Edição diária: 18/06/2019
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Car Culture

A história do Trabant, o carro de plástico da Alemanha Oriental que atravessou o muro de Berlim

Ontem, dia 9 de novembro de 2014, completou-se 25 anos que um dos maiores símbolos de segregação da história foi abaixo: o Muro de Berlim, que marcou a reunificação da Alemanha. E parte desta história tem a ver com um carro alemão — e não estamos falando de nenhum Audi, BMW ou Mercedes, e sim de algo bem mais modesto: o Trabant, ou Trabi para os íntimos e admiradores.

O Trabant, surgido em 1957, foi a solução da Alemanha Oriental para motorizar o novo país. A Alemanha foi dividida em 1949, quando foi estabelecida a República Democrática Alemã (DDR na sigla em alemão, RDA na sigla em português) que, depois do fim da Segunda Guerra, ficou com a União Soviética. A outra metade, controlada pelos EUA, Reino Unido e França, tornou-se a República Federal da Alemanha (RFA), ou Alemanha Ocidental.

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Eram lados bem diferentes, com uma clara divisão socioeconômica — o lado ocidental, próspero e economicamente livre, fez como que logo se tornasse comum que famílias inteiras mudassem de lado em busca de melhores condições de vida no período da Guerra Fria.

Em agosto de 1961, o Muro de Berlim foi erguido para colocar um fim nas migrações — e, além de dividir a cidade de Berlim em duas, simbolizava a divisão do mundo todo pela chamada Cortina de Ferro. Colocando a situação em termos automotivos, a divisão era entre quem andava de Fusca e quem andava de Trabant.

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A fabricante, chamada VEB Sachsenring, foi aberta especialmente para produzir o Trabi. A ideia era produzir um triciclo, mas um carro de verdade, com quatro rodas e um teto, pareceu mais sensata. De qualquer forma, o plano original era produzir o veículo por apenas dez anos, oferecendo à população um meio de transporte barato, econômico e prático enquanto a a economia se reestabelecia. No fim das contas, foram 34 anos produzindo o “carro de papelão”, como costumam dizer seus detratores.

O Trabant não era de papelão, mas usava materiais alternativos e componentes de baixo custo, pois seu desenvolvimento tinha sérias restrições orçamentárias. A estrutura monobloco — uma das poucas características inovadoras do carrinho — era de aço, com teto, portas, para-lamas, capô e portas em Duroplast, material composto de resina reforçada com materiais reciclados, como algodão e lã.

Trabant_Engine_Block

 

A concepção de motor e tração dianteiros também era moderna na época, e permitia aproveitar melhor o espaço interno. Contudo, a falta de recursos financeiros e materiais forçou a VEB Sachsenring a usar um antiquado motor de dois tempos e dois cilindros que deslocava 500 cm³, que entregava apenas 18 cv.  A vantagem era sua simplicidade mecânica, com apenas cinco partes móveis (algo que foi explorado até no nome do Trabant original, o P50) e ausência de sistema de lubrificação — o o óleo precisava ser misturado ao combustível pois não havia um sistema dedicado à lubrificação, de modo que vários postos ofereciam a mistura direto na bomba. As desvantagens eram o desempenho (obviamente), pois o carro levava 21 segundos para chegar aos 100 km/h (que também era sua velocidade máxima), a demora para subir e descer as rotações e a nuvem de fumaça que o carro deixava para trás.

Outra solução inusitada do Trabi era a posição do seu tanque. Como ele não tinha bomba de combustível o tanque de apenas 26 litros ficava acima do motor para que o carburador fosse alimentado pela gravidade.

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Nada disso impediu que o carro fosse um dos mais populares ao longo das quase três décadas e meia em que foi fabricado (não que existissem muitas opções, havia os Wartburg, alguns modelos soviéticos da AVTOVAZ e ZIL, os Skoda e os Tatra). Para resistir tanto tempo, naturalmente, o Trabi passou por algumas melhorias ao longo da vida: a adoção de um motor de 20 cv em 1960 e, dois anos depois, um aumento de cilindrada para 600 cm³, suficientes para entregar 23 cv — o que levou o fabricante a mudar seu nome para Trabant 600.

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Em 1963, com um novo estilo na dianteira e na traseira, era lançado o Trabant 601, que foi produzido até 1991, mesmo com a derrubada do Muro em 1989.

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A última atualização do Trabant, promovida naquele mesmo ano, foi a melhor: com os ânimos mais calmos entre os dois lados, a VEB Sachsenring e a Volkswagen fizeram um acordo para que a fabricante ocidental fornecesse motores de 1,1 litro (na verdade, 1.043 cm³) e para o novo Trabant, que também adotou um novo sistema de suspensão McPherson na dianteira no lugar dos antiquados feixes de molas semielípticas.

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Contudo, já não fazia sentido fabricar um carro tão antiquado em uma economia reunificada, e sua fabricação foi encerrada em 1991. O valor de mercado do carro despencou e muitos donos acabaram doando seus carros ou os vendendo pelo valor simbólico de 1 Marco. Contudo, como tudo o que não é exatamente bom mas faz sucesso por alguma razão, o Trabi se tornou objeto de culto entre os entusiastas logo em seus primeiros anos de fabricação.

Na verdade, a cena de modificação e preparação do Trabant surgiu quase ao mesmo tempo que o carro. Como já dissemos aqui, com preparação adequada, o motor original de dois tempos pode até quadruplicar sua potência — o que dá uns.. 80 cv.

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É, não é muito, mas um engine swap é considerado um sacrilégio para os mais puristas. Os que não são muito ligados a estas coisas gostam de manter apenas a carroceria e trocar o conjunto mecânico e o sistema de suspensão por componentes mais modernos, muitas vezes vindos dos Volkswagen GTI (pela associação das duas marcas na virada da década de 1990).

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Se o seu negócio é a nostalgia, contudo, é possível visitar Berlim e, se quiser, usar um Trabi para se locomover durante todo o tempo em que estiver lá. E você nem precisa comprar um e depois vender (gastando algo em torno de € 25-30 mil no processo) — basta procurar empresas como a Trabi Safari, especializada na locação do Trabant 601.

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Mas, mais do que isto, o Trabant é o símbolo da reunificação alemã — assim que o Muro caiu, milhares de pessoas finalmente puderam morar do lado que bem entendessem, e muitos Trabants (muitos mesmo, pois foram produzidos cerca de 3,5 milhões) atravessaram a fronteira que desaparecia.

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[ Foto de abertura: macsoapy/Flickr ]

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