câmbio duraria 70.000 km sem qualquer problema.

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O carro permaneceu em Madrid por nada menos que 44 anos e, neste período, só trocou de mãos uma vez. Em 2004, seu segundo dono mandou pintar a carroceria de verde metálico, única modificação que o carro sofreu em suas características originais. Em 2009, o 350GT foi vendido pela segunda vez – agora, para o colecionador japonês Isao Noritake, um dos fundadores do Clube de Proprietários de Lamborghini do Japão, que existe desde 1988.

Noritake jamais registrou o Lambo para rodar no Japão e o deixou guardado em seu galpão durante todo o tempo em que ficou com o carro. O que é uma pena, pois seus dois donos anteriores trataram de colocar mais de 97.000 km no hodômetro. Carros foram feitos para ser usados.

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De qualquer forma, em 2015, o 350GT nº 0343 foi vendido à concessionária americana Symbolic International, que fica em San Diego, na Califórnia. Os caras trouxeram a carroceria de volta à sua cor original (cinza “Grigio Saint Vincent”) e constataram que não havia uma marca de acidente ou sinal de ferrugem sequer. O interior é totalmente original e o couro jamais foi restaurado. O motor está completamente revisado, assim como o câmbio e o diferencial.

É por isto que o Lamborghini 350GT está anunciado por US$ 750 mil, ou cerca de R$ 2,48 milhões em conversão direta. É quase o dobro dos US$ 402 mil (R$ 1,25 milhão) que custa um Aventador SV zero quilômetro, por exemplo.

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