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Car Culture

961, o Porsche feito para o Grupo B do WRC que acabou disputando as 24 Horas de Le Mans

Esta é uma história de superlativos: o Porsche mais avançado e potente de sua época deu origem a um bólido para a mais extrema categoria da história dos ralis, mas acabou indo competir na corrida de longa duração mais desafiadora do planeta. E ele foi um fracasso, mas isto é só um detalhe. Eis a história do Porsche 961.

Sua origem está no Porsche 959, o supercarro da Porsche na década de 1980, o primeiro da linhagem que daria origem ao Carrera GT e ao 918 Spyder. Você pode encontrar tudo o que precisa saber sobre ele no nosso especial, mas aqui vai um resumo: ele foi o primeiro Porsche com tração integral da história, o primeiro carro de rua da marca a chegar aos 300 km/h (isto em 1987), tinha um flat-6 biturbo de 2,85 litros e 450 cv, carroceria em Kevlar e alumínio, raios ocos nas rodas e chegava aos 100 km/h em 3,6 segundos. E ele acabou provando que a concepção do 911, com seu motor boxer pendurado na traseira, ainda tinha muitos anos pela frente — tanto que, em 2015, estamos pirando com o novo 911 GT3.

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Ah, e ele era o maior rival da Ferrari F40. Precisamos dizer mais?

Como se não bastasse, o primeiro conceito do 959 se chamava Gruppe B. O carro foi apresentado em 1983 no Salão de Frankfurt e sua figura imponente causou uma sensação. Dois anos depois, a versão de produção era apresentada e começou a ter suas 200 unidades fabricadas para homologação.

Só que há um detalhe importante: o 959 foi criado para competir no asfalto, pois no início a ideia da FIA para o Grupo B era aproveitar o regulamento em corridas de longa duração e a Porsche pensou em usar a experiência nas pistas para aprimorar seus carros de rua. Contudo, como todos sabemos, o Grupo B acabou se tornando uma categoria do Campeonato Mundial de Rali, o WRC, mas não era o que a Porsche queria.

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No fim das contas a Porsche acabou levando o 959 para competir no Rally Dakar em 1985 e 1986. No primeiro ano as coisas não correram muito bem — na verdade, foi um desastre: foram levados para a África três carros, e nenhum deles conseguiu deixar a linha de largada por problemas mecânicos. A redenção veio no ano seguinte, quando a Porsche venceu a competição com direito a dobradinha de René Metge e Jack Ickx.

Foi uma ótima maneira de não inutilizar os 959 preparados para o rali, mas a Porsche ainda estava determinada em correr no asfalto com o 959. Sendo assim, ainda naquele ano e paralelamente ao Dakar, a Porsche criou o 961.

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O 961 era baseado em um Porsche 959 de rua — o de chassi nº 10016, e usava um motor muito parecido com o encontrado nos protótipos do Grupo C 956 e 962C, baseado no motor do 959: um flat-6 de 2,8 litros com dois turbocompressores sequenciais que, com um aumento na taxa de compressão, entregava 693 cv que, moderados por um câmbio de seis marchas, iam para as quatro rodas — ainda que, diferentemente do que acontecia no 959, a maioria da força fosse para o eixo traseiro.

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O sistema de suspensão ajustável do 959, um de seus maiores trunfos, também foi mantido no 961 — mas, em vez de ser controlado pelo motorista, só podia ser controlado pela equipe de apoio nos boxes. Os freios vinham do 962, e a carroceria foi modificada com painéis ainda mais leves (o carro pesava 1.150 kg) e um algumas alterações no desenho para entregar mais downforce.

Pintado de branco, o 961 estreou nas 24 Horas de Le Mans de 1986 na categoria GTX da IMSA, ou International Motorsports Association, pois os 200 carros necessários para a homologação no Grupo B do WSC ainda não estavam prontos. Seu desempenho foi bastante satisfatório nos primeiros testes, sendo o décimo colocado nos treinos livres nas mãos de René Metge, mas nos treinos de classificação o carro ficou em 26º lugar.

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No fim das contas, isto serviu para demonstrar seu potencial, pois Metge e seu colega, o também francês Claude Ballot-Lena, conseguiram terminar a corrida em sétimo lugar na classificação geral. De qualquer forma, naquele ano a Porsche só tinha que comemorar, pois o vencedor foi o Porsche 962C de Derek Bell, Hans Stuck e Al Holbert venceu a corrida.

Depois de uma tentativa frustrada nas 24 Horas de Daytona, ainda em 1986 — o carro não se deu muito bem com a inclinação do oval —, o 961 recebeu o esquema de pintura da Rothmans (com o qual ficou famoso) e voltou a Le Mans em 1987.

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Infelizmente, seu desempenho foi pior que no ano anterior. Nos primeiros testes, em maio, o carro só ficou com o 16º melhor tempo. E nós nunca saberemos se ele poderia ser melhor por causa de um pé-frio: o canadense Kees Nierop, que bateu seu Porsche 962C durante os treinos de classificação e se juntou à equipe do 961 para a corrida. Na volta 199, quando estava na 11ª posição, Nierop rodou com o carro depois de sofrer problemas no câmbio. Na volta para os boxes, o carro pegou fogo e precisou deixar a corrida.

Foi o fim do 961 que, depois de 1987, não tinha mais onde competir. O carro, que é único no mundo, foi recuperado depois do incêndio e levado para o museu da Porsche em Stuttgart, onde permanece até hoje — ainda que, de tempos em tempos, saia para esticar as pernas em eventos como o Goodwood Festival of Speed.

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[ Sugestão do leitor GSB ] 

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