70 anos de 356: a história e as versões do primeiro esportivo de rua da Porsche

Leonardo Contesini e Dalmo Hernandes 14 junho, 2018 0
70 anos de 356: a história e as versões do primeiro esportivo de rua da Porsche

Uma data importantíssima aconteceu nos últimos dias. Em 8 de junho de 1948, 70 anos atrás, foi homologado para circular nas ruas o primeiro exemplar do Porsche 356. O carro existe até hoje, guardado no museu da marca em Stuttgart, e recentemente passou por uma restauração que o devolveu à sua forma original.

O Professor Ferdinand Porsche começou a fabricar carros bem antes de existir uma fabricante de esportivos com seu sobrenome. No início do século 20 ele criou um carro com um motor elétrico em cada roda, prevendo uma tendência que viria um século depois. Nos anos 1920 ele criou uma série de carros de corrida e esportivos para a Mercedes, e depois nos anos 1930 foi criar os Auto Union de Grande Prêmio, com o inovador conceito de motor central-traseiro e ainda apresentou ao governo alemão um carro popular barato e robusto: o Volkswagen, “carro do povo” em português. Em 1951, aos 75 anos de idade, ele morreu. Mas a Porsche, fabricante de automóveis, estava apenas começando sua história.

autowp.ru_porsche_356_roadster_1_1

A Porsche foi fundada em 1931 e criada especificamente para o desenvolvimento do Fusca. Durante a Segunda Guerra Mundial, porém, a companhia dedicou-se totalmente à indústria bélica, fornecendo veículos e equipamentos militares para o partido Nazista. Para evitar possíveis bombardeios, parte da Porsche foi transferida de Stuttgart, na Alemanha, para Gmünd, na Áustria.

Com o fim do conflito e a queda de Hitler, em 1945, a Porsche foi convocada pelas autoridades francesas a transferir sua fábrica e todo o trabalho de desenvolvimento de novos produtos para a França. Parte da equipe de funcionários da Porsche resistiu à ideia, causando um mal-estar que culminou na prisão de Ferdinand Porsche e de seu filho, Ferry Porsche.

Depois de seis meses preso na França, Ferry pagou uma fiança de 500.000 francos, foi solto e dedicou-se a cuidar dos negócios da família. Já Ferdinand Porsche, o pai, passou 20 meses atrás das grades, sem direito a julgamento. Foi em 1946 que Ferry sua irmã Louise fundaram uma nova companhia, a Porsche Konstruktionen GesmbH, na cidade cidade austríaca de Gmünd. Era uma forma de juntar dinheiro para pagar também a fiança de seu pai e, ao mesmo tempo, fazer com que a empresa seguisse o rumo que ele queria.

cisitalia-360

Carros de competição como o Porsche Typ 360, monoposto desenvolvido em parceria com a equipe Cisitalia (e equipado com um motor flat-12 de 1,5 litro), eram só parte do negócio, que também oferecia reparos em automóveis e vendia bombas de água e tornos mecânicos.

Naquela época Ferry Porsche dirigia um Fusca. O carro era um conversível, equipado com um compressor mecânico no motor boxer refrigerado a ar. Na concepção de Ferry, um carro pequeno e potente era mais divertido de guiar que um carro grande e potente.

porsche-356-015-1-04

Mas ele queria mais. Ou melhor, menos. Ou os dois. Olha só: menos lugares, apenas dois, significaria menos peso. Com menos peso, o carro seria mais rápido, o que ficaria ainda melhor se ele fosse mais potente. Foi pensando assim que Ferry Porsche concebeu o primeiro Porsche que, em sua visão – e na visão de seu pai, que ganhou a liberdade em 1947 – seria digno do nome. Seu nome oficial era “Porsche nº 1”, mas na verdade aquele já era o 356º projeto criado pela companhia desde a década de 30. Por isso, logo o nome “Porsche 356” foi adotado.

O esportivo dividia alguns componentes com o Fusca, é verdade, como o bloco do motor, a capela e partes da suspensão. E também tinha em comum a construção por carroceria sobre chassi e o motor arrefecido a ar, ainda que este fosse central-traseiro. Mas era um roadster de dois lugares com carroceria monobloco (nada de para-lamas destacados) e para-brisa baixo, desenhado por Erwin Komenda – que já trabalhava com a família Porsche havia tempos, sendo um dos grandes responsáveis pelo visual dos primeiros protótipos do Fusca.

