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Afinal, como aconteceu (e como acabou) o contrato de exclusividade entre a Porsche e a EA Games?

No início dos anos 2000, meu game de corrida favorito era Gran Turismo 2 (talvez ainda seja, na verdade), do PlayStation. Como já contei antes, foi GT2 que me introduziu ao mundo dos automóveis, me apresentando dezenas de modelos clássicos de fabricantes lendárias – afinal, a lista compreendia mais de 600 carros, de 27 companhias diferentes. E esta lista só fez crescer nos títulos seguintes: Gran Turismo 4, lançado em 2004 para PS2, tinha mais de 700 carros. Gran Turismo 6, que saiu para PS3 em 2013, vinha com mais de 1.200 carros.

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Agora, há uma questão que, por muito tempo, atormentou os fãs de jogos de corrida: se você jogou qualquer um destes títulos, sabe que nenhum deles conta com carros da Porsche. Quando eu era mais novo e só jogava Gran Turismo 2, isto não me incomodava. Mas depois eu comecei a me perguntar: cadê os Porsche?

O mesmo ocorreu com outros jogos de corrida com carros licenciados que marcaram minha infância e adolescência (bons tempos, aliás): a série Test Drive, da Accolade; Top Gear Overdrive, lançado pela Kemco para o Nintendo 64; TOCA 2: Touring Cars, da Codemasters… nenhum deles tinha carros da Porsche. E o mesmo aconteceu com títulos que vieram depois e também se tornaram icônicos, como Midnight ClubProject Gotham Racing, o obscuro Enthusia Professional Racing, da Konami, e vários outros.

O que todos estes games tinham em comum: nenhum deles era da Electronic Arts, hoje EA Games. Só os games da EA podiam ter carros da Porsche. E foi assim até pouco tempo atrás. Mas por quê?

A culpa, ironicamente, é de um dos games de corrida mais legais do fim dos anos 2000: Need for Speed: Porsche Unleashed.

O “Need for Speed Porsche”, como é mais conhecido por aqui, foi lançado em 2000 – em fevereiro para PlayStation, e em março para PC (também houve uma versão para GameBoy, lançada em 2004, mas isto é só um detalhe). Quinto game da franquia, NFS: PU foi o primeiro dedicado inteiramente a uma única fabricante de automóveis. E era, claramente, um game diferente dos anteriores.

Se os quatro primeiros Need for Speed tinham pegada arcade e eram focados em corridas ilegais com esportivos exóticos e perseguições policiais, Porsche Unleashed trazia mais aspectos de simulação, com controles mais precisos e uma dinâmica mais refinada, exigindo aplicação cuidadosa dos freios e correções na direção.

A versão para PlayStation, que foi a que joguei, era um jogo muito bom, com ótimos gráficos, menus bonitos e alguns modos de jogo bem criativos – em um deles, era possível acompanhar toda a timeline da Porsche, do primeiro 356 até o Boxster, passando por todas as gerações do 911, e incluindo carros de competição como o 550 Spyder e o 917. Estou ficando nostálgico só por descrever.

Naturalmente, Porsche Unleashed era fruto de um contrato entre a Porsche e a Electronic Arts – as duas empresas selaram um acordo de exclusividade, e apenas games da EA poderiam usar os carros da lendária fabricante alemã. Foi assim até pouquíssimo tempo atrás: só em 2017 o acordo entre as duas partes foi encerrado.

Costuma-se dizer que este contrato de exclusividade durou 17 anos – de 2000 a 2017. No entanto, é provável que ele tenha sido firmado algum tempo antes, entre 1997 e 1998. O último game de corrida licenciado pela Porsche antes de Porsche Unleashed foi Porsche Challenge, da Sony, lançado para o PlayStation em abril de 1997. Era um game com ótimos gráficos, porém criticado na época pela jogabilidade e por contar unicamente com o Porsche Boxster.

Isto explicaria por que Gran Turismo, de dezembro de1997 e Gran Turismo 2, de dezembro de 1999, já não tinham os carros da Porsche. Bem como todos os outros jogos de corrida lançados a partir do fim dos anos 1990 por outras empresas que não fossem a Electronic Arts.

