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Car Culture

A história do lendário Mazda RX-7 que venceu as 24 Horas de Spa de 1981

O Mazda 787B é uma lenda entre os apreciadores da marca japonesa. Com ele, a Mazda entrou para a história ao se tornar a primeira fabricante japonesa a vencer as 24 Horas de Le Mans. Como se não bastassem a vitória e o visual icônico, o 787B ainda tinha um motor rotativo Wankel de quatro rotores e 2,6 litros que entregava mais de 700 cv e berrava como um enxame de vespas furiosas.

Mas há outro Mazda vencedor de uma corrida de 24 Horas: o RX-7 de primeira geração que, em 1981, venceu as 24 Horas de Spa-Francorchamps, na Bélgica. Sua história não é muito conhecida no ocidente mas, no Japão, é motivo de orgulho para a Mazda e todos os seus fãs.

O Mazda RX-7 de primeira geração foi lançado em 1978. Em termos de visual, ele não era tão diferente dos outros cupês compactos japoneses de seu tempo: perfil baixo, dianteira em formato de cunha, faróis escamoteáveis, caimento suave do teto e traseira curta. Acontece que ele era um carro minúsculo, movido por um pequeno motor rotativo Wankel de dois rotores e apenas 1,2 litro (para ser mais exato, 1.146 cm³). Motores rotativos são conhecidos por sua alta potência específica, e com o motor do primeiro RX-7 não era diferente.

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O pequeno motor de dois tempos entregava 100 cv. Não parece muito, mas precisamos lembrar de duas coisas: primeiro, que estamos falando de um motor de apenas 1,2 litro sem qualquer tipo de indução forçada. Segundo, que o RX-7 de primeira geração pesava menos de 900 kg, o que significa que ele era, sim um carro veloz. E o motor ficava posicionado atrás do eixo dianteiro, garantindo uma ótima distribuição de massas.

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Foto: Ben Hsu/Japanese Nostalgic Car

Sendo o novo esportivo da Mazda, o RX-7 logo foi colocado nas pistas pela fabricante. Para garantir que ele fosse bem sucedido, a Mazda contratou a Tom Walkinshaw Racing, equipe que ficou famosa em 1988 por vencer nas 24 Horas de Le Mans com o Jaguar XJR-9. Dez anos antes, porém, a TWR foi contratada pela Mazda com a missão de preparar o RX-7 para o Campeonato Britânico de Turismo, o BTCC. Ainda em 1979, um RX-7 preparado pela TWR conquistou o primeiro lugar em sua categoria, e quinto na classificação geral, nas 24 Horas de Daytona — há frente de carros maiores e mais potentes, como o BMW Série 5 com seu seis-em-linha e os muscle cars americanos, como o Camaro e o Mustang.

O segredo? A leveza do carro e o vigor do motor 12A, que havia sido preparado para entregar pouco mais de 200 cv e disparava todo seu potencial em altas rotações. Foi uma excelente resultado para uma estreia nas pistas, e deu à Mazda e a TWR a motivação necessária para repetir o bom desempenho na Europa.

O palco escolhido pela Mazda foram as 24 Horas de Spa-Francorchamps, na Bélgica. Apesar de não fazer parte do Campeonato Mundial de Endurance, a corrida ainda tinha muito perstígio — afinal, era disputada em um dos circuitos mais desafiadores do planeta. Além disso, a Mazda sabia que vencer as 24 Horas de Le Mans era improvável, pois na época o circuito de La Sarthe era território da Porsche, que estava em seu ápice com o protótipo 936.

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Por outro lado, a situação em Spa não era muito diferente do que a Mazda havia encontrado em Le Mans. Os expoentes da época eram os europeus, especialmente o BMW 530i, e os V8 americanos também tinham uma presença muito forte na corrida. A TWR apostaria na mesma estratégia bem sucedida usada em Daytona — apostar na agilidade, no baixo peso e no motor muito bem disposto.

