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488, 250 GTO, 515BB: o que significam os nomes das Ferrari?

Já procurou alguma vez os clássicos da Ferrari na internet? Você já reparou a quantidade de carros diferentes que um mesmo nome pode ter? Em vez de perder horas tentando entender o que eles significam, deixe que o FlatOut explique para você.

Você sabe do que estou falando: a Ferrari 250 Testa Rossa é tão 250 quanto a GTO e a Breadvan, mas todas elas são carros diferentes — incluindo o chassi. Por outro lado, a 330 LMB é a cara da 250 GTO e, mesmo usando como base a 250 Lusso, ela não poderia ser batizada de 250 LMB.

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Isso se deve ao sistema de nomenclaturas da Ferrari na época. Ao batizar seu primeiro carro, a 125S Enzo Ferrari adotou o deslocamento de cada um dos 12 cilindros do motor Colombo de 1,5 litro (1.500 cm³/12 cilindros = 125 cm³). Depois, quando o deslocamento do motor foi ampliado para 1,9 litro no modelo seguinte, o carro foi batizado com o nome 166.

Assim, a 250 Testa Rossa e a 250 GTO têm o mesmo nome porque compartilham o mesmo motor Colombo V12 de três litros (12 x 250 = 3.000), e a 330 LMB, embora use a mesma base da 250 Lusso, tem esse nome porque usa uma variação de quatro litros do V12 Colombo (12 x 330= 3.960).

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Esse sistema de nomenclatura baseado no deslocamento do motor foi aplicado a todas as Ferrari V12 de motor dianteiro lançadas até 1994, exceto a 365 BB. Nesta última a Ferrari adotou um novo sistema criado em 1968 para ser usado nos modelos de motor central-traseiro da Dino.

 

Novo layout, nova nomenclatura

Em 1968 quando a Ferrari lançou seu primeiro modelo de motor central-traseiro, o Dino 206 GT, a formação do nome usou o deslocamento do motor e o número de cilindros. Não há uma explicação oficial para isso, mas se você dividir 2.000 por seis, encontrará a dízima periódica 333,33… que, além de ser imprecisa, passava a impressão de que se tratava de um carro mais potente que os modelos V12 como os 275 ou 250. Talvez por isso Enzo tenha decidido adotar esse sistema novo. Por esse motivo, quando a versão com motor 2.4 foi lançada, seu nome foi alterado para 246 GT.

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O segundo carro batizado com este sistema foi a Dino 308 GT4, que ganhou um V8 de três litros. Depois, quando a Ferrari lançou uma versão do carro com um motor 2.0 na Itália, como forma de mantê-lo no limite da categoria de tributação da época, o nome foi modificado para 208 GT4. Na prática os dois são o mesmo carro, mudando apenas o deslocamento do motor.

Até aí, contudo, o sistema era oficialmente exclusivo da sub-marca Dino. Tanto que a Ferrari 365BB, lançada em 1973, foi o único modelo de motor central-traseiro da Ferrari a ser batizado com o volume de deslocamento do cilindro de seu motor 4.4 flat-12 (12 x 365 = 4.380). Até mesmo a Testarossa, que nasceu com nome próprio, acabou rebatizada como 512TR e F512M nos anos 1990.

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Em 1976 quando o V12 da Berlinetta Boxer foi modificado para deslocar cinco litros, em vez de usar 416 ou 417, Enzo Ferrari decidiu usar o mesmo nome do 512 de corrida. O número seguia a mesma regra dos modelos V6 e V8, combinando a cilindrada (5 litros) e o número de cilindros (12).

Esse sistema foi utilizado por praticamente todas as Ferrari de motor central até a F355, e voltou brevemente na 458 Italia.

