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A curiosa história do Cadillac que se transformou em uma “Ferrari”

Há poucos dias falamos aqui no FlatOut sobre os 100 anos da Zagato. A companhia italiana, fundada em 1919 por Ugo Zagato, já desenhou e construiu carrocerias para dezenas e dezenas de modelos diferentes, de uma porção de fabricantes – a maioria delas, vindas da Europa, com uma predileção especial pela Aston Martin e pela Alfa Romeo.

Mas não foi só na Europa que a Zagato encontrou clientes: um de seus carros mais curiosos é um… Cadillac. Um Cadillac transformado em “Ferrari”!

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Isso aconteceu na década de 1970, quando a Scuderia Ferrari já era uma das mais tradicionais e bem sucedidas equipes de automobilismo do planeta, com seis títulos no campeonato de pilotos na Fórmula 1 e dois como construtora; mais seis títulos no Mundial de Resistência (WSC).

Naquela época, a representante oficial da Ferrari nos Estados Unidos ainda era a NART – North American Racing Team, que fora fundada em 1958 por Luigi Chinetti, italiano radicado nos EUA, ele próprio ex-piloto de corridas.

Chinetti era muito considerado pelo próprio Enzo Ferrari, e não faltavam motivos: em 1949 ele foi o primeiro a vencer em Le Mans e as 24 Horas de Spa com uma Ferrari, pilotando sua 166M (o carro que inspirou Neil Peart, baterista e letrista do Rush, a compor o clássico “Red Barchetta). 

Chinetti não deve ter ficado surpreso, então, quando Enzo Ferrari o indicou para ser o representante oficial da companhia nos Estados Unidos. Ele havia se mudado para os EUA em 1940, fugindo da Segunda Guerra Mundial, e adquiriu a cidadania americana em 1946 (o que fez de Chinetti o único piloto a vencer em Le Mans defendendo dois países diferentes). Por 23 anos, de 1947 a 1970, sua loja foi a única autorizada Ferrari na América do Norte. E ele também era o responsável pela equipe de corrida oficial da Ferrari deste lado do Atlântico.

A North American Racing Team também foi muito bem sucedida e responsável por algumas conquistas importantes da Ferrari, como a vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1965, com a 250LM.

Através de sua concessionária, além dos carros de rua da Ferrari, Luigi Chinetti também vendia carros de corrida usados pela NART. Não há dúvida de que tudo o que Chinetti fazia estava intimamente ligado com as atividades da companhia na Itália. Até mesmo o emblema da Nart trazia o cavalinho rampante sobre um fundo amarelo, porém com a bandeira dos EUA estilizada na parte superior, e a sigla N.A.R.T. na base.

Apesar do prestígio, o panorama para 1970 não era bom. Como você deve lembrar, naquele ano já começaram a se manifestar os primeiros sinais da Crise do Petróleo, que atingiu seu auge nos EUA em 1973. Já no fim dos anos 1960 o governo dos EUA deixou claras as intenções de fechar o cerco sobre as emissões, o que levou a indústria norte-americana a adotar em massa métodos para reduzir o nível de descarga de poluentes dos motores. As vendas de carros esportivos exóticos estavam seriamente ameaçadas.

Para Luigi Chinetti, a solução era dar a seus clientes uma alternativa mais racional: um cupê com o estilo e o luxo de uma Ferrari, porém com um conjunto mecânico norte-americano, feito já de acordo com os novos parâmetros de emissão de poluentes – usando a heritage de sua equipe de corridas para atrair compradores.

O próprio Chinetti, ainda em 1969, fez os primeiros rascunhos, e também entrou em contato com a General Motors para conseguir patrocínio e uma base mecânica. Os executivos da GM gostaram da ideia, e as duas partes decidiram usar como ponto de partida o Cadillac Eldorado. Também ficou decidido que o desenho do carro seria finalizado e executado na Itália pelo estúdio Zagato – talvez porque a Ferrari não permitiu que o trabalho fosse feito pela Pininfarina. Nascia ali o conceito Cadillac NART.

O Cadillac Eldorado (bem como seu primo, o Oldsmobile Toronado) era um carro peculiar: apesar da origem norte-americana, do tamanho avantajado e do motor V8, ele tinha tração dianteira – algo relativamente incomum no segmento de luxo até hoje.

O ponto de partida foi o chassi do Eldorado, mas era inaceitável a ideia de um esportivo com design italiano e tração dianteira. Assim, o conjunto mecânico foi invertido: o motor e o câmbio foram parar atrás dos bancos, em posição central-traseira. A suspensão era independente nas quatro rodas, por barras de torção e a transmissão era automática de quatro marchas.

O gigantesco V8 de 8,1 litros (500 pol³) tinha potência bruta declarada de 400 cv – número que, com a adoção da medição de potência líquida e as restrições obrigatórias, caiu para 190 cv em 1976.

A carroceria feita pela Zagato para o conceito também era curiosa. Com entre-eixos longo (a fim de acomodar duas fileiras de bancos, fazendo do carro um 2+2) e silhueta baixa, o Cadillac NART tinha arcos de roda bastante profundos, capô longo, em forma de cunha, com faróis parcialmente ocultos na extremidade dianteira, alojados na grade.

O compartimento dianteiro abrigava o estepe, a traseira contava com um porta-malas até que razoável atrás do cofre do motor. Extensões nas colunas traseiras davam a impressão de um teto fastback, e as lanternas vinham do Pontiac GTO. Havia emblemas da NART na dianteira, na traseira e nas laterais, e um friso preto percorria todo o perímetro do carro – um elemento estético que seria usado frequentemente pela própria Ferrari a partir da década de 1970, como a 365 BB e a 308.

O interior aproveitava o volante e o painel do Eldorado, que era adaptado para o habitáculo mais estreito. O resultado era um contraste interessante com o exterior tipicamente italiano.

No geral, o Cadillac NART era um carro interessante, do ponto de vista estético – e perfeitamente passável como Ferrari à primeira vista. Mas jamais poderemos saber se ele faria sucesso ou não.

Depois de aparecer no Salão de Turim de 1971, no estande da Zagato e, no ano seguinte, o Cadillac NART foi exposto pela Chinetti Motors no Salão de Nova York. Nas duas ocasiões o carro foi bem recebido e até foram feitas algumas encomendas, mas elas nunca foram entregues. A General Motors decidiu abandonar o barco para concentrar-se em seus próprios modelos – os japoneses estavam chegando com tudo – e o próprio Luigi Chinetti tinha outras prioridades como representante da Ferrari.

O projeto foi cancelado ainda em 1972, e o Cadillac NART permaneceu na família Chinetti até 1987, quando foi comprado por um colecionador norte-americano, que ficou com o carro por mais de vinte anos. Em 2008, o carro apareceu em um anúncio no eBay e, depois disso, foi parar nas mãos de um entusiasta francês, onde deve estar até hoje.

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