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Car Culture

A bela e intensa relação de Neil Peart com seus carros

Na última sexta, quando foi divulgada a trágica notícia sobre a morte de Neil Peart, eu chorei. Não me descabelei em prantos, mas não consegui evitar que algumas lágrimas brotassem. O Rush certamente está entre as minhas cinco bandas favoritas – e vindo de alguém incapaz de tomar decisões qualitativas como eu, isto é uma grande coisa.

Dificilmente um power trio superará o Rush em termos de complexidade musical, produção, composição e performance. E Peart, que incrivelmente foi o último a entrar na banda (o primeiro álbum, autointitulado, de 1974, foi gravado com John Rutsey na bateria), era também o grande responsável por “amarrar” os ingredientes do som do Rush – tanto com suas letras geniais, quanto com suas linhas de bateria primorosas. Parece impossível, mas elas tinham melodia.

Como se não bastasse tudo isto, Peart era um entusiasta de mão cheia. Para começar, uma das melhores canções do Rush foi inspirada em um carro – e, mais do que isto, falava de um futuro no qual carros eram vistos como ameaças e eram proibidos, retratando uma realidade que às vezes parece plausível demais.

Sendo uma das bandas mais adoradas do planeta, o Rush tem uma porção de fan-sites dedicados a sua história, alimentados por gente dedicada a esmiuçar todos os detalhes não apenas sobre as músicas, mas também sobre os caras por trás delas. E não é difícil encontrar matérias a respeito de Peart sobre sua paixão por carros, que começou desde cedo – em sua infância e adolescência, por exemplo, Neil era fã de kits de montar, com os Revell. Ele tinha dezenas deles, e gostava não só de montá-los, mas também de customizá-los com peças feitas por ele mesmo, incluindo asas traseiras, saias laterais, novas rodas e pinturas exclusivas. Em uma entrevista ao site Hagerty em 2012, Neil diz que sonhava com o dia em que seu pai customizaria o carro da família – um Buick hardtop 1955 – como ele fazia com as miniaturas. “Meu pai só ria pelo nariz e dizia ‘eu não preciso dessas porcarias’.”, conta Neil. “Eu achava que ele era ignorante, mas na verdade ele só era um purista.”

O tempo passou, o Rush aconteceu, tornou-se uma das maiores bandas do mundo e, com isto, Neil Peart tornou-se dono de uma bela fortuna – seu patrimônio era estimado em US$ 42 milhões, ou por volta de R$ 173 milhões em conversão direta (janeiro de 2019). Sendo assim, ele conseguiu comprar alguns carros bem interessantes ao longo da vida. Sem falar na possibilidade de viajar pelo mundo de moto e escrever alguns livros, mas isto é assunto para outro dia.

Neste post, vamos falar sobre os carros bacanas que Neil Peart tinha – ou ao menos os que vieram a público, visto que o baterista não era muito chegado a exposição gratuita. Um grande homem, indeed.

Um dos carros mais famosos que Neil Peart teve foi o BMW Z8 – o conversível com desempenho de supercarro da BMW, criado como homenagem ao clássico 507. Fabricado entre 2000 e 2003, o Z8 era um verdadeiro halo car, feito sobre uma plataforma dedicada (um spaceframe de alumínio que não foi usado por nenhum outro BMW) e design praticamente idêntico ao que se via no conceito Z07, apresentado no Salão de Tóquio de 1997. Era preciso colocar seu nome em uma lista para garantir um exemplar, e os compradores tinham a oportunidade de acelerar um roadster equipado com um V8 de 4,9 litros e 400 cv idêntico ao do BMW M5 E39, o famoso S62.

O visual retrô, a exclusividade – foram feitos apenas 5.700 exemplares – e o desempenho, com zero a 100 km/h na casa dos quatro segundos baixos e máxima de 290 km/h, atraíram Peart, que descolou um exemplar preto fabricado em 2001. E ele gostava tanto do carro que acabou escrevendo um livro a seu respeito: Traveling Music, no qual ele narra a viagem que fez ao volante do Z8 entre Los Angeles e o Big Bend National Park, no Texas. No livro, Peart conta suas memórias e intercala com músicas que considera importantes em sua jornada.

E era esta a grande beleza da forma como Peart tratava seus carros. Ele não teve uma coleção gigantesca, não ficava posando com eles para fotos, mas uma coisa é certa: ele usava todos os seus automóveis como se deve usar – dirigindo. Bastante.

Um outro exemplo é seu Aston Martin Vanquish, que ele comprou zero-quilômetro em 2012. Os Aston são notórios grand tourers de luxo e, no caso do Vanquish, estamos falando de um carro equipado com um V12 de 5,9 litros e 573 cv, câmbio automático de seis marchas (oito marchas após 2014) e capacidade para ir de zero a 100 km/h em 4,1 segundos. Peart comprou o carro logo no primeiro ano de fabricação, e dirigiu milhares de quilômetros com ele pelas estradas mais cinematográficas dos EUA – incluindo a lendária Rota 66.