2fb73f1e7aa87866ea4295b79af2f407

A mecânica era emprestada do Volkswagen – o mesmo motor boxer de quatro cilindros e 1,1 litro, que com dois carburadores Solex 26 VFJ desenvolvia 40 cv, e o mesmo câmbio não sincronizado. O chassi, contudo, era novo. A construção levou cerca de um mês, e logo que ficou pronto o carro foi registrado junto às autoridades austríacas para rodar nas ruas – ao menos a burocracia naquela época era menor. A dirigibilidade do carro rendeu elogios da imprensa especializada na época.

autowp.ru_porsche_356_roadster_-1_3

É por isso que a Porsche, apesar de fundada em 1931, considera que suas atividades começaram de verdade no dia 8 de junho de 1948, com a homologação do primeiro Porsche 356. Ele foi o primeiro Porsche, e era tão bom que sobreviveu até mesmo à chegada do 911 em 1963, deixando a linha apenas em 1965. Nada mais justo, então, que contar os detalhes de cada uma das versões do primeiro Porsche. Começando pelo começo.

 

Porsche 356 “Gmünd Coupe” – 1948 a 1950

porsche

Ferdinand Porsche e um dos Gmünd Coupes

Não se sabe ao certo quantas unidades do Porsche 356 foram produzidas na Áustria entre 1948 e 1950. Sabe-se que foi algo entre 48 e 52 carros, mas a sendo que a resposta mais aceita é “por volta de 50”. Com isto, esta primeira leva do 356, que ficou conhecida como Porsche 356 “Gmünd”, ainda mais especial – afinal, são carros raríssimos. Os Porsche 356 Gmünd usavam o mesmo motor 1100 do Fusca (1.131 cm³), porém com carburação dupla Solex 46 VFJ para desenvolver 40 cv.

Visualmente, a carroceria era de alumínio, com para-choques discretos quase embutidos, o para-brisa era dividido ao meio e ausência de setas. Em vez disso ele usava charmosos indicadores de direção, parecidos com as “bananinhas” dos primeiros Fusca do Brasil, porém posicionadas nos para-lamas dianteiros.

cb0a79ec690292adecf6641d5dfbe80c--porsche-cars-porsche-

É importante lembrar, porém, que todos os carros foram fabricados de forma artesanal e, por conta disto, apesar de usarem os mesmos moldes eles não eram 100% idênticos, com algumas diferenças em detalhes de acabamento. Alguns exemplares, feitos em 1949 e 1950, por exemplo, já haviam adotado piscas convencionais.

porsche_356_2_gmuend_coupe_2

Os modelos com piscas convencionais tinham duas lanternas circulares em cada lado, enquanto os modelos com bananinhas tinham apenas uma, como no carro abaixo. Outra distinção visual dos Gmund era a tampa de acesso ao motor, com apenas uma grade estreita, vertical e centralizada.

porsche_356_2_gmuend_coupe_4

Por dentro eles são identificados pelo volante de três raios (normalmente do tipo “banjo”, como esse da foto abaixo), pelo velocímetro invertido e pelos controles de faróis, limpadores e chave de ignição centralizados em uma espécie de “dock”.

Austria_Gmuend_Porsche_Museum01

Uma outra variação de volante, mais simples. Os instrumentos no painel variavam de acordo com as escolhas dos proprietários e da Porsche.

 

Porsche 356 “Pre-A” – 1950 a 1955

3279_10624015_0

Parece um Gmünd? Pois acompanhe e você saberá identificar as diferenças

Os carros produzidos na Áustria costumam ser separados dos outros, como uma “pré-série”. Em 1949, porém, Ferdinand Porsche levou a família de volta para a Alemanha. Apenas Louise Porsche e seu marido, o ex-advogado Anton Piëch, permaneceram na Áustria, onde a Porsche Konstruktionen GesmbH continuou operando como distribuidora de automóveis e, mais tarde, foi transformada em uma segunda equipe de corridas (uma história que, aliás, merece ser contada com calma em outra ocasião). Ferry Porsche juntou-se a seu pai em Stuttgart para retomar as atividades da companhia principal, e a fabricação do Porsche 356 continuou na Alemanha a partir de 1950.

Os carros produzidos entre 1950 e 1955 são conhecidos como “Pre-A”, de forma geral. A principal diferença para os Gmünd é que eles não são feitos de alumínio, mas de aço. Visualmente eles se distinguem pelas lanternas traseiras retangulares, com os piscas circulares sob as lanternas, e um suporte cromado para a luz de freio (havia apenas uma, centralizada sobre a placa) e para a luz da placa.

porsche-356-coupe_42

Por dentro, eles passaram a ser equipados com um rádio com alto falante integrado no centro do painel, ganharam um porta-luvas à frente do passageiro, e o quadro de instrumentos passou a contar com um conta-giros ao lado do velocímetro — agora com escala na posição convencional.

