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Car Culture

Afinal, por que os sedãs não têm limpador do vidro traseiro?

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Pode reparar da próxima vez que for para a rua: de todos os carros com limpador de para-brisa na traseira, alguns são hatchbacks, outros são peruas e outros, ainda, são SUVs. Nenhum deles, contudo, será um sedã. Mas por que é assim?

Normalmente sedãs são mais caros e melhor equipados, então qual é porque cazzo eles não têm um equipamento tão banal como um limpador de para-brisa traseiro?

Há quem diga que tem a ver com a própria instalação do limpador de para-brisa. Você já deve ter notado que a tampa dos hatches, peruas e utilitários, mais vertical, dá espaço para que posicione o motor de forma discreta, bem escondido, ocupando o espaço mínimo necessário.

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Isto não acontece com os sedãs: a configuração da carroceria, com o porta-malas separado do resto da carroceria e perpendicular à base do vidro traseiro, torna mais difícil achar um lugar para o mecanismo.

Só que este não é o motivo principal (na verdade ele é até questionável). O real motivo é um pouco mais técnico, e tem a ver com a aerodinâmica dos sedãs.

A esta altura, se você nos acompanha, já deve saber que, quando se trata de um automóvel, aerodinâmica é muito mais do que cortar o ar com facilidade. A forças da atmosfera sobre um carro em movimento influenciam na dirigibilidade, na economia de combustível e até na maneira como carro fica sujo.

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Em vários posts do FlatOut explicamos o modo como as forças aerodinâmicas atuam sobre o carro e suas consequências. Ao se movimentar, um carro corta o ar com maior ou menor eficiência de acordo com o formato da carroceria. A atmosfera oferece resistência ao movimento do carro, que força sua passagem pelo ar, que “escorrega” até o fim da carroceria e faz pressão sobre o carro.

Nestas duas fotos, feitas a partir de testes em túneis de vento, dá para ver como o fluxo de ar se comporta. Note como as linhas seguem suaves mesmo depois do vidro traseiro, acompanhando o desenho da tampa do porta-malas.

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Agora olhe a perua (que é, na prática, um hatchback mais comprido), e note como o fuxo de ar acaba de forma abrupta logo depois do vidro traseiro. Aquela é uma zona de baixa pressão, que leva o ar que fluía sobre o teto e sob o assoalho do carro a ocupar aquele espaço repentinamente, causando turbulência – um fluxo de ar desordenado atrás do corpo em movimento, que no caso é o carro.

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A turbulência se dá pelo descolamento da camada-limite do fluxo de ar, que fica instável. Explicamos o acontecimento em detalhes neste post. Recomendamos que você leia na íntegra mas, visualizando a coisa, a compreensão fica mais fácil:

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Na prática, isto faz com que a água da chuva escoe com mais facilidade pelo vidro mais inclinado dos sedãs, praticamente dispensando o uso dos limpadores. Nos hatchbacks, a enorme área de baixa pressão e turbulência impede o escoamento da água. E, não apenas isto: sem o terceiro volume do porta-malas, a turbulência também levanta poeira e detritos. Se estiver chovendo fica ainda pior, pois a sujeira fica toda grudada no vidro.

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Com os sedãs, isto não acontece porque a turbulência na região do vigia costuma ser menor. No entanto, podem existir casos em que o limpador seja necessário em um sedã que tenha um ângulo muito agudo entre o teto e o vigia, ou uma tampa traseira muito curta.

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Aliás, os poucos sedãs que oferecem limpador no vidro traseiro são oferecidos apenas nos países do hemisfério norte. Pode ser uma questão cultural, mas também por outro tipo de precipitação: a neve. Mesmo que seja só para, antes de sair de casa, tirar a camada acumulada sobre o carro depois de uma noite ao relento no inverno. Melhor do que ir até lá para limpar, não é mesmo?

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