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Car Culture

Além da Fórmula 1: a trajetória de Niki Lauda nas corridas de turismo

As maiores conquistas de Niki Lauda possivelmente são os três títulos que ele conquistou na Fórmula 1, em 1975, 1977 e 1984 – incluindo nesta o retorno triunfal após o acidente no GP da Alemanha de 1976, em Nürburgring Nordschleife.

Contudo, além de correr na Fórmula 1, Lauda teve uma interessante trajetória nas corridas de turismo – sua primeira experiência foi com um Mini Cooper e, anos mais tarde, ele continuou correndo com carros de rua modificados para, acredite, ajudar a pagar as contas. E também para manter-se ativo nos fins de semana de descanso da Fórmula 1. Lauda não gostava de ficar parado.

Como uma última homenagem a Niki Lauda, neste post nós contamos como foram suas participações em corridas de turismo, dos primórdios de sua carreira até a conquista do título na M1 Procar, uma das competições monomarcas mais épicas já realizadas.

 

O início de tudo: Mini Cooper e Porsche 911

Niki Lauda iniciou a carreira no automobilismo contra tudo e contra todos – como contamos em outros posts, ele vinha de uma família austríaca importante, que era totalmente contra sua investida nas pistas. Principalmente o avô, que era o patriarca.

Assim, Niki Lauda precisaria se virar por conta própria se quisesse tornar-se piloto. Depois de terminar os estudos, ele fez um empréstimo e comprou um Mini Cooper S. Foi seu primeiro carro de corrida – o que começou tudo.

Lauda comprou o carro sem contar a ninguém e, em abril de 1968, inscreveu-se em uma subida de montanha realizada na região da Caríntia, na Áustria. Ele passou o fim de semana fora, e chegou em segundo lugar. Quando voltou para casa, seu pai lhe perguntou: “onde você estava?”

Sem saber o que dizer, pois não sabia se já havia sido descoberto, Niki Lauda contou toda a verdade. O pai não gostou nada – e lhe disse que não apoiaria aquela loucura.

Ainda em 1968, Lauda trocou o Mini Cooper S por um Porsche 911 – um carro vermelho, com o qual disputou algumas corridas de turismo austríacas naquele ano e em 1969.

 

Opel “Black Widow”

Foto: Arthur Fenzlau/Technisches Museum Wien

 

Um capítulo pouco conhecido na carreira de Niki Lauda foi seu envolvimento com a Opel. Mais precisamente, com o Opel Rekord C “Schwarze Witwe”, projeto pessoal do engenheiro Anatole Lapin, que trabalhava na fabricante alemã. Não se sabe muito a respeito da trajetória do carro, a não ser que ele tinha uma impactante pintura preta e amarela e um motor 1.9 naturalmente aspirado de 200 cv.

Lauda, que tinha apenas 19 anos de idade e estava agarrando qualquer oportunidade que tivesse de sentar-se ao volante, aceitou ser um dos pilotos de Lapin. Sua estreia com o Rekord foi em uma prova no circuito austríaco de Tulln-Langenlebarn, e ele não conseguiu chegar ao fim: recém saído de um Mini Cooper e de um Porsche 911, e pouco habituado com carros grandes, ele perdeu o controle e se acidentou.

Foto: Arthur Fenzlau/Technisches Museum Wien

O carro desapareceu em 1970, quando foi roubado, mas foi recriado décadas depois pela própria Opel. Falamos mais a seu respeito aqui. Àquela altura, Lauda já estava correndo na Fórmula Vee – sua primeira incursão nos monopostos antes da Fórmula 2, que lhe abriu as portas para a Fórmula 1 pouco depois.

 

Porsche 908

Foto: Ultimatecarpage

Ainda em 1970, Niki Lauda teve uma breve experiência com as corridas de protótipos, participando de alguns eventos com o Porsche 908 – protótipo aberto equipado com um motor flat-8 arrefecido a ar, de três litros e 350 cv, que pesava apenas 500 kg.

Com ele, Lauda disputou ao menos dez corridas, várias delas como parte do campeonato Interserie, uma categoria bastante interessante que ocorria na Europa naquela época, onde participavam bólidos de diferentes categorias – protótipos, monopostos e carros de turismo.

O melhor resultado de Lauda com o Porsche 908 foi a etapa de Nürburgring Norschleife, que ele terminou na terceira colocação.

