Adeus, Mr. Saab – morreu Erik Carlsson, que transformou a Saab em uma lenda dos ralis

Dalmo Hernandes 28 maio, 2015 44
Adeus, Mr. Saab – morreu Erik Carlsson, que transformou a Saab em uma lenda dos ralis

Para conhecer e apreciar a Saab é preciso ser um verdadeiro entusiasta – ela não tem a mesma fama que a compatriota Volvo, sendo mais admirada por quem gosta e entende um mínimo de carros. E, dos vários motivos para isto, está o sucesso dos Saab nos ralis. Ontem, dia 27 de maio, morreu o homem responsável por este sucesso: o Mr. Saab, Erik Carlsson, aos 86 anos.

Carlsson nasceu em Trollhättan no dia 5 de março de 1929 – por feliz coincidência, a mesma cidade sueca onde ficava a sede da Saab, fabricante de automóveis fundada dez anos antes como divisão do grupo Saab AB, companhia aeroespacial fundada em 1937.

Ele perdeu os pais ainda adolescente e acabou desenvolvendo um gosto especial por velocidade e aventura muito jovem. Em 1947, aos 18 anos, já competia em subidas de montanha com motocicletas, fazendo fama com uma Norton ES52 com motor de 500 cm³. Não demorou para que ele começasse a trabalhar na concessionária Norton local e fizesse amizade com o dono do estabelecimento, Peter Nystrom.

A dupla estreou no Rali da Suécia em 1953 ao volante de um Volvo. Carlsson era o navegador, mas em vez de ficar no banco do carona ele se sentava atrás – dizem que seu físico avantajado ajudava na distribuição de peso do carro. Ao lado do piloto ficava uma cama, na qual Nystrom às vezes descansava e entregava as chaves ao navegador.

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Foi ali que Carlsson descobriu a paixão pela velocidade sobre quatro rodas. Por isso, em 1954 ele comprou um Saab 92 de um fazendeiro que precisava de dinheiro e começou a aperfeiçoar suas técnicas de pilotagem. Vale lembrar que estamos falando de mais de cinco décadas atrás, e a Suécia não era exatamente o modelo de infraestrutura que é hoje. Naquela época, as estradas raramente eram pavimentadas e não havia limites de velocidade, e o tempo quase sempre ruim (a única coisa que não mudou desde então) tornava as estradas nos arredores de Trollhättan verdadeiros estágios de rali.

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O Saab 92 foi o primeiro carro produzido em série e comercializado pela companhia. Sua origem está no conceito Ursaab, que começou a ser desenvolvido em 1945, pouco depois do fim da Segunda Guerra. A divisão automotiva ainda não havia sido fundada e os engenheiros responsáveis pelo projeto não tinham experiência com automóveis, e por isso a Saab teve que comprar carros de outras marcas para estudar seus projetos, incluindo um Volkswagen Fusca, um Opel Kadett e um DKW.

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Darth Vader, I’m your father

O conceito tinha motor dianteiro de dois tempos montado em posição transversal, tração dianteira e carroceria aerodinâmica, com coeficiente de arrasto baixíssimo. Estas características todas foram aproveitadas no modelo de produção, que foi lançado em 1949 e batizado como Saab 92 pois era o 92º projeto criado pela companhia.

O motor bicilíndrico de dois tempos do Saab 92, inspirado pelos DKW, não era exatamente um poço de potência: deslocando apenas 794 cm³, era capaz de entregar apenas 25 cv, que davam ao carro uma velocidade máxima de 105 km/h.

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A versão de corrida tinha 85 cv produzidos pelo motor de 850 cm³. Não parece muito, mas estamos falando de 100 cv/litro nos anos 1950, e foi o bastante para que Carlsson desenvolvesse sua pilotagem – em especial, sua técnica de frenagem com o pé esquerdo, que lhe dava controle simultâneo sobre o acelerador e os freios e lhe possibilitava contornar curvas com agilidade, levando o motor ao limite e escorregando suavemente a traseira.

