FlatOut!
Image default
Car Culture Zero a 300

A história do painel de instrumentos digital

Acompanhando os lançamentos dos automóveis mais recentes, de praticamente todas as categorias, faixas de preço ou origens, você vai notar que cada vez mais carros estão trocando os mostradores analógicos por instrumentos totalmente digitais. E, curiosamente, você não vê muitos entusiastas reclamando sobre como os relógios à moda antiga, com ponteiros físicos, luzes coloridas e tipografias bacanas, eram muito melhores.

Talvez seja porque painéis de instrumentos digitais sejam legais, simples assim. Ou talvez porque, durante muito tempo, eles foram opcionais cobiçados que, hoje, são item muito procurado por colecionadores e entusiastas. Mas desde quando eles estão por aí? E como eram os painéis digitais de antigamente? São estas algumas das perguntas que vamos responder neste post.

aston_martin_lagonda_50

O primeiro carro com painel digital produzido em série foi o Aston Martin Lagonda. Lançado em 1976, o carro era o primeiro sedã de luxo com quatro portas vindo da fabricante especializada em cupês esportivos 2+2, e era fruto da necessidade: carros esportivos perderam o apelo no início dos anos 1970 por causa da crise do petróleo, e o fenômeno não afetou apenas os EUA, mas também a Europa. Sendo assim, a Aston Martin – que já não ia bem das pernas financeiramente – decidiu arriscar-se em um carro completamente diferente de sua proposta costumeira.

O resultado foi um carro que dividiu opiniões. A carroceria abusava das linhas retas, em um estilo de design que ficou conhecido como “papel dobrado”, e o interior era muito luxuoso e nada convencional, abusando do couro com linhas que pareciam as de um carro conceito, ou algo vindo do futuro. E, de fato, o Aston Martin Lagonda acabou puxando o bonde para que as outras fabricantes adotassem o painel digital nos anos seguintes.

O estranho sedã de luxo inglês usou diferentes painéis digitais ao longo dos 14 anos pelos quais foi produzido. Os primeiros exemplares trazia várias pequenas telas de cristal líquido retroiluminadas por LEDs que exibiam caracteres como nas calculadoras, na cor vermelha, e os comandos para o motorista ficavam em uma espécie de “mesa” atrás do volante, com botões sensíveis ao toque.

Não nos parece exatamente a maneira mais prática de saber como o carro está andando e nem de acionar os comandos do carro, mas pelo menos havia a opção por exibir a velocidade em milhas ou quilômetros por hora. Os circuitos eletrônicos foram desenvolvidos pela Lucas Electronics, o que provavelmente revela uma ou duas coisinhas a respeito de seu funcionamento. Ou seja: não funcionava direito.

Só que, segundo consta, a Aston Martin investiu a maior parte do orçamento do desenvolvimento do Lagonda com o painel digital, e por isto precisava insistir na tecnologia. Os anos seguintes trouxeram um novo painel, que usava telas de CRT (como a das TVs de tubo) monocromáticas.

cb5d568735035495a423deb2c0e0d7afx

Elas eram difíceis de enxergar quando estava claro demais e falhavam com frequência. Por isso, em 1986 o painel do Lagonda passou a usar telas fosforecentes, que funcionavam de forma parecida com os painéis dos videocassetes e ofereciam mais luminosidade que os CRT a uma voltagem muito mais baixa.

De qualquer forma, o Lagonda teve de lidar com painéis digitais problemáticos ao longo de toda sua produção. Mas por mais que a execução da ideia não fosse das melhores, a tendência estava lançado. Já a partir da virada dos anos 80 os painéis digitais começaram a ser adotados por outras fabricantes. Você provavelmente já viu os instrumentos dos Citroën oitentistas, por exemplo:

Na Alemanha, os carros da Opel começaram a vir com painel digital mais ou menos nesta época, assim como os da divisão britânica da GM, a Vauxhall. Modelos como o Ascona (nosso Monza) e o Omega tinham painel digital por lá, e o opcional foi oferecido por aqui em algumas versões.

Outro carro oferecido no Brasil com painel digital na década de 1990 foi o Fiat Tempra SW. Por aqui, a perua era a única da família a contar com o equipamento, pois o desenho do painel do sedã era completamente diferente e tinha instrumentos analógicos.

Na Europa, tanto o sedã quanto a perua podiam ter painel digital. Aliás, os habitantes do Velho Mundo podiam comprar um Uno com painel digital!

O painel do Uno Turbo é iluminado em âmbar, o do Uno SX, em verde

Nos estados unidos, era comum que os modelos de topo vendidos entre 1980 e 1990 tivessem painel digital de série, e que o item fosse oferecido como opcional em carros mais baratos. O Chevrolet Corvette C4, introduzido em 1984, foi um dos que apostaram na novidade. O design e a funcionalidade dos instrumentos digitais foi questionada no início e, por isto, anos mais tarde a Chevrolet decidiu dar ao carro algo mais convencional por dentro. Hoje, os Corvette C4 com painel digital são os mais cobiçados.

De qualquer forma, os painéis digitais forma caindo em desuso na década de 1990, mas nunca desapareceu completamente. Alguns carros de nicho, como o francês Renault Twingo e os Citroën Xsara e C4, permaneceram apostando nos paineis digitais. No entanto, estamos falando de sistemas com melhor visibilidade e qualidade do que o que se tinha na década de 1980.

TwingoByNight

Seu retorno ao mainstream começou na década passada com o Lamborghini Reventón e com o Mercedes Classe S W221.

rev9

Mais tarde, em 2011, o Lexus LFA, o supercarro japonês com um V10 de 5,8 litros e 560 cv capaz de girar a até 9.500 rpm, recebeu um cluster de instrumentos colorido totalmente digital. Segundo a Toyota, motor é capaz de ir da marcha lenta até a linha vermelha do conta-giros em 0,6 segundos, subindo de giro tão rápido que o ponteiro físico não conseguia acompanhar. Por esta razão, para mostrar de forma instantânea e com precisão as mudanças na velocidade do motor, foi necessária a adoção de um painel digital.

Talvez o fato de ser uma necessidade, e não um luxo, tenha ajudado os painéis digitais a se tornarem viáveis para uso nos carros de produção. Foi assim que, aos poucos, eles foram voltando a figurar nos carros de luxo e depois, em modelos mais comuns. O Mercedes-Benz Classe S da atual geração, lançada em 2014, estreou um painel digital duplo, que invade o console central.

O “Virtual Cockpit” do Audi TT de terceira geração, também lançado em 2014, trouxe os painéis totalmente digitais aos carros mais comuns. No entanto, estamos falando de uma tela de alta definição que permite que os instrumentos assumam diferentes configurações, cumprindo inclusive o papel de display do navegador por GPS. O fato de o Golf GTI 2017 ter recebido sua própria versão do Virtual Cockpit da Audi indica que, nos próximos anos, os painéis totalmente digitais e interativos serão a norma.

volkswagen_golf_gti_5-door_819

E a gente ainda aposta que, ironicamente, eles continuarão emulando mostradores analógicos.

Matérias relacionadas

A evolução e o significado do sistema de nomes da Audi

Leonardo Contesini

Governo vs. caminhoneiros: com “acordo” descumprido, exército é chamado para encerrar paralisações

Leonardo Contesini

A Porsche restaurou o 911 mais antigo do planeta – veja os detalhes do processo!

Dalmo Hernandes