800px-1952_Porsche_356_1500_Super_interior

No primeiro ano, 1950, eles eram todos equipados com o motor 1100 derivado do Fusca, mas em 1951 a Porsche lançou um novo motor 1300 litro (1.286 cm³) de 44 cv e 8,2 mkgf de torque, que levava o carro de 0-100 km/h em cerca de 25 segundos, com velocidade máxima de 145 km/h.

Em 1952 veio um motor ainda maior de, 1.488 cm³ e 60 cv a 5.00 rpm, que no ano seguinte ganhou um novo virabrequim que lhe tirou 5 cv, mas deu ao motor mais elasticidade, visto que a potência máxima agora chegava às 4.400 rpm.

porsche_356_13_1

Em 1953 veio a primeira mudança visual no 356 Pre A: o para-brisa bipartido dá lugar a um vidro inteiriço com uma dobra vertical no meio, formando um V — o chamado “bent window”. Em algumas fotos ele parece dividido devido à haste de ajuste de altura do retrovisor, presa ao topo do painel e ao arco do para-brisa. Os para-choques ficaram destacados e com protetores (as chamadas “picaretas” no Brasil), enquanto as lanternas passaram a ser circulares com as luzes de freio integradas e os piscas adjacentes também circulares. Os modelos conversíveis mudaram, trocando o pequeno vidro traseiro na capota por uma janela plástica.

adc1901c568aada74ce69b6dacd325ee538da0c2

Também foi  o primeiro ano do 1500 Super, com dois carburadores Solex 40, 70 cv e pneus radiais.

No ano seguinte, 1954, novas mudanças no estilo: o capô passou a usar uma alça mais longa e destacada, com o logotipo da Porsche,  os piscas dianteiros foram integrados à grade da buzina. O 1300 ganhou uma versão Super com a carburação dupla do 1500 Super, o que lhe rendeu 16 cv extras, chegando aos 60 cv.

porsche_356_1500_cabriolet_16

Em 1955 surgiu a terceira variação de carroceria do 356: o Speedster. O importador americano Max Hoffman, que tinha relações muito boas com diversas fabricantes norte-americanas, encomendou à Porsche uma versão com toque mais esportivo e espartano: para-brisa mais baixo, interior simplificado com bancos do tipo concha e um novo painel que acabaria influenciando o redesign do interior do 356 no ano seguinte. Com os motores 1500 de 55 cv e 1500S de 70 cv o Porsche 356 Speedster foi um sucesso instantâneo, especialmente no sul da Califórnia.

porsche_356_21

No total, somando os modelos Gmünd e os Pre A alemães, foram fabricados 7.627 exemplares do Porsche 356 entre 1948 e outubro de 1955.

 

Porsche 356 A – 1955 a 1960

 

O Porsche 356 recebeu diversas melhorias técnicas no fim de 1955, o que lhe rendeu uma nova denominação: 356 A. O carro ganhou um novo para-brisa, curvo, e o motor 1.100 foi aposentado, colocando o motor 1.300 como nova versão básica. Havia ainda os motores de 1,5 litro e, como novidade, um boxer de 1,6 litro (1.582 cm³) com carburador duplo e 60 cv.

autowp.ru_porsche_356a_carrera_coupe_7

Pela primeira vez o conta-giros era posicionado no centro do painel de instrumentos, configuração que foi mantida em todo Porsche de rua lançado desde então. O painel era uma variação mais luxuosa do painel do Speedster, com porta-luvas e cinzeiro.

porsche_356a_1600_gs_carrera_gt_speedster_4

Mas a maior novidade era um motor 1.500 oferecido como opcional a custo extra: com comando duplo nos cabeçotes e carburador Solex de corpo duplo, o chamado motor Carrera originou-se no Porsche 550 Spyder e entregava algo entre 100 cv. Àquela altura, a Porsche chegava ao 10.000º exemplar do 356.