 

Em seu site, ele atualizava um diário de viagem, pois correr o mundo era sua forma de lidar com os demônios internos, com longos relatos muito bem escritos e belas fotos. Na prática, ele fazia o que muita gente anônima faz ou sonha em fazer.

O trecho a seguir acompanha a foto acima, e mostra o bem que os carros e viagens faziam a Peart:

Para começar com uma nota positiva – ou um acorde positivo, melhor dizendo, talvez um Sol maior – este é o retrato de um homem feliz. E eu não uso a palavra “feliz” de forma superficial. A conquista de chegar onde ele está (Angel’s Landing, em Utah) será contada em breve, mas a história por trás é importante, também. A banda de rock na qual ele tocou por trinta e nove anos estava em “hiato indefinido”, e seus colegas de banda (os Caras do Trabalho) haviam concordado em sequer falar a respeito do trabalho por pelo menos um ano.

E esta é uma foto do carro no caminho até lá:

Outro de seus Aston Martin, um DB5 igual ao de James Bond – que vimos no post deste fim de semana, aliás – também era usado como se deve. Aliás, talvez até de uma forma que poucos ousariam: Peart o levava para a pista. Em outro de seus posts no blog, o baterista dizia que adorava acelerar nos principais circuitos norte-americanos, como Laguna Seca e Willow Springs, mas seu lugar favorito era Thunderhill Raceway, no norte da Califórnia. É onde esta foto foi tirada:

Outro trecho do blog de Neil mostra que ele gostava mesmo de virar tempo na pista. Mas o mais importante era a experiência. Ah, e ele gostava de referir-se a si mesmo na terceira pessoa, geralmente por seu apelido – “Bubba”. Ou como se estivesse falando de mais de uma pessoa. Manias de quem escreve.

Como sempre, era uma experiência de aprendizado. À medida em que avançávamos por sucessivos Aston Martin modernos, do DB9 ao DBS, e agora o Vanquish (o velho DB5 foi um caso isolado para desfilar), devemos admitir que chegamos ao pico de nossa capacidade – talvez um pouco além. Em uma sessão em especial, no fim da manhã, entramos quente demais em uma curva e o carro acabou escorregando pela pista. Corrigimos o bastante para sair direto pela brita, em vez de rodar, mas à medida em que fomos passando pelas pedras (causando uma bela cortina de poeira, como vimos em outras “excursões para fora da pista”), fomos ficando mais… alertas.

Tentar virar o volante ou frear só piora as coisas, então foi necessário lutar contra este instinto natural. Só continuamos em frente, repetindo mentalmente “não faça nada, não faça nada” até que a própria brita se encarregou de desacelerar o carro o suficiente para conseguirmos voltar para a pista.

Nos certificamos de que isto não aconteceria outra vez. Pelo resto do dia, mativemos o carro na pista, e conseguimos alguns tempos de volta satisfatoriamente consistentes.

Falando em pista, Neil Peart também tinha seu lado graxeiro: outra das entradas de seu blog fala sobre sua participação nas 24 Horas de LeMons em 2014 – você sabe, aquela corrida nos EUA onde não se pode gastar mais de US$ 500 com o carro, incluindo a compra e toda a preparação necessária para a pista.

O carro de Neil na ocasião foi um Jensen-Healey 1974. que recebeu uma pintura nova e uma gaiola de proteção feita em casa – e muito do trabalho foi feito pelo próprio Neil, incluindo acertos de última hora no motor, na beira da pista. O cara era mesmo um dos nossos.

Outros carros bacanas que Neil teve, e que já apareceram na mídia – não na mídia mainstream, mas em sites sobre carros e sobre o Rush – foram seu Chevrolet Corvette (que só foi mencionado, mas não fotografado, aparentemente), e um Porsche 911 Speedster fabricado em 1994.

O Porsche, sabemos, foi encomendado à Porsche pessoalmente por Neil, que pediu o carro com ar-condicionado, rádio AM/FM com toca-fitas, e pneus Michelin esportivos. A entrega foi feita no Canadá, onde Neil dirigiu o Porsche por alguns anos antes de enviá-lo para sua residência em Los Angeles, nos EUA. Recentemente, em meados de 2019, o 911 foi vendido por US$ 151.000, o que dá por volta de R$ 624.000.

Peart ainda menciona outros carros em suas crônicas, como seu primeiro esportivo – um Lotus Europa – e um Jaguar, que foi comprado por ele na mesma época que o Aston Martin DB5. Mas talvez nunca vejamos fotos destes carros, pois Neil estava ocupado demais dirigindo-os e não os exibindo. Ele era mesmo um dos nossos.

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