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Acelerando no deserto branco: a história e os recordes de Bonneville Salt Flats

Há cerca de 15 mil anos, um gigantesco lago salgado dominava boa parte do território do que hoje é o estado americano de Utah. Hoje, só sobrou o sal sobre o qual, todos os anos, milhares de pessoas levam seus carros com o intuito de atingir a maior velocidade que conseguirem. São as Planícies de Sal de Bonneville, ou Bonneville Salt Flats, uma verdadeira Meca para os amantes da velocidade. E esta é sua história.

O lago de sal — chamado simplesmente de Grande Lago de Sal, existe até hoje, mas corresponde a uma fração do espaço que ocupava no período pré-histórico — 51 mil km², com 300 metros de profundidade. Na década de 1830, um oficial das forças armadas dos EUA chamado Benjamin Bonneville explorou o oeste do país e provou que a região já havia sido uma bacia hidrográfica. Por esta razão, o lago pré-histórico foi batizado em sua homenagem, bem como as planícies de sal que restaram depois que o lago secou.

Mas como alguém decidiu dirigir ali?

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Aconteceu décadas depois — mais precisamente, em 1907. O carro ainda era uma invenção recente, e as pessoas queriam dirigi-los o tempo todo em todo lugar. Travessias do deserto de sal eram comuns na época como testes de resistência, e um homem chamado Bill Rishel e dois de seus sócios atravessaram o lago de carro. O modelo em questão era um Pierce-Arrow, uma das várias pequenas fabricantes que surgiram e desapareceram nos primeiros anos do automóvel.

Todos sabemos que o automobilismo nasceu praticamente grudado ao automóvel, portanto, o passo seguinte foi natural — se dá para dirigir, por que não correr?

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Não demorou para que cada vez mais gente aparecesse de carro nas planícies de sal, e a fama de Bonneville como um bom lugar para acelerar logo se espalhou para outros países. O primeiro recorde foi estabelecido já em 1914, com um carro muito especial: o Blitzen Benz.

Quatro cilindros, 21,5 litros e 200 cv — estes eram os números do motor do Blitzen Benz, construído naquele anopela empresa de Karl Benz, o inventor do automóvel, que mais tarde se juntaria à empresa de Gottlieb Daimler, formando a Mercedes-Benz. A transmissão era feita por uma correia, como em uma moto, porque esses caras eram loucos.

Seis unidades foram feitas e foram transportadas para vários países estabelecendo e quebrando recordes de velocidade. Em 1914 chegou a vez de Bonneville, onde um piloto americano chamado Teddy Tetzlaff atingiu nada menos que 228 km/h. Hoje em dia, qualquer bom hot hatch chega a essa velocidade, mas estamos falando de um recorde de 100 anos atrás.

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Promotores de corridas viram o recorde de Tetzlaff como uma oportunidade de lançar uma nova competição, mas não era muito fácil convencer os pilotos a irem até Utah acelerar no meio de um deserto de sal. Pensando bem, se há 100 anos alguém nos chamasse para tal aventura, provavelmente preferiríamos ficar com nossos circuitos de concreto, tijolos ou madeira — e era exatamente assim que pensavam os automobilistas na época.

Foi preciso que um morador de Utah, de nome Ab Jenkins, fizesse alguma coisa. E por “alguma coisa”, queremos dizer “pegar seu carro e começar a correr em Bonneville sozinho estabelecendo recordes de velocidade”. Isso aconteceu em 1925, quando estavam construindo uma rodovia nas planícies de sal. Já havia uma ferrovia que cruzava o deserto, e um amigo que trabalhava na construção da estrada convenceu Jenkis a atravessar o deserto ao lado de um trem para ver quem chegava primeiro. Ele venceu, concluindo a travessia cinco minutos antes.

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Jenkins gostou da brincadeira e começou a estabelecer recordes pessoais sozinho. Ele ficou famoso por fazê-lo (não é fantástico como esse tipo de coisa atraía a atenção das pessoas naqueles tempos?) e acabou chegando aos ouvidos de uma fabricante de carros — ninguém menos que a Pierce-Arrow, fabricante do primeiro carro a  cruzar Bonneville.

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Eles contaram com Jenkins para testar seu novo motor V12. Eles tinham um V8, mas ele era mais rápido, o que não estava certo. Assim, Jenkins pegou o Pierce-Arrow com motor V12 e dirigiu o carro por 24 horas sem parar em um circuito de 16 km feito com a ajuda de seus amigos no deserto, parando apenas a cada duas horas para abastecer. A velocidade média no circuito foi de 181,72 km/h. Em 1933, ele tentou de novo e conseguiu uma média ainda maior — 201 km/h.

Três pilotos britânicos estavam assistindo a tudo. John Cobb, Malcolm Campbell, e George Eyston já eram famosos por seus recordes de velocidade no Reino Unido e decidiram que era hora de invadir os EUA.

John Cobb foi o primeiro — ele pediu a Jenkins para usar seu carro e acabou destruindo seu recorde, com uma velocidade média de 217 km/h! Jenkins devolveu semanas depois com um Duesenberg modificado chamado Mormon Meteor, registrando uma média de 218 km/h em 24 horas.

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Depois disso, os três britânicos voltaram sua atenção aos recordes de velocidade em linha reta, usando carros aerodinâmicos com motores aeronáuticos — um dos mais famosos sendo o Campbell-Railton Bluebird (acima), com um motor V12 aeronáutico Rolls-Royce de 36,7 litros com compressor mecânico e mais de 2.300 cv. Com ele, Malcolm Campbell  atingiu 484 km/h — ou 301 mph, tornando-se o primeiro homem a quebrar a barreira das 300 mph.

Depois disso, ele voltou para a Inglaterra. Cobb e Eyston continuaram nos EUA quebrando recordes com seus carros — o Railton Special de Cobb, com dois motores Napier Lion e 2.500 cv, e o Thunderbolt de Eyston, que tinha DOIS motores Rolls-Royce com compressor mecânico e mais de 4.600 cv. Eles disputaram até o início da Segunda Guerra Mundial — o último recorde foi do Railton Special, que atingiu 594 km/h.

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Cobb ainda voltou depois da guerra com o objetivo de ultrapassar as 400 mph. Ele meio que conseguiu, em duas tentativas: na primeira, atingiu 385 mph e, na segunda, 403 mph — uma média de 394 mph, ou 634 km/h.

O Railton Special e o Thunderbolt em ação. O vídeo não tem som, então sinta-se livre para colocar uma música bem épica como trilha sonora

Toda esta movimentação britânica acabou atraindo mais e mais pessoas ao longo dos anos e, na transição das décadas de 40 e 50, era notável o número de carros modificados que se juntavam em Bonneville para acelerar. Eram verdadeiras reuniões de hot rods — carros preparados com motores maiores, peças de outros carros, modificações aerodinâmica e redução de peso para conseguir a maior velocidade sobre o sal.

Bonneville começou a ganhar a cara que tem hoje. Mas esta história vai ficar para o próximo post!

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