No ano seguinte, 1957, novas alterações de estilo: janela traseira maior e lanternas traseiras em forma de gota, substituindo as circulares. Além disso, o Speedster ganhava uma capota um pouco mais espaçosa. Naquele mesmo ano foi lançado o 356 Carrera De Luxe, que aliava o motor four-cam a um acabamento mais requintado e trazia entre os equipamentos um aquecedor – item indispensável no inverno europeu. A versão mais simples com motor Carrera recebia o sobrenome GT, e podia ser cupê, conversível ou Speedster.

porsche_356a_1600_gs_carrera_gt_coupe_9 porsche_356a_1600_gs_carrera_gt_coupe_22 porsche_356a_1600_gs_carrera_gt_coupe_15

O Carrera também dispensava os bancos traseiros – ainda que eles não passassem de almofadas, em todo caso

Em 1958 o Speedster deu lugar ao 356 “D”, mais tarde rebatizado como “Roadster”, que abandonava o para-brisa extremamente baixo e ganhava bancos mais confortáveis, além de janelas de verdade nas laterais. Mas ainda tinha uma capota mais baixa e acabamento mais minimalista. Foram feitas 21.045 unidades do Porsche 356 A.

porsche_356a_1600_super_convertible_d_by_drauz_34 porsche_356a_1600_super_convertible_d_by_drauz_71porsche_356a_1600_convertible_d_by_drauz_20

O 356A  “Roadster D” abandonou o para-brisa minúsculo, mas o panel continuava minimalistae sem porta-luvas. Mas tinha um relógio!

 

Porsche 356 B

porsche_356b_1600_s_coupe_2

Cada vez mais próximo do que viria a ser o Porsche 911

No fim de 1959 foram promovidas novas alterações à linha. O chamado Porsche 356 B tinha para-choques mais altos e faróis mais destacados da carroceria, em uma mudança de estilo que previa o futuro Porsche 911. A coluna de direção ganhou um amortecedor, tornando a condução mais macia, e o modelo ganhou uma nova versão, a Super 90, equipada com uma versão de 90 cv do motor 1.600, graças a um bom retrabalho de fluxo e um aumento na taxa de compressão. O Super 90 também vinha com pneus radiais de série, melhorando radicalmente a dinâmica do carro. O Carrera passou a ser equipado com um sistema elétrico de 12 volts.

porsche_356b_1600_super_90_roadster_by_drauz_4

No ano de 1962 a tampa do motor passou a vir com uma entrada de ar dupla, melhorando o arrefecimento. Além disso, foi introduzido um bocal de abastecimento externo no para-lama dianteiro direito. Também naquele ano, alguns meses depois, vieram os freios a disco. Se um Porsche 356 fosse equipado com o motor Carrera e freios a disco, ele era chamado Porsche 356 Carrera SC.

67_254_08

Foi nesta época, mais precisamentem em 1961, que a alemã Karmann produziu uma série especial chamada Karmann Hardtop, que consistia em um 356 conversível com uma capota rígida soldada à carroceria.

porsche_356b_2000_gs_carrera_2_coupe_2 porsche_356b_carrera_2_coupe_3

No ano seguinte seria lançado o Porsche 911, mas a companhia de Stuttgart sabia que o 356 era um carro bom demais para ser abandonado assim, de repente. Assim, em setembro de 1962, a Porsche mostrou o melhor Porsche 356 lançado até então: o Carrera 2, com motor de dois litros (1.966 cm³), comando duplo nos cabeçotes carburação dupla e 130 cv. Ele tinha freios a disco e era capaz de acelerar de zero a 100 km/h em 9,2 segundos, com velocidade máxima de 200 km/h.

 

Porsche 356 C

porsche_356c_1600_coupe_by_karmann_1

Enquanto preparava o lançamento do Porsche 911 (que ainda se chamava 901) para o Salão de Frankfurt de 1963, a Porsche achou tempo para melhorar ainda mais 0 356.

O carro ganhou novos motores 1.6 com comando no bloco, de 70 cv ou 95 cv (dependendo dos carburadores escolhidos), e freios a disco nas quatro rodas em todas as versões. O Carrera, com motor 2.0 de 110 cv graças a um aumento na taxa de compressão, era oferecido apenas na versão GT. Fora a adoção de um novo painel de instrumentos, com linhas menos rebuscadas, não foram realizadas modificações estéticas.

 

autowp.ru_porsche_356c_1600_coupe_7

Repare que o rádio agora não tem mais o alto-falante embutido – agora há dois alto-falantes na frente dos ocupantes, como nos carros modernos

porsche_356c_carrera_2_coupe_6

Os carburadores tinham estas telas para protegê-los de impurezas 

As vendas do Porsche 356 C foram encerradas na Europa em 1964, ano em que foram fabricados mais de 14.000 dos 16.684 exemplares. Nos EUA, onde ainda havia demanda, ele foi oferecido ainda até 1965. A produção total do Porsche 356 em 17 anos, de 1948 a 1965, foi de 76.313 exemplares, sendo que os dez últimos foram um pedido especial da polícia holandesa: um lote de conversíveis que foi montado em 1966, como modelo 1965.

28fa4155a69c5723bb2be7b8507e603a