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Car Culture Games

A nostalgia de Enduro, o maior clássico de corrida do Atari 2600

Hoje em dia, games de corrida são papo sério para muita gente. Além de, obviamente, serem fruto do trabalho de centenas de profissionais altamente especializados (que, no caso das franquias mais famosas, trabalham com orçamentos milionários), os games de corrida nunca foram tão capazes de reproduzir, em vários graus de realismo, a experiência de acelerar um carro de verdade.

E nem precisa ser um simulador absurdamente detalhado, não: mesmo se você é um jogador casual e prefere os arcades consegue perceber o quanto os jogos de corrida evoluíram nos últimos anos, e não apenas no departamento gráfico. Pegue Forza Horizon 3 como exemplo: mesmo que o game não tivesse tantos recursos bacanas, só o visual, a variedade de carros e a jogabilidade já seriam inimagináveis há 20 ou 30 anos. E não é exagero.

Quer ver só? Na virada da década de 1980, os computadores tinham os melhores jogos, mas ainda eram caros demais para serem considerados populares.

Os consoles eram bem mais acessíveis, e o console mais vendido do planeta era o Atari 2600, lançado em 1977. Era uma caixa preta com detalhes imitando madeira (mais tarde, uma versão toda preta chamada “Vader” foi lançada), que vinha com dois joysticks e dois controles com botões giratórios (os chamados paddles).

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Você provavelmente o instalava na TV usando uma caixinha como esta acima – um conversor que transformava o sinal de áudio e vídeo do console em um sinal UHF, o que permitia que se conectasse o console à entrada que normalmente era usada pela antena.

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Os controles do Atari 2600 justificavam o termo “joystick”, porque era mesmo um bastão (stick)

O sistema de 8-bits rodava jogos simples, com gráficos em 2D, cores limitadas e jogabilidade simples e divertida. Foi uma revolução na época, e não demorou para que o Atari se tornasse um sucesso de vendas — incluindo o Brasil, onde o console foi uma verdadeira febre entre 1984 e 1986. E, se você gostava de corridas, é bem provável que seu game favorito fosse o hoje clássico Enduro.

Desenvolvido pela Activision, um dos grandes estúdios da época, Enduro era exatamente o que o nome dizia: uma corrida de longa duração. Longa mesmo: podia durar dias. E era impossível chegar ao final. Ou quase, mas a gente já chega lá. Mas antes, vamos parar um momento para apreciar a arte da caixinha. Os jogos de Atari tinham capas bem minimalistas e muito bonitas.

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Você podia escolher qualquer carro, desde que fosse um monoposto branco com pneus que pareciam feitos para estradas de terra, também brancos. Você seguia por um percurso delimitado apenas por linhas (que eram irregulares para dar a impressão de movimento) e tinha como objetivo ultrapassar o maior número de carros possível.

Não havia qualquer tipo de medidor de tempo: apenas o indicador do dia, uma contagem crescente, dos quilômetros rodados; e uma contagem decrescente, que marcava o tempo que você tinha para ultrapassar um determinado número de carros. Caso não conseguisse, o que acontecia era crueldade: o ronco eletrônico do motor do seu carro ia ficando mais grave, como se estivesse perdendo giro, até ficar totalmente mudo.

Você percebia a passagem do tempo pelas cores do cenário: de manhã, o céu era azul e o chão, verde. Depois, o céu começava a adquirir um tom alaranjado, depois vermelho, e à noite um céu cinza pairava sobre a paisagem negra. Você só via o seu carro, os limites da pista e os faróis dos rivais. Na madugrada, fazia neblina: tudo ficava cinza, e os limites da pista iam sumindo no meio da tela. E, de tempos em tempos a pista ficava branca, coberta de neve. Parece besteira hoje em dia, mas lembre-se: é um game de 33 anos atrás, e estes efeitos visuais deixaram muito moleque de queixo caído no meio da sala.

Os controles eram bem simples: você só precisava apertar o botão do joystick para acelerar e movê-lo para ir de um lado ao outro da pista. Puxando para trás, você reduzia a velocidade, mas nem todo mundo sabia disso. Se você sabia, provavelmente não contava para seus amigos quando todos se reuniam para uma tarde de jogatina – naqueles tempos, jogar videogame era uma atividade mais social, pois nem todo mundo tinha um console em casa. Hoje em dia, mesmo com os modos multiplayer online, as coisas ficaram um pouco mais individualistas.

Naquela época, os games eram bem mais simples, e era comum que um único desenvolvedor fosse responsável por todo o código. No caso de Enduro, o programador foi um cara chamado Larry Miller. Nos EUA, qualquer um que comprasse o game sabia disso, porque o manual de instruções vinha com uma carta escrita pelo próprio Larry, que dava dicas de como se dar bem no game. Esta “proximidade” dos desenvolvedores com o público existe até hoje – eles costumam ser bastante receptivos com seus fãs em redes sociais e afins –, mas a aura “caseira” dos jogos daquela época não existe mais.

Você pode ler a carta, que foi traduzida pelos caras do Memória Bit, na íntegra abaixo:

Como se tornar um “Roadbuster”

Dicas de Larry Miller, designer de Enduro™:

Larry Miller é um designer com PhD em física. Quando não está desenhando games, ele pode estar velejando, esquiando ou tocando piano. Seu hit mais recente foi Spider Fighter™.

O melhor jeito de vencer os adversários é dirigir com calma. Você não vai durar muito se correr à máxima velocidade pois acabará batendo nos outros carros. Vá rápido o bastante apenas para ultrapassar o número de carros necessário.

Se puder escolher entre chocar-se com a lateral da pista ou outros carros, vá pra lateral. É um atraso menor, você não perde tanto tempo.

Além disso, é sempre melhor passar diagonalmente entre carros pareados do que ter que se espremer entre eles – mas se isso for preciso, mantenha a velocidade maior que a deles e seja cuidadoso.

Outra dica: se você aproximar-se de um grupo de carros que está bloqueando a pista, desacelere. Deixe-os sumir no horizonte e então acelere. Quando reencontrá-los, provavelmente eles terão mudado de posição, liberando o caminho.

 

Afinal, Enduro tem final?

Se seguisse as dicas de Larry, você certamente ficaria bom o bastante para chegar ao quinto dia. Ou ao menos era o que a Atari devia achar, pois ao completar cinco dias de corrida, o jogador ganhava um pequeno troféu, que aparecia ao lado dos marcadores. Você podia tirar uma foto da tela da TV e mandar para a companhia como prova de sua conquista e, em troca, recebia este badge bordado bem bacanudo, provando que você era um Roadbuster:

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O que significa que, aparentemente, o carro de Enduro era um Lancia Stratos!

É claro que jogadores dedicados conseguiam ir muito além do quinto dia. No Youtube, o recorde é de 40 dias, e o marcador só vai até 99 e então volta ao zero. Depois disso, dá para continuar jogando mas, como muitos jogos da época, Enduro era programado para que a dificuldade aumentasse até que prosseguir se tornasse humanamente impossível. O vídeo abaixo, feito pelo canal brasileiro Innuendu, mostra na prática:

Se você está se sentindo nostálgico agora, ou se é novo demais para já ter jogado Enduro, você pode jogar uma versão emulada aqui. Poste seu recorde nos comentários!

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