Se alguém quisesse jogar com um Porsche fora de Need for Speed, precisaria recorrer a alguns títulos antigos, como o primeiro Test Drive, de 1987, que tinha um Porsche 930…

Ou a um desconhecido arcade chamado The Great 1000 Mile Rally, de 1994. O game isométrico retratava a lendária Mille Miglia, e trazia uma seleção pequena, porém excelente, de carros de corrida das décadas de 1950 e 1960, incluindo o Porsche 550 Spyder.

Ao menos a Polyphony Digital conseguiu contornar a ausência da Porsche de forma criativa. Começando por Gran Turismo 2, seus títulos passaram a incluir a Ruf. A companhia se tornou lendária por seus Porsche modificados, mas havia um detalhe importante: em vez de preparar carros prontos, a Ruf compra monoblocos não-marcados diretamente com a Porsche e monta os carros sozinha – o que, para o governo alemão, classifica companhia como fabricante, e não como preparadora. Os Porsche feitos pela Ruf, do ponto de vista legal, não são Porsche. Por isso, eles podiam ser usados normalmente em qualquer game.

A Ruf marcou presença em todos os títulos da série Gran Turismo lançados desde 2000, e também alguns jogos seletos como Project Gotham Racing 3 (2005), Enthusia (2005), Test Drive Unlimited (2006) e Unlimited 2 (2011), CSR Racing (2012) e The Crew (2014). Mas, como já dissemos, os Ruf podem até parecer com os carros da Porsche, mas não são.

A título de curiosidade: em Gran Turismo 3, de 2001, há um Porsche 911 GT3 escondido no código do jogo, acessível apenas por métodos não-oficiais (como o Gameshark). Segundo o pessial do fórum Internet Game Car Database, o IGCD, Kazunori Yamauchi – o criador de Gran Turismo – tinha um exemplar, e quis prestar homenagem a seu carro no jogo.

Foi só em 2017 que o contrato de exclusividade entre Porsche e Electronic Arts acabou – e a decisão de não renovar o contrato veio, aparentemente, da Porsche. A natureza do acordo sempre foi mantida em confidencialidade pelas partes, mas em 2016 um site alemão especializado em games de corrida, o Speedmaniacs, cantou a bola em um artigo sobre Assetto Corsa, um dos simuladores mais populares da era moderna.

Segundo o site, foi Sebastian Hornung, que na época era o responsável pelas parcerias comerciais entre a Porsche e outras empresas, quem percebeu que a exclusividade era má ideia. Ele ficou surpreso com a popularidade da Ruf entre os gamers, e notou que a Porsche estava perdendo uma oportunidade de capitalizar com a indústria dos jogos eletrônicos ao manter-se exclusiva nos títulos da EA. Até porque os títulos mais recentes de Need for Speed não foram muito bem recebidos pelo público e pela crítica.

Antes disto era preciso conseguir uma licença especial com a Electronic Arts – algo que poucas desenvolvedoras conseguiram. A Turn10 foi uma delas, e por isto já era possível, nos anos 2000, baixar packs de carros da Porsche para alguns jogos da franquia Forza. Nem todos os estúdios, porém, se dispunham a pagar pela permissão da EA Games.

Não foi por acaso que, no evento de lançamento de Assetto Corsa, que aconteceu na Itália, a Porsche fez questão de comparecer, levando até mesmo alguns dos carros do acervo do Museu Porsche, em Stuttgart. O evento foi realizado na beira do circuito de Vallelunga, e os presentes puderam conduzir alguns carros da Porsche no circuito e, logo depois, pilotar o mesmo carro no simulador. Pelo visto, a Porsche mal podia esperar pelo fim do contrato.

De lá para cá, os carros da Porsche já começaram a aparecer em títulos de fora da EA, como (finalmente) Gran Turismo Sport, lançado em 2017, e DiRT Rally 2.0, que saiu em fevereiro de 2019.

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