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A coleção de Ralph Lauren é a verdadeira garagem dos sonhos

Para gente normal, Ralph Lauren é o estilista americano que popularizou a camisa polo inventada por René Lacoste. Para os amantes dos carros (que, bem sabemos, não são gente normal), Ralph Lauren é o nome do cara que tem, indiscutivelmente, uma das coleções de automóveis mais fantásticas de todos os tempos, sem exagero algum.

Ralph Lauren nasceu Ralph Lipshitz, no bairro do Bronx, Nova York, filho de pais judeus. Mudou seu sobrenome para Lauren aos 16 anos porque seu sobrenome original tinha a palavra shit no meio e as outras crianças riam dele por causa disso. Então ele escolheu Lauren porque é um sobrenome bonito. Quando jovem, Ralph saiu do exército e entrou para uma fabricante de gravatas como vendedor — e pediu demissão para fundar sua própria companhia depois que a empresa rejeitou as gravatas desenhadas por ele.

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Ele era conhecido por vender gravatas a seus colegas de universidade — e dizia que seu objetivo de vida era ser um milionário. Não precisamos dizer que ele conseguiu, não é?

Ralph Lauren é o tipo de cara que você imagina gastar sua fortuna com vinho, roupas, viagens e todo tipo de coisa supérflua. Bem, não há nada que desminta isto, mas o homem gosta mesmo é de carros (e há quem diga que carros são supérfluos, mas isto é uma discussão que, com todo prazer, deixaremos para outra hora). E ele tem uma das coleções mais absurdamente incríveis do mundo, daquelas que a maioria de nós não conseguiria reunir nem mesmo em sonhos — a não ser que se tenha uma fortuna equivalente a R$ 15 bilhões.

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Por muito tempo, a coleção de Ralph Lauren (ele é um daqueles caras tão a quem sempre nos referimos usando o nome e o sobrenome) ficou espalhada entre suas propriedades nos EUA, no estado de Nova York e no Colorado. Contudo, já faz alguns anos que seus carros ficam em um depósito — se é que podemos chamar assim — nos subúrbios do condado de Westchester, NY. Olhando por fora, a D.A.D. Garage, que tem este nome em homenagem aos três filhos de Ralph Lauren, David, Andrew e Dylan, jamais levantaria qualquer suspeita de abrigar pouco mais de 70 preciosidades automotivas.

Contudo, lá dentro a história muda. O lugar, comprado depois que Ralph Lauren decidiu que conseguiria viver em paz mesmo com os carros longe de casa, é discreto por fora e minimalista por dentro — o saguão onde os carros ficam expostos é um grande espaço com paredes brancas, teto com a estrutura exposta e chão escuro, além de plataformas elevadas para os automóveis. Foi feito deste jeito para não desviar a atenção das linhas dos carros, que Ralph Lauren considera “um tipo especial de arte” — e o inspiram na hora de desenhar peças de vestuário, decoração, móveis e acessórios.

Os carros de Ralph Lauren estão organizados por marca, e não por ano — o que acaba meio que separando os carros por cor. Por exemplo, há grandes chances de você já ter visto esta foto:

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Esta é a coleção de Ferrari do estilista, que inclui algumas verdadeiras joias: uma 250 GTO (a Ferrari mais valiosa do mundo), uma 250 TR, uma 250 LM, uma 250 GT e uma 375 Plus. A GTO, com seu V12 de 300 cv sob o capô, é um dos 39 exemplares feitos pela Ferrari para homologação. Naturalmente, ele também tem algumas Ferrari mais modernas — como a Daytona e a F40 — e de competição, como o protótipo P2/3.

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A coleção de Ferrari de Ralph Lauren é tão famosa que há quem pense que ele só coleciona Ferrari — isto não poderia estar mais longe da realidade. O homem tem não um, mas dois McLaren F1 — um dos seis F1 LM construídos e um exemplar prata “comum”, que ele viu em um showroom de Londres e comprou — simples assim. O carro não podia ser importado oficialmente para os EUA, mas ele contou à Vanity Fair que “deu um jeito” — só não diz qual.

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Além das Ferrari e da McLaren, Lauren tem alguns Jaguar, Mercedes-Benz, Morgan, Bugatti — e alguns deles são únicos no mundo, ou muito perto disso.

Mercedes-Benz SSK Count Trossi

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Foram feitos menos de 40 Mercedes-Benz SSK entre 1928 e 1932. Destes, só um deles é o Mercedes-Benz SSK Count Trossi. Ele tem este nome porque sua carroceria aerodinâmica, com apêndices em formato de gota, foi encomendada pelo aristocrata e piloto Carlo Felice Trossi — o Conde Trossi —, que competiu com ele em 1931 e refez a carroceria em 1933. O carro é movido por um seis-em-linha de 7,1 litros com compressor mecânico e 300 cv, capaz de levá-lo até os 235 km/h — há mais de oito décadas.

Bugatti Type 57 SC Atlantic Coupe

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Ralph Lauren tem dois exemplares do Bugatti Type 57 SC. O primeiro, um dos quatro Atlantic Coupe fabricados, já foi o carro mais caro do mundo, avaliado em mais de US$ 40 milhões. O Bugatti Type 57 SC é feito de liga de alumínio (que não podia ser soldado, e por isso Jean Bugatti — filho do fundador Ettore — precisou unir alguns dos painéis da carroceria com rebites, o que acabou dando a este carro um charme todo especial.

O outro é um conversível, conhecido como Gangloff Drop Head Coupe, fabricado sob encomenda pela carrozzerie Gangloff.

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O Bugatti Type 57 SC é movido por um motor de oito cilindros em linha e três litros com compressor mecânico, o suficiente para render entre 175 e 200 cv (lembre-se eram meados dos anos 30) e levar o carro até os 200 km/h. E os carros de Lauren têm uma peculiaridade — eles não eram pretos, originalmente, e sim azul-claro. Só que ele sempre aperfeiçoa os carros que compra — com uma cor nova, um estofamento diferente, tudo para deixá-los como ele quer, e não como os criadores do carro o fizeram. Todos os seus carros passam por este processo — as Ferrari, por exemplo, são pintadas em um tom mais vivo do que o original.

Mercedes-Benz 300 SL

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Ralph Lauren também tem dois Mercedes-Benz 300SL — um deles, feito de alumínio. Os exemplares de alumínio são bem raros, pois eram feitos sob encomenda especial e, junto com a opção pelo material mais leve, vinham algumas melhorias mecânicas como parte do pacote: comando de válvulas mais agressivo, suspensão mais firme e janelas de plexiglass.

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Normalmente, um 300 SL costuma ser vendido por algo entre US$ 1 milhão e US$ 1,35 milhão, mas os carros de alumínio — dos quais existem só 29 exemplares — podem custar o triplo.

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O interior do 300 SL de alumínio

Os carros de Ralph Lauren já venceram inúmeros concursos — especialmente os Concorsos d’Eleganza, como os que acontecem em Pebble Beach, na Califórnia, e Villa d’Este, na Itália, além de serem exibidos, de tempos em tempos, em museus pelo mundo todo. Mas isto não significa que eles estejam condenados a passar a vida como bibelôs ou modelos fotográficos: longe disso — Ralph Lauren diz que prefere gastar seu dinheiro com carros a quadros porque “não dá para dirigir uma pintura” — e ele cumpre o que diz, dirigindo todos os carros de sua coleção sempre que surge a oportunidade.

Nós faríamos exatamente a mesma coisa.

[ Fotos: Vanity Fair ]

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