 

BMW E9

Como os fãs da marca bávara sabem, o E9 foi o primeiro grande cupê esportivo com motor seis-em-linha feito pela BMW na era moderna – um carro arrojado e bem acertado, concebido com as corridas de turismo em mente. E Niki Lauda os conhecia muito bem.

Nos primórdios de sua carreira na Fórmula 1, Lauda não estava bem financeiramente. Renegado pela família, ele se esforçava para se sustentar e ainda bancar a carreira nas pistas. Depois de fazer alguns empréstimos para garantir lugares nas equipes March e BRM, o piloto precisava pagar as contas.

Foi por isso que, começando em 1972, Lauda começou a pilotar para a BMW-Alpina, uma das equipes que recebiam suporte de fábrica da BMW. Suas primeiras corridas foram com um BMW 2800 CS, versão do E9 que, apesar do nome, em alguns casos era equipada com um seis-em-linha de três litros (e não 2,8 litros) e algo entre 300 e 350 cv.

Embora esta fase de Niki Lauda não seja a mais lembrada na hora de falar sobre o piloto, algumas das imagens do BMW E9 de competição daquela época foram feitas com o austríaco ao volante (como a que abre este post). Além disso, o próprio Lauda já disse em entrevistas que as provas de turismo estão entre suas favoritas.

Lauda correu com o BMW E9 entre 1971 e 1973. No primeiro ano ele usou o 2800 CS, mas nos dois anos seguintes o carro era o lendário 3.0 CSL “Batmobile” com a emblemática pintura laranja da Jaegermeister. A prova mais marcante foram as 24 Horas de Nürburgring de 1973, na qual ele e o alemão
Hans-Peter Joisten foram os vencedores. Em uma entrevista ao site oficial da atual DTM (Deutsche Touring Masters), em 2006, Lauda relembrou como foi:

Teve uma corrida eletrizante, as 24 Horas de Nürburgring de 1973, que eu disputei junto com Hans-Peter Joisten – que, infelizmente, morreu tempos depois em um acidente em Spa-Francorchamps. Na minha vez com o carro, eu estou lá correndo, e quando vejo viro exatamente o mesmo tempo em três voltas seguidas. Sem brincadeira. Exatamente o mesmo tempo de volta, três vezes, até os décimos de segundo. Todo mundo ficou boquiaberto com isto, ainda mais porque eu estava indo até o meu limite, e em Nürburgring!

Mas aí começou a chover e eu acabei saindo da pista em uma curva à esquerda, logo depois do Fuchsröhre, a pista estava molhada e eu fui burro demais para perceber. Acertei o muro, meu banco desencaixou dos suportes, e eu fiquei solto dentro do carro. Mas, caramba, era uma corrida de 24 horas! Eu saí do carro, arrumei o banco, voltei para trás do volante e fui até os boxes. O carro foi consertado – não lembro exatamente as circunstâncias, mas no fim do dia vencemos a corrida. Mesmo com o acidente.

 

Ford Capri

Lauda foi bem com a Alpina e, por isso, conseguiu um contrato com a Ford em 1974. Sim, exatamente o mesmo ano em que Enzo Ferrari o contratou para a Scuderia – o que não agradava o “Velho” (até seus últimos anos de vida, Lauda só chamava Enzo Ferrari assim) nem um pouco. No entanto, conforme o próprio Lauda contou na mesma entrevista, Il Commendatore não podia fazer nada a respeito: “ele queria tanto que eu ficasse na equipe que teve de engolir o fato de que meu contrato com a Ford existia. E no fim ele me deixou correr com eles. Mas era cansativo discutir com ele.”

Lauda queria garantir uma fonte de renda enquanto ainda não estava com a vaga 100% garantida na Ferrari – ou ao menos era isto o que ele achava. Com a Ford, Lauda participou de alguns eventos seletos, a maioria deles em Nürburgring, revezando o volante com Jochen Mass – de quem se manteve próximo nos anos seguintes.

Mesmo com bons resultados, incluindo uma vitória nas 4 Horas de Salzburgring, Lauda decidiu deixar de uma vez por todas as corridas de turismo no fim daquele ano. Primeiro, porque as provas acabavam o desconcentrando da Fórmula 1. Segundo, porque com o salário que Enzo Ferrari lhe pagava, ