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Mercado e Indústria

A mancha de diesel na reputação da Volkswagen está aumentando…

Depois que a EPA (Environmental Protection Agency, ou Agência de Proteção Ambiental) dos EUA investigou um software malandro na central de 500 mil veículos diesel vendidos pela Volkswagen e pela Audi nos EUA, o potencial incendiário do escândalo não para de aumentar. Não só pelo dano de reputação à Volkswagen e outras empresas do grupo, mas também porque a coisa toda parece estar apenas começando, com novas informações e revelações chegando aos poucos.

Primeiro temos o volume de veículos envolvidos. O número não para nos 500 mil originalmente apontados pela EPA: ele pode chegar a 11 milhões, pelos cálculos do próprio grupo Volkswagen. Essa é a quantidade de carros equipados com o motor EA189, também chamado de 2.0 TDI de primeira geração.

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A história começou em maio de 2014, quando a West Virginia University detectou que um Jetta 2012 e um Passat 2013 emitiam muito mais poluentes do que a Volkswagen alegava. Ela avisou a EPA e o CARB (California Air Resources Board). Depois de tentar se explicar, a VW fez um recall voluntário em cerca de 500 mil carros, possivelmente os mesmos envolvidos no problema atual. Em maio deste ano, a EPA e o CARB declararam que o recall não resolveu.

Em julho, as entidades disseram à VW que colocariam o pé na porta, negando à empresa os certificados de conformidade que ela precisaria para vender veículos 2016 com motores diesel. Em 3 de setembro, a VW confessou o truque, feito por meio de um algoritmo sofisticado que detecta quando o carro é colocado em dinamômetro, chamado de “calibração de dinamômetro”. Em 18 de setembro, o problema foi divulgado.

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O motor EA189 saiu de linha em 2014, sendo substituído pelo EA288, que seria até 40% menos poluente. Mas a VW, sem os certificados de conformidade, não pode vendê-los nos EUA. Não até que tudo se esclareça e que as autoridades tenham a certeza de que os novos motores não têm o software malandro.

O dano nos EUA é gigantesco. Não apenas porque os motores diesel foram por muitos anos renegados no mercado americano, mas também porque, em 2009, modelos diesel deram aos compradores de carros da Volkswagen um desconto no imposto de renda de US$ 1.300. Só que, como os carros não eram tão limpos como o governo supunha, Tio Sam pode querer a grana de volta. Quem vai pagar: a VW ou quem acreditou nela?

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Além disso, o departamento de Justiça dos EUA está conduzindo uma investigação criminal contra a Volkswagen. Os carros emitiam 40 vezes mais óxidos de nitrogênio do que o permitido por lei. Perder o emprego, para muita gente, vai ser ficha. O risco de os envolvidos irem em cana é altíssimo.

Ontem, durante o lançamento do novo Passat americano, o presidente da marca nos EUA, Michael Horn, não amenizou: “Ferramos com tudo. Precisamos consertar os carros para prevenir que isso aconteça novamente e temos de consertar direito. Este tipo de comportamento é totalmente inconsistente com nossas qualidades”, disse ele na entrevista coletiva.

As 11 milhões de unidades com o EA189 não estão só nos EUA, obviamente, mas também na Europa. O software malandro equipava todas as unidades do EA189, mas, ao que parece, ele era especificamente destinado aos testes de emissões americanos. Seja como for, quando alguém é pego na mentira, a tendência é que se desconfie de tudo que vem da mesma fonte. Fora a “zuera”.

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Acima, “a mecânica da emoção”; abaixo, “a mecânica da emissão”

O motor 3.0 V6 TDI, também vendido nos EUA, entrou na mira da EPA. E ele equipa não só modelos da Volkswagen, como o Touareg, mas também os Audi A6, A7, A8 e Q7 e até o Porsche Cayenne. Se algo for comprovado contra este motor, a despesa e o prejuízo serão ainda maiores, já que também vai espirrar em uma das joias da coroa do grupo.

A Volkswagen já separou 6,5 bilhões de euros para consertar apenas os motores EA189 e os carros que o equipam. Se mais motores e marcas estiverem envolvidas, talvez não seja suficiente.

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A França já pediu à União Europeia a investigação dos demais carros diesel do grupo Volkswagen para ter certeza de que eles respeitam, sem qualquer tipo de truque, as normas de emissões vigentes por lá. E o fogo vem também de dentro de casa.

A ministra alemã do ambiente, Barbara Hendricks, vai se reunir com o CEO da Volkswagen, Martin Winterkorn, para entender melhor a questão e provavelmente para submeter os modelos diesel do grupo a novos testes, capazes de avaliar se as unidades vendidas na Europa também fazem uso de algum artifício para passar nos testes de emissões.

A Volkswagen garante que todos os motores Euro 6 do grupo atendem às normas legais perfeitamente. Duro vai ser alguém acreditar nisso sem os devidos testes. Falando em Winterkorn, ele gravou um vídeo de desculpas aos clientes e acionistas. Quem fala alemão pode dar uma treinada.

Consta que ele acha que a culpa é de alguns poucos, não de todos os funcionários envolvidos com o projeto do motor EA189, que foram defendidos por ele no vídeo. Mas o que mais chamou a atenção no discurso, segundo alguns analistas, é que ele não tocou nem uma vez na palavra renúncia, algo que muitos esperavam. Mais do que esperavam, pediam, como a entidade ambiental Deutsche Umwelthilfe e o jornal Frankfurter Rundschau, que qualificou a ação de “não apenas criminosa, mas também incrivelmente estúpida”.

Quando algo desta dimensão acontece, alguém tem de levar a culpa. Ainda que Winterkorn, como chefe da coisa toda, não a assuma, o conselho de administração da Volkswagen deve jogá-la em seu colo.

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Segundo o jornal alemão Der Tagesspiegel, Winterkorn será demitido na sexta. Só ontem, a VW perdeu 15 bilhões de euros em valor de mercado. Suas ações caíram mais de 20%. Quem ocupará seu lugar é Matthias Müller, CEO da Porsche, o mesmo cara que Ferdinand Piëch defendeu antes de ser retirado do conselho de administração da Volkswagen.

Se a história se confirmar, no final desta semana, será uma ironia daquelas. Se não for uma fonte de mão cheia para uma teoria da conspiração corporativa. Como um Frank Underwood automotivo, de um House of Cars, Piëch poderia ser visto como um suspeito pela história do motor diesel ter vazado, com a queda de seu desafeto e a ascensão do executivo que ele queria ver no comando da empresa de sua família. Seria muita maluquice? Sem dúvida, mas, quando foi limado do conselho de administração, dissemos que ele não era conhecido por deixar as coisas para lá. No mínimo ele está dando risada…

UPDATE: Martin Winterkorn resolveu não esperar o bilhete azul e pediu quarta-feira, dia 23 de setembro de 2015, para sair. Renunciou ao cargo de CEO para assumir responsabilidade, ainda que não reconheça ter feito nada de errado à frente do grupo. Não foi o que ele fez, no final das contas, mas sim o que deixou de fazer: fiscalizar o andamento dos negócios para que nada ilegal pudesse ser aprovado. Falhou. Se a moda pega…

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