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Logo em suas primeiras provas Carlsson impressionou por sua habilidade, e sua primeira vitória em 1955, ainda com o 92: o Rali Rikspokalen, em Örebro, na Suécia, um dos mais difíceis de seu tempo. A partir daí ele começou a correr com o Saab 93, que havia sido lançado em 1955 e tinha um motor de 33 cv. Foi com o 93 que Carlsson conquistou algumas das vitórias mais importantes de sua carreira, como o Rali da Finlândia e o Rali da Suécia, em 1959.

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Depois disso, com o Saab 96, Carlsson conseguiu uma impressionante sequência de três vitórias no Rali Monte Carlo em 1960, 1961 e 1962.

Sua maior conquista de todas, porém, veio no ano seguinte: Carlsson casou-se com Pat Moss, que era ninguém menos que a irmã mais nova de Sir Stirling Moss. O lendário piloto britânico, que além de cunhado se tornou amigo de Carlsson, dizia que ele era “a melhor coisa não-mecânica que já saiu de Trollhätan.

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Pat Moss foi uma das mais bem sucedidas pilotos femininas de rali na história, sagrando-se campeã europeia cinco vezes entre 1958 e 1965. Ela casou-se com Erik Carlsson e, desde o início, tornaram-se parceiros no amor e nas pistas, disputando provas no mesmo carro e como rivais. Em 1965, escreveram juntos um livro sobre pilotagem –  The Art and Technique of Driving, sem edição em português, porém traduzido para holandês, alemão, japonês e espanhol.

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Ao todo, Erik Carlsson venceu 19 ralis entre 1955 e 1970, quando aposentou-se das pistas. Mais marcantes que suas vitórias, porém, são as histórias que rodeiam sua carreira no rali. A começar por seu primeiro apelido, “Carlsson på taket”, que significa “Carlsson no teto”.

O apelido é um trocadilho com o nome de uma história infantil tradicional sueca, Karlsson på taket, e foi dado ao piloto porque ele tinha uma leve tendência a capotar os carros com os quais corria. A ocasião mais notável aconteceu no Safari Rali, quando ele capotou o carro intencionalmente para desviar de um atoleiro. Os jornalistas não acreditaram na história, mas ele provou que era verdade ao repetir a manobra na frente deles.

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Por sorte, outra das inovações dos Saab era o modo de construção: a carroceria instalada no monobloco era moldada a partir de uma única chapa de metal e depois cortada onde ficariam as janelas e portas. Assim, a estrutura era bastante rígida e dificilmente um Saab abandonava a prova depois de ser colocado de volta sobre as quatro rodas.

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Na edição de 1962 do RAC Rally, no Reino Unido, foi que Carlsson aprontou uma de suas maiores: conta-se que ele precisava de uma peça que não estava em seu estoque de reserva. Passando por um estacionamento, ele viu um Saab 96 novinho em folha e não pensou duas vezes: parou, foi até o carro e ele e seu mecânico começaram a desmontar o carro.

Há quem diga que ele só deixou um bilhete sob o para-brisa, enquanto outros dizem que o dono chegou, furioso, e Carlsson safou-se contando que era piloto de rali da equipe de fábrica da Saab e que, por ter ajudado, o homem ganharia um carro novinho em folha. Qualquer que seja o caso, o dono do Saab 96 e Carlsson mantiveram contato (e trocaram cartões de Natal) por décadas.

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Depois de deixar as pistas, Carlsson tornou-se piloto de testes para a Saab, e até os anos 90 nenhum novo modelo era lançado sem que ele aprovasse sua dirigibilidade. Seu carisma também garantia que ele fosse um ótimo relações-públicas para a marca, ajudando a convencer o público de que as inovações da companhia em economia e segurança tornassem modelos como o 900 e o 9000 em sucessos de vendas na Suécia.

Mesmo sem ter assinado um contrato de tabalho quando se tornou piloto pela Saab, em 1955, a carreira de décadas na companhia tornou o nome de Erik Carlsson tão associado à marca que ele ganhou um novo apelido: Mr. Saab. E ele também emprestou sobrenome a uma série especial: os Saab 900, 9000 e 9-3 Carlsson.

