A fábrica de motos que fez um carro vencedor da Fórmula 1 em apenas dois anos

Leonardo Contesini 4 agosto, 2016 0
A fábrica de motos que fez um carro vencedor da Fórmula 1 em apenas dois anos

Apesar do desempenho frustrante da Honda desde seu retorno à Fórmula 1 como fornecedora de motores para a McLaren, a marca japonesa tem um retrospecto brilhante na categoria. Seus motores embalaram 72 vitórias, seis títulos de construtores e cinco de pilotos, o que faz dela a quinta fabricante mais vitoriosa da Fórmula 1, atrás da Ferrari, da Ford, Mercedes e Renault.

Mas diferentemente de todas estas fabricantes, quando a Honda decidiu entrar na Fórmula 1, eles só haviam produzido dois carros em toda a sua história. Fundada em 1948, a Honda começou produzindo motores para bicicletas e depois partiu para as motos. Os primeiros carros só deram as caras em 1963. O primeiro foi a mini picape T360, lançado no início daquele ano, e o segundo foi o roadster S500, lançado em outubro. Ambos eram minúsculos e impulsionados por motores de moto — eles até usavam transmissão por corrente!

Uma pesquisa na Wikipedia mostra que o modelo seguinte da Honda foi o S600, outro roadster com motor de moto, mas isso só está certo se você considerar os carros de rua. O terceiro carro desenvolvido e produzido pela Honda foi nada menos que um modelo V12 de Fórmula 1, que também foi o primeiro carro japonês de Fórmula 1. Não é incrível?

A história começou em 1963, quando a Honda desenvolveu um protótipo de monoposto para receber seu revolucionário motor V12 de 1,5 litro. Na época os V8 eram dominantes na F1, mas o background motociclístico da Honda a levou a usar o V12 para conseguir trabalhar com componentes internos mais leves e menores, que resultam em velocidades mais altas de rotação e picos maiores de potência — e também em um ronco tão bonito  quanto sua carenagem pintada com as cores da bandeira do Japão, o que inclui o círculo/sol vermelho.

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Em 1964 a Honda evoluiu o design para aquele que se tornou o RA271. A estreia aconteceu no GP da Alemanha daquele ano, em Nürburgring. Ao volante estava o americano Ronnie Bucknum, que não tinha experiência alguma na F1 e se classificou na última vaga do grid, em 22º lugar. O carro funcionou bem, mas um acidente o tirou da prova a quatro voltas do final. Apesar do abandono, Bucknum completou voltas suficientes para ficar na 13ª posição. A Honda ainda disputou outros dois GPs naquele ano — na Itália e nos EUA —, mas não completou as duas provas.

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Para o ano seguinte os japoneses prepararam uma evolução do RA271, batizada RA272. Ele era equipado com o mesmo motor V12 instalado em posição transversal e, com um carburador Keihin por cilindro, produzia 230 cv a 13.000 rpm (rotação incomum na época), o que fez dele o motor mais potente do grid naquele 1965. A potência era moderada por um câmbio sequencial de seis marchas desenvolvido pela própria Honda.

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Naquela temporada a Honda inscreveu um segundo carro, que foi entregue a outro americano, Richie Ginther, que tinha experiência em equipes como a Ferrari e BRM. Os dois carros abandonaram sua primeira corrida do ano, o GP de Mônaco, mas na prova seguinte Ginther cravou os primeiros pontos da Honda com um sexto lugar no GP da Bélgica, resultado que repetiria no GP da Holanda, duas etapas mais tarde. Depois da Holanda, a Honda não foi à Alemanha, e só voltou a correr na prova seguinte, o GP da Itália, onde os dois carros abandonaram novamente. Nos EUA Bucknum terminou em 13º, enquanto Ginther ficou com o sétimo lugar.

A consagração veio no GP do México, a última corrida da temporada e a 11ª prova disputada pela Honda na F1. Ginther se classificou em terceiro, mas logo no início assumiu a dianteira e de lá não saiu. Enquanto isso, Bucknum garantia o quinto lugar em sua nona corrida na F1. Depois de 325 km divididos em 60 voltas, a Honda conquistava sua primeira vitória na Fórmula 1 em apenas 15 meses na categoria.

Apesar da baixa qualidade do vídeo antigo, os Honda podem ser reconhecidos pelo ronco mais agudo dos motores a 13.000 rpm

No paddock o fundador da fabricante, Soichiro Honda, comemorou, mas não se empolgou: “Desde que decidimos fabricar carros trabalhamos duro e quisemos pegar o caminho mais difícil. Por isso não nos contentaremos com esta vitória. Vamos estudar por que vencemos e vamos aplicar agressivamente estas tecnologias vitoriosas aos novos carros”.

Nos anos seguintes a Honda ainda ganhou outras duas corridas antes de abandonar a categoria devido à morte do piloto francês Jo Schlesser no GP da França de 1968 a bordo de seu Honda RA302. A marca voltaria à Fórmula 1 somente em 1983, fornecendo motores V6 turbo para a Spirit.

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O RA271 e o RA272 hoje repousam no Honda Classic Hall, um dos museus da marca situado no circuito de Motegi que mostramos neste post.