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A deliciosa briga com o volante no limite de aderência destes Ford GT40 em Goodwood

Goodwood Revival. Desde 1998, durante três dias de setembro os anos de entre 1948 e 1966 se transformam no tempo presente no eterno circuito de Goodwood. Carros modernos são proibidos até mesmo de estacionarem nas imediações do circuito. Mas este não é evento para aqueles clássicos que aceitam um belo fim plástico e estático de servir de obra de arte exposta num gramado de golfe – função, claro, que possui a sua indispensável importância histórica. No Revival, contudo, a arte é em movimento. É o prazer funcional de viver. As vozes mecânicas de até quase 70 anos atrás não se silenciam. Seus pneus desenham longas faixas negras no chão, seguindo o mantra de Graham Hill: “eu sou um artista, a pista é a minha tela de pintura e o carro é o meu pincel”.

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Os pincéis que você verá no vídeo a seguir são dos mais brutais a vir, ver e vencer as 24 Horas de Le Mans. Não bastando serem Ford GT40, são Mark II (os puristas o chamam diretamente de Ford Mk II) – quando a marca decidiu confiar o projeto do GT40 para Carroll Shelby fazer todas as melhorias que fossem precisas para conquistar de vez o topo do pódio em La Sarthe, pois os dois primeiros anos foram envolvidos mais por expectativas que resultados. Sem pensar duas vezes, ele resolveu o problema à moda do Texas: tirou do cofre o elegante e compacto V8 small block família Windsor 289 (que também equipava os Mustang Shelby GT350) para adotar um canhão big block de sete litros (o 427 FE side oiler) que equipava os Ford Galaxie da Nascar. Isso exigiu uma série de modificações estruturais, redimensionamento da suspensão e mudança de transmissão, que deixou de ser o transeixo da ZF de cinco marchas para se transformar em uma unidade mais simples, fabricada pela Kar Kraft e com relações emprestadas do próprio programa da Nascar.

O resultado das mudanças de Shelby? As três primeiras posições do pódio das 24 Horas de Le Mans de 1966 ficaram nas mãos dos Ford Mk II. A foto abaixo é uma recriação do momento, feita no Le Mans Classic de 2006 com os carros originais da edição de 1966.

1966 é o ano-limite para um carro se inscrever no Goodwood Revival – portanto, estes sujeitos cinquentenários são os new boys in town para a prova. O que vemos no vídeo abaixo – e para consumi-lo, o intimido a aumentar o volume com vontade – é a deliciosa agonia dos pneus fabricados com a mesma especificação de época. Goodyear G7 Blue Streak, Firestone Gold Line ou Avon Vintage, tanto faz: todos são derretidos sem dó enquanto tentam transmitir algo dos quase 600 cv (jamais leve a sério os 425 hp declarados pela Ford) para o asfalto da última chicane de Goodwood. O balé de powerslides se prolonga por quase toda a reta dos boxes – e os 427 ignoram a mudança de marcha e seguem pintando o asfalto de preto. Desconfiamos que talvez o asfalto estivesse um pouco verde demais (sem emborrachamento) e, claro, os pisantes de época não ajudam. Mas tanto faz a causa. A consequência é épica:

O local facilita o espetáculo: além da saída de uma curva de baixa, contornada em primeira ou segunda marcha (dependendo do escalonamento do diferencial), o desenho da chicane acaba produzindo um efeito pêndulo de inércia, de forma que alguns dos Ford MkII já estão começando a rabear antes mesmo do acelerador ser pressionado. Note que o V8 ignora graça e sutileza: alguns pilotos tentam alimentá-lo com alguma gentileza, mas ao mínimo sinal de empolgação o big block derrete pneus instantaneamente. Como comparativo, aos 17 segundos um Ford GT40 MkI branco – ou seja, small block Windsor de 4,7 litros – deslancha da mesma chicane de pé embaixo sem problemas.

Querem ver a coisa ficar pior? Acompanhem o nível do desafio de reflexos e sensibilidade de Kenny Brack enquanto ele tenta domar o MkII em Goodwood… com pista molhada!

Dica: nós contamos toda a história do Ford GT40 num belo especial de duas partes: o primeiro texto está aqui e o segundo, aqui.

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