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O Mr. Saab viveu para ver Pat Moss morrer em 2008. Viveu para ver a divisão de automóveis da Saab tornar-se uma divisão da General Motors e vender Subarus rebatizados – o 9-2X Aero nada mais é do que um WRX Wagon de primeira geração com outra dianteira e outro nome (embora isto não seja de todo ruim). Nada disso, porém, impediu que ele continuasse, orgulhosamente, a representar sua companhia até os últimos anos de sua vida.

 

  • Guilherme Castro

    Grande homem, Grande marca.
    Recomendo o Episódio do Top Gear que eles fizeram um tributo à Saab.
    Temporada 18 Episódio 5

  • Raphael Medeiros

    Legal saber que a cidade aonde nasceu a Saab é a mesma que a Koenigsegg.

    • Victor Freire

      que eu saiba, a koenigsegg é de ängelholm, não? só se foi pra lá depois de ter sido fundada em trollhättan.

      • Raphael Medeiros

        Realmente camarada… Fiz confusão. Ela nasceu em Olofström e depois mudou para a base militar em Ängelholm. Na verdade, a Koenigsegg cogitou adquirir a Saab, mas acabou voltando atrás na decisão.

        • Angelo_Jr

          rapaz, a SAAB devia tá bem barata, até a Spyker, que teve falência decretada (mas reverteu a decisão) tentou comprar a SAAB uma vez

  • Eduardo Palandi

    RIP sr. Carlsson. já conhecia a história dele pelo tempo em que acompanhava o Saabs United, esse era doido. e fantástico.

    só uma coisa a ser arrumada no texto: “Carlsson nasceu em Trollhättan no dia 5 de março de 1929 – por feliz coincidência, a mesma cidade sueca onde ficava a sede da Saab, fabricante de automóveis fundada dez anos antes como divisão do grupo Saab AB, companhia aeroespacial fundada em 1937”.

    a Saab Automobile foi fundada em 1947, dez anos DEPOIS da Saab AB :)

  • 3=6

    RIP! Mais um apreciador (e super-manjador) da fumacinha azul que se vai.

    Na foto que abre o post, pensei que ele estivesse posando do lado do “Monstret” – SAAB 1959 com dois motores 3cil! Insanidade experimental que (dizem) alcançou os 196km/h.

    http://saabmuseum.com/en/wp-content/uploads/2011/02/monstret.jpg

    • Arthur Fonseca

      Lembro da fumacinha azul andando de Walk Machine kkkkk
      vivia tacando fogo nas velas e colocando no sol porque encharcava.

    • 3=6 é o único gabaritado pra fazer comentários nesse post

      • ovelho306

        J u s t I t !!

      • AstolphoGM6

        Quero ver quem tem a Pachorra de discutir com o Homi! kkkkkk

    • HighwayStar_84
      • 3=6

        Não só conheço ao vivo como também já dei a partida no mesmo na bancada! Esse cara é o mecânico da nossa tranqueira… Sinfonia disso na lenta é algo espetacular!!!

        Semana retrasada a gente tava na oficina do Sr. Graciano. O cara é um mito dentre as DKWs. A decoração da oficina é repleta de imagens das corridas de terra e troféus obtidos nos anos 80/90. Um rádio tocando bailão e muita graxa! hahaha

        • chadefita

          Uma pergunta 3=6 esses motores usam paletas igual as RD’s e afins?

          • 3=6

            Pelo que sei, DKW não usa palheta. Segundo Bob Sharp, na época chegou a ser experimentado pela Vemag, mas não foi implementado… o por que disso eu não sei, rsrs

        • Angelo_Jr

          isso é mecânica rootz!!

        • Leonardo Mendes

          Eu vejo um futuro fundo de tela nessa foto… dá até pra imaginar o clima dessa oficina só de ver a imagem.

        • HighwayStar_84

          Ele enfiou esse motor em algum carro ou não? Nesse vídeo só tem o motor na bancada.

