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Afinal, o que é Alcantara?

Qualquer um que já tenha visto o interior de um carro esportivo mais caro deve ter topado com ela: a Alcantara. Talvez você tenha lido em algum lugar que se trata de um tipo de couro, e você não está totalmente errado – quer dizer, isto se a gente considerar o couro sintético (ou “ecológico”, como as fabricantes gostam de chamar) um tipo de couro. Porque a Alcantara é um material sintético feito para imitar a camurça, esta sim um tipo de couro. Entendeu?

Ok, vamos do começo.

 

O que é Alcantara?

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A Alcantara é um material sintético a base de microfibras de poliéster, tratado de modo que apresenta uma textura aveludada típica da camurça. O material foi criado em 1970 pelo Dr. Miyoshi Okamoto, que trabalhava para a companhia química japonesa Toray Industries, que desenvolve materiais sintéticos para diversas aplicações, realiza estudos com polímeros e também investe em bioquímica.

A ideia era criar um substituto mais barato e mais versátil para a camurça (suede, em inglês). Esta, por sua vez, é um tipo de couro feito com a camada interna da pele do animal, de aspecto mais granulado e rústico, e também mais maleável e menos resistente que o couro retirado da camada externa da pele. Por isto, há quem ache que a camurça é o couro virado pelo avesso, o que não é verdade.

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Acontece que a camurça também é um material mais nobre e caro, que gera preocupações ambientais por ter origem animal e, por ser poroso, absorve muita umidade e sujeira.

Foi por isto que o Dr. Okamoto decidiu trabalhar em uma alternativa. Ele criou, então, um material à base de microfibras de poliéster e poliuretano que foi inicialmente batizado Ultrasuede.

 

Como a Alcantara é feita?

Tecidos tradicionais passam por processos têxteis como fiação e tecelagem, nos quais as fibras são unidas por entrelaçamento seguindo um padrão. O Ultrasuede, assim como outros materiais sintéticos, tem suas fibras todas distribuídas de forma aleatória, que são unidas através de processos térmicos, mecânicos e químicos, e por isto é considerado um “tecido-não-tecido” (faz mais sentido em inglês, nonwoven fabric). Depois, o material é perfurado, penteado, polido e escovado para ganhar um aspecto aveludado semelhante ao da camurça.

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Além de parecer camurça, o Ultrasuede tem diversas vantagens em relação ao material orgânico: além de absorver muito menos umidade e ser resistente a manchas e descoloração, pode ser tingido de diversas cores, é mais fácil de limpar e bastante maleável.

Imediatamente o Ultrasuede começou a ser utilizado em diversas aplicações: roupas e acessórios, decoração de interiores e até mesmo na indústria, como proteção para equipamentos eletrônicos. Foi um passo natural a chegada do material aos automóveis.

 

Mas… onde entra a Alcantara nesta história?

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Inicialmente o material era vendido no Japão como Ecsaine e nos EUA como Ultrasuede, marcas criadas pelo próprio Dr. Okamoto. Em 1972, ele teve a ideia de dar ao material uma roupagem mais refinada e idealizou o nome Alcantara, inspirado pelo rio de mesmo nome que fica na Sicília. Curiosidade: a palavra italiana Alcantara deriva do árabe qantara, que significa “a ponte’.

A Toray então firmou uma parceria com a companhia química italiana Eni para fabricar o material em Roma e distribuí-lo na Europa. O nome italiano e o fato de ser todo fabricado na Itália contribuíam para a percepção da Alcantara como um produto mais caro e luxuoso. Deu tão certo que, em 2001, o Dr. Okamoto recebeu o Prêmio Leonardo da Vinci, concedido pelo Rotary Clube de Florença como forma de reconhecimento a quem contribua de alguma forma para a visão que o mundo tem da Itália.

Sendo assim, Ecsaine, Utrasuede e Alcantara são três marcas registradas pela mesma empresa, para o mesmo produto, porém para finalidades ligeiramente diferentes.

 

Mas Ultrasuede e Alcantara são totalmente iguais?

Não. O Ultrasuede é composto por microfibras de poliéster e poliuretano, em uma proporção que varia entre 80%-20% e 65%-35%, dependendo da aplicação. Já a Alcantara, especificamente, traz por volta de 62% de poliéster e 28% de poliuretano em sua composição – proporção que, de acordo com a fabricante, é a que melhor explora as propriedades físicas do material para a aplicação em automóveis.

E, como é made in Italy, a Alcantara é mais cara, também.

 

E nos carros?

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Inicialmente, a Alcantara foi empregado em carros de luxo, como os Mercedes-Benz Maybach, Rolls-Royce e Bentley – geralmente em áreas que eram muito suscetíveis a marcas e queimaduras de charutos ou champagne derramado. No entanto, as fabricantes de mais prestígio preferem usar materiais naturais, como couro e camurça. Quem compra estes carros é um público exigente, que faz questão de autenticidade. É claro que, por questões de custo e ambientais, a Alcantara aos poucos ganhou mais espaço – o teto do Mercedes-Benz Classe S, por exemplo, é revestido de Alcantara.

No entanto, de quinze ou vinte anos para cá, a Alcantara foi adotada em massa pelos esportivos e carros de competição. E por algumas boas razões.

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O painel de Alcantara do McLaren 12C GT3

Primeiro, sua baixa flamabilidade (não pega fogo facilmente), o que é especialmente atraente em um carro de competição. Nos bancos e no volante, a Alcantara oferece mais aderência, o que significa que o macacão e as luvas do piloto escorregam menos. Além disso, um painel revestido em Alcantara produz menos reflexo no para-brisa, o que ajuda o piloto a enxergar melhor a pista. Sem falar, é claro, no visual bruto que o revestimento proporciona.

Evidentemente, a aplicação da Alcantara não está restrita aos carros esportivos e de corrida. Alguns modelos de luxo, e mesmo carros mais comuns, costumam ter o material aplicado em seus interiores por companhias de tuning e preparação, como a Carlex, a Gemballa e a Brabus.

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