A razão para que o RX-7, com seu minúsculo Wankel, concorresse na mesma categoria dos BMW e dos muscle cars americanos, estava na matemática do regulamento: motores rotativos tinham o deslocamento multiplicado por dois, o que colocava o RX-7 na categoria acima de 2,3 litros. Seriam seus 225 cv suficientes para garantir a vitória?

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Em 1980, não foram. Quatro carros foram inscritos na prova, mas apenas dois deles terminaram — na 21ª e na 22ª posições. Os outros dois tiveram que abandonar a corrida por problemas mecânicos.

Isto não significa, contudo, que a Mazda ou a TWR desistiram. Até porque, caso contrário, não contaríamos esta história agora. Para o ano de 1981, Yujiro Terada — piloto de um dos carros que abandonaram a corrida no ano anterior —, decidiu focar-se em melhorar o motor do RX-7.

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Fotos: Jonathan Moore/Speedhunters

Ele insistiu para que a Mazdaspeed (a preparadora que cuidava dos carros da equipe de fábrica da Mazda) desenvolvesse novos componentes para o Wankel e, meses depois, foi apresentado o 12B, que tinha a mesma arquitetura básica e o mesmo deslocamento de 1,2 litro, porém entregava 240 cv e era capaz de girar a mais de 8.500 rpm.

Ao todo, três carros foram inscritos nas 24 Horas de Spa de 1981, sendo que um deles foi conduzido pelo próprio Tom Walkinshaw. Novamente, o RX-7 foi considerado o azarão da prova. Não era para menos: ele continuava sendo um Davi em meio a um grid cheio de Golias. E a Mazda decidiu aproveitar-se disto.

Antes dos treinos de classificação, os pilotos receberam uma única ordem: sentar a bota, independentemente de qualquer coisa. Deu resultado: os Mazda se classificaram na frente de todos os BMW — o que, francamente, aumentava bastante as chances de um bom resultado. Só que ninguém esperava uma vitória.

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Como conta o Japanese Nostalgic Car, Tom Walkinshaw escolheu o piloto belga Pierre Dieudonné para revezar o volante com ele. E teria dito o seguinte: “nosso carro vai ser a lebre. A gente vai pisar fundo, e é vencer ou vencer! Eu não sou do tipo que entra em uma corrida e fica segurando o carro só para chegar ao final.”

Deu resultado: algumas horas depois do início da corrida, o Mazda RX-7 nº 40 de Walkinshaw e Dieudonné era o segundo colocado. A surpresa foi geral e, honestamente, se o carro tivesse terminado em segundo, já seria um resultado histórico. Contudo, não era o bastante para Tom Walkinshaw.

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Ao sair do carro para a última troca de pilotos, Walkinshaw disse ao colega para acelerar até o limite. Com sorte, o BMW quebraria ao tentar manter-se na ponta. Foi exatamente isto o que aconteceu! Nos momentos finais da prova, o BMW 530i teve problemas no comando de válvulas e foi forçado reduzir o ritmo, entregando o primeiro lugar de bandeja ao RX-7 conduzido por Dieudonné.

A quebra do BMW não foi um incidente isolado na corrida. Longe disso: dos 55 carros que largaram, apenas 26 cruzaram a linha de chegada. E o primeiro de todos foi um Mazda RX-7 com um motor 1.2 de 240 cv, carroceria praticamente igual à de um exemplar de rua e interior com quase todos os acabamentos no lugar, incluindo o painel e os revestimentos de porta. Não havia qualquer tipo de assistência ao motorista, nem mesmo na direção — era tudo controlado no braço.

Levaria exatamente dez anos para que outro Mazda entrasse para a história nas corridas de longa duração — o já citado 787B, que levou para casa as 24 Horas de Le Mans de 1991. Ironicamente, naquela corrida o Mazda chegou na frente de nada menos que três Jaguar XJR-12 preparados pela… Tom Walkinshaw Racing. É o tipo de coincidência que só o automobilismo traz.

 

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