 

Nome = deslocamento total do motor

Em 1995, quando a Ferrari lançou a sucessora da Testarossa (que então já se chamava F512M), o motor flat-12 foi substituído por um V12 convencional, com 5,5 litros de deslocamento. Isso significa que, se fosse seguir o padrão de nomenclatura das 512, o carro deveria se chamar 5512, ou acabaria com o mesmo nome da antecessora. Usando o padrão de deslocamento por cilindro, o nome ficaria 458 — um número menor que o da antecessora, o que passava uma impressão de regressão. A solução foi batizar o carro com o deslocamento em decilitros: 550. Sua sucessora, que recebeu um motor ainda maior, foi batizada 575M.

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Na mesma época a Ferrari lançou a substituta da 355, e adotou o mesmo padrão: em vez de voltar aos nomes com final 8, criando a 368, o nome escolhido para novo modelo foi 360 em alusão ao seu motor de 3,6 litros. Sua sucessora chegou em 2004 com um motor de 4,3 litros e, mantendo o sistema, foi batizada F430.

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Naquele mesmo ano a Ferrari lançou a sucessora da 456M, que foi a única exceção a este sistema. Equipada com um V12 de 5,7 litros, em vez de ser batizada como 570 (que, novamente, a faria parecer inferior à 575M), a marca decidiu homenagear seu carro de corrida que disputou a CanAm no final dos anos 1960, a Ferrari 612, e também a carrozzeria Scaglietti que fabricaria sua carroceria. Assim nasceu o nome 612 Scaglietti.

 

A volta do nome-deslocamento?

Quando a Ferrari adotou o downsizing na 488 GTB, o motor 4.5 V8 da 458 Italia foi substituído por um V8 3.9 biturbo. Se fosse seguir o padrão adotado até então, o nome da nova Ferrari turbo seria 398T, mas isso certamente denotaria uma regressão na linhagem (que aumentou gradualmente de 308 até 458). A Ferrari então voltou a adotar o deslocamento por cilindro para batizar o modelo (8 x 488= 3.904).

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Sendo o único modelo com motor downsized e nome baseado no deslocamento por cilindro, ainda não se  sabe se sua sucessora continuará usando o mesmo esquema de nomes. Nossa aposta é que a 488 foi uma exceção para homenagear a 308 GTB dos anos 1970. O motivo? Se o motor for ampliado para quatro litros em uma próxima geração, o deslocamento por cilindro será 500 cm³ (nome de um V12 dos anos 1960). Se a cilindrada subir para 4,1 litros, o deslocamento será 512 cm³ — que é o mesmo nome da segunda Berlinetta Boxer e das Testarossa. Se subir para 4,4 litros, o deslocamento por cilindro será 550 cm³.

O que deverá acontecer é o que já aconteceu com os modelos V12: a adoção de nomes próprios como f12berlinetta, GTC4Lusso ou mesmo as antigas Mondial e Testarossa.

 

Mas… e as letras?

A Ferrari quase sempre usou letras acompanhando os nomes numéricos como forma de diferenciar as versões ou detalhar características específicas de cada um. Ela é uma das poucas marcas que respeitou a nomenclatura original dos GTs, utilizando GTO para os modelos de homologação, GTS para os modelos conversíveis, GTB para as berlinetas, e GTC para os modelos de competição ou cupês.

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Nos anos 1950 e 1960 ela também usou os nomes LWB e SWB para designar modelos de chassi longo e chassi curto (“long wheelbase” e “short wheelbase“). Também eram comuns as siglas LM e MM para designar os modelos feitos para as 24 Horas de Le Mans e para a Mille Miglia.

A Ferrari também usou a letra M ao longo dos anos para designar modelos com evoluções sutis. A letra significa modificatta (modificada, em português) e foi usada em modelos como a 456M ou a 512M, que eram facelifts com algumas modificações mecânicas em relação aos antecessores, porém não chegavam a ser uma nova geração.

 

Bonus track: os presentes de aniversário

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Como você já deve ter percebido, não citamos a F40 nem a F50. É porque o nome destes dois especiais remetem aos marcos comemorativos que cada um simboliza: a F40 marca os 40 anos da Ferrari e a F50 os 50 anos da marca. A Enzo Ferrari (ou Ferrari Enzo, se preferir) é frequentemente chamada de F60 pelo mesmo motivo.

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