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A coleção de Ferrari de Albert Uderzo, o criador de “Asterix e Obelix”

Você provavelmente conhece as histórias em quadrinhos dos guerreiros gauleses Asterix e Obelix – seja porque curte quadrinhos ou porque trombou com eles em algum livro ou prova na escola. Lembramos deles, infelizmente, por causa de uma notícia triste (é, mais uma…): um dos criadores dos personagens, Albert Uderzo, nos deixou na manhã de hoje, aos 92 anos, vítima de um ataque cardíaco. Os grandes estão mesmo nos deixando.

Você deve lembrar que cada uma das histórias de Asterix começava com a mesma introdução:

Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum…

O roteiro das histórias era escrito por René Goscinny, e Uderzo ficava a cargo das ilustrações. As histórias começaram a ser publicadas em 1959, e os dois trabalharam juntos até 1977, quando Goscinny morreu em sua casa, após sofrer um ataque cardíaco durante um teste de esforço. Depois disto, Uderzo assumiu o roteiro das histórias, mas continuou assinando como Goscinny-Uderzo – era uma forma de honrar a memória do parceiro. Uderzo continuou publicando as histórias de Asterix e Obelix até 2009, quando vendeu os direitos sobre a obra à editora Hachette. Em 2013, uma equipe totalmente nova assumiu a criação de novas histórias. De 1959 até hoje foram publicados 38 volumes e produzidos 12 filmes, sendo quatro deles em live action.

 

Uderzo fazia parte da escola franco-belga de bande dessinée – uma cena de quadrinistas que criava histórias em francês voltadas principalmente a leitores na França e na Bélgica. O estilo deste tipo de quadrinhos era bastante característico, misturando personagens de aspecto caricato com cenários e elementos realistas – incluindo, claro, os carros. Já falamos, por exemplo, sobre os automóveis que aparecem nas histórais de Tintin e do cuidado que seu criador, o belga Georges Remi Hergé, tinha na representação dos carros.

Evidentemente que carros não apareciam nas histórias de Asterix – apenas bigas puxadas por cavalos. Mas Albert Uderzo era entusiasta e, por vezes, deixava isto claro em seu trabalho. Um exemplo eram as histórias de Luc Junior, um jovem aventureiro que, assim como Tintin, viajava o mundo na companhia de seu cachorro.

Os veículos também apareciam bastante em “As Aventuras de Tanguy e Laverdure”, que acompanhava os pilotos Michael Tanguy e Ernest Laverdure na Força Aérea Francesa, com roteiro de Jean-Michel Charlier. Publicadas originalmente entre 1959 e 1971, as histórias traziam um estilo mais realista nos personagens e aviões desenhados por Uderzo de forma muito detalhada.

Uderzo era uma pessoa bastante reservada e preferia o anonimato. “Eu poderia passar por trás de um cartaz sem descolá-lo”, dizia o ilustrador. “As personagens podem tornar-se mitos, mas nós, os seus pais, não.”  E talvez por isso poucas pessoas saibam que, além de entusiasta, Uderzo era um grande fã da Ferrari – e dono de uma coleção com cerca de 20 exemplares de diferentes eras. Ele até chegou a colocar Asterix e Michael Schumacher juntos em uma charge:

Pela natureza discreta de Uderzo e, em parte, por questões temporais, há poucos registros fotográficos e informações disponíveis sobre seus carros. Mas é possível notar que ele tinha bom gosto e uma predileção pelos modelos mais raros, embora também tivesse alguns mais “mainstream”.

A primeira Ferrari comprada por Uderzo, de acordo com os membros do fórum Caradisiac, foi esta 365P2 Coupe. Ele adquiriu o carro em 1975 – bem antes de ser valorizado como é hoje – e gostava muito dela, a ponto de colocá-la em um cartum no qual falava o quanto era difícil desapegar-se de seus carros.

Um bom exemplo entre as Ferrari mais exóticas de Uderzo era a Ferrari 512 BB Le Mans Short Nose, versão de competição da 512 BB LM que, como o nome diz, tinha o bico mais curto – geralmente as 512 BB tinham a dianteira mais longa, com faróis no para-choque. Uderzo participava frequentemente de track days, eventos de pista e encontros do Club Ferrari de France com ela.

Uderzo também era dono de uma 308 GTB do Grupo 4 de rali – o carro que aparece na foto de abertura deste post ( que colocamos de novo abaixo) ao lado de seu feliz proprietário e de sua 400 GT4 2+2 – o “sedã de duas portas” da Ferrari, movido por um V12 de 4,5 litros sob o capô.

Evidentemente os modelos mais lendários da Ferrari também tinham espaço no acervo de Uderzo: ele também teve uma 288 GTO, uma Ferrari F40 LM, uma F50 e uma Enzo. Na terceira foto da minigaleria abaixo também é visível uma 360 Modena.

Geralmente eram os mais chegados de Uderzo que tinham conhecimento de sua coleção – os membros do Club Ferrari de France dizem que ele era um cara bastante acessível e que não mantinha seus carros guardados. Uderzo gostava de dirigir e curtir seus esportivos italianos como se deve fazer.

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