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Acelerando o Gol GLR – o “kleine monster” dos track days!

“E aí, Tiagão! Quando você vai me levar para passear de GLR de novo?”, perguntei para Tiago Kfouri, dono do VW Gol de track day cujos vídeos andam fazendo sucesso no YouTube. Sua resposta foi quase um prêmio: “Ô Murtinha, você não quer levar o GLR para o evento no Serra Azul deste domingo (26 de janeiro)? Preciso fazer rodagem em um carro, mas gostaria de ver o Gol lá também. Topa?”. Passar do banco do carona para o assento do motorista – especialmente neste carro – é como receber a oferta de upgrade da classe econômica para a executiva em uma viagem intercontinental de 12 horas: você aceita na hora, babando de felicidade, sem hesitar.

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Pra quem não lembra de mim, meu nome é Márcio Murta. Sou aquele cara que levou o Palio 1.6 para o Track Day In em Curitiba (PR) e relatou a aventura aqui no FlatOut (veja: parte 1 e parte 2). Meu convívio com o Gol GLR (originalmente um modelo “GL” que, após intensa preparação, recebeu de seu dono o “R” de sobrenome, da linha esportiva da Volks) tem quase dois anos: ele fez parte do meu TCC, presenciei sua participação em uma prova de Track Day, o acompanhei durante toda a matéria feita pela Intake Filmes, tive algumas oportunidades de dirigi-lo, além de contemplá-lo na garagem e em eventos automotivos algumas vezes.

Mas, apesar de todo este convívio, este Gol sempre me oferece altas doses de adrenalina e coloca longos sorrisos no meu rosto todas as vezes que o encontro, como se vivesse a experiência pela primeira vez. Antes de eu começar a falar das minhas impressões do Golzinho, no entanto, é interessante compartilhar, primeiramente, a visão de seu proprietário:

O que torna esse Gol 1991 tão interessante é a soma de todas as suas características. A receita do motor, por exemplo, é relativamente simples — o que não significa “simplória”. Uma turbina KKK-K16, intercooler, radiador de óleo, radiador do sistema de arrefecimento redimensionado, carburador 2E (roots!), comando de válvulas 049G, bielas forjadas, módulo de ignição MSD, volante aliviado, embreagem de cerâmica, entre outros detalhes não menos importantes — além de todo o cuidado do preparador, Eduardo Keller — ficam abrigados debaixo do capô. Pense num coração extremamente saudável.

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O chão do Golzinho é igualmente minimalista e eficaz: rodas Scorro S-217 15 x 6″, pneus Yokohama Advan Neova 195/50, e suspensão totalmente preparada pela Fênix Amortecedores — em resumo, molas e amortecedores com maior carga, e novos ângulos de cáster, cambagem e divergência. A carroceria também recebeu reforços para aumentar sua rigidez à torção: há barras estruturais conectando as torres dos amortecedores na dianteira e na traseira, além de dois outros reforços estruturais no assoalho.

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Para ser honesto, não tive coragem – nem lugar adequado – para buscar os limites de aderência do GLR em curvas, mas a firmeza da suspensão, as respostas precisas da direção, o conforto e apoio oferecidos pelo banco concha (do Trofeo Maserati!) e o cinto de segurança de cinco pontos passam uma dose de segurança totalmente incomum e até desconcertante para um veículo de 1991, projetado originalmente para ir ao supermercado e levar a avó à missa aos domingos. Aliás, isso é uma das coisas mais legais deste projeto: este Gol ainda é capaz de fazer coisas triviais sem judiar dos ocupantes.

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Não há outro termo: é um tesão poder espetar uma segunda marcha, fazer o pedal do acelerador estalar na parede corta-fogo e poder curtir todos os 256 cv e 36 mkgf de torque do GLR sendo transferidos para o asfalto sem perda de tração: está tudo lá, nas suas mãos e pés, literalmente. Sem freios ABS, controle de tração ou estabilidade, câmbio de dupla embreagem, suspensão autoadaptativa, ou mesmo direção com assistência hidráulica, o GLR oferece uma conectividade mecânica simples, pura, experiência que, aos poucos, os mais seguros e eficientes automóveis atuais deixaram para trás. Veja um pouco como ele empolga nessa (tentativa) de avaliação:

O que mais? O GLR conta com sistema de freios redimensionado, com pinças e discos do Gol GTI na traseira e kit da Powerbrakes, com discos fresados de 288 mm, na dianteira. Para afastar qualquer possibilidade de fading por superaquecimento de fluido, Kfouri instalou dutos de ventilação para os freios dianteiros, que captam ar fresco onde estariam os faróis de neblina. Mais uma vez, como estava passeando em rodovias, não explorei o limite do sistema, mas fiquei com uma ótima impressão da progressividade e da capacidade de desaceleração deste Volks.

Claro que não poderia deixar de mostrar como que este carro se comporta num Track Day. Por isso, aperte os cintos, aumente o volume e pegue uma carona com Kfouri no Autódromo da Capuava…

…e em Interlagos. Aliás, fique bem de olho nos carros que ele acompanha – e deixa para trás – neste vídeo (e não perca o contraesterço no finalzinho)!

Outra coisa bacana é o fato deste Gol ter uma série de detalhes sutis. “Para mim, carro esportivo liga no botão”, diz Tiago, e por isso, além de contar com a chave normal, uma chave geral e interruptor de ignição, o GLR é acionado por meio de botão.  A embreagem de cerâmica demanda calma e giro ligeiramente elevado na hora de colocar o veículo em movimento, enquanto o carburador oferecerá uma sensível engasgada se você solar o pedal do acelerador em baixo giro e em marcha alta: o controle do fluxo da mistura está no seu pé direito! Ele exige procedimento correto, mas, ao mesmo tempo, é extremamente dócil e fácil de dirigir quando o motorista está sem pressa.

Quando Kfouri fala que a sensação de dirigir o GLR é demais, não se trata de exagero ou apenas de orgulho pessoal. O carro é realmente demais, uma bela fonte de inspiração. E mostra que o cuidado e investimento em detalhes acaba fazendo de um veículo “comum” algo extremamente especial. Até melhor que uma viagem em classe executiva em um avião.

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