  • Ibrahim Hadi

    Toda vez que vou ao Líbano eu vejo um saab 9-3 azul marinho, o carro é animal, ainda mais sendo conversível hehe, um dos carros mais bonitos ja feitos hehe, só perdi pro perfeito mini cooper s na minha opinião claro.

  • Guzz White

    RIP, um cara a frente do seu tempo. =(

  • Eduardo Mateus Klein

    Carro de 3 rodas? Só eu pensei isso…

    • ovelho306

      questão de ponto de vista! literalmente, he he…

  • Bom é uma péssima noticia, meus pêsames a sua família, aliás pela matéria do Flatout deu para ver que era um excelente piloto. e um excelente piloto ainda que aposentado.

    • ovelho306

      man, foi o cara quem morreu! num dá pra dar os pêsames pra ele…

      • Pois, meus lamentos por ele ter morrido e meus pêsames a família. valeu pelo toque, só não vou editar por que vou sair.

        • ovelho306

          de bôa! acho mesmo que nossas gafes e erros de digitação são verdadeiras PÉROLAS!! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKkkk

          • KKKKKKKKKKKKKKK, mas vou editar, eu pensei em não fazer, mas vou fazer.

  • Bruno Cancian de Araujo
    • Wendel Cerutti

      uma cerveja cura tudo ? acho que nao …..

  • Diego Fernandes

    Mais um grande gearhead se vai…
    E uma grande fabricante como a Saab definha nas mãos dos chinas…
    Só nos resta apreciar a história desse grande homem, e da Saab também.
    E antes que eu me esqueça: Obrigado Flat, por mais essa grande matéria que deixa Autoesporte e Quatro Rodas comendo poeira…

  • Marcos Amorim

    Independente de ser entusiasta ou não, vai o homem que fez aquilo que gostava sempre dá melhor forma possível, um apaixonado. Esse é o exemplo, ser um exímio piloto de rali acaba sendo um bônus.

  • Prezotti

    É incrível como histórias do automobilismo não param de surgir para nós e nos surpreender. É uma pena que só vim a conhecer esse grande homem nessa postagem sobre sua morte.

    Fica a homenagem à esse e a tantos outros heróis anônimos que fizeram parte da história desse nosso mundinho movido à graxa onde se misturam os loucos e os gênios.

    Rest in Power!

    • AstolphoGM6

      Pra vc ver cara… sou pirado em carros Suecos, e só fiquei sabendo sobre o Carlsson por causa de uma postagem de uma página no Instagran… pesquisei sobre o cara, pirei na história dele, e sugeri pro Flat uma matéria… ninguém melhor que eles para apresentar uma figura dessas né?

  • Nacho Loser

    É impressão minha ou esse Saab era altamente capotável?
    :-/

  • Leonardo Mendes

    Ele é citado nominalmente no livro Icebreaker:
    ‘Boa sorte, seja lá o que estiver fazendo… lembre-se do que lhe ensinei sobre o pé esquerdo!’ Bond sorriu, lembrando-se das horas que passou com Carlsson aprendendo técnicas de frenagem com o pé esquerdo para controlar o carro no gelo.”

    Nada como o Mr. Saab pra ensinar um agente britânico a dirigir seu Saab 900 no gelo.

  • Barba

    Isso é meio bizarro nos carros velhos, meu fusca 60, os 356 da década de 60, esse saab, como todos tinham caixas de todas enormes e mini pneus quase no centro do carro, puta coisa feia …

    http://flatoutcombr.c.presscdn.com/wp-content/uploads/2015/05/carlsson-erik-1.jpeg

    • Eliezer

      Dá uma certa fobia…

      • Rafael Lopes

        Achei qu eera só eu. Parece uma arraia.

  • AstolphoGM6

    Fiquei sabendo da morte dele no dia 27, e até então nem tinha ouvi falar… quando pesquisei, fiquei fascinado pela história do cara, INCRÍVEL, não tem oq falar!

    O fato da esposa dele também ser Gearhead até a alma me fez pensar… o Flat podia providenciar uma matéria sobre Mulheres Automobilistas de responsa não??? Certeza que a Moss entrava, assim como a Hele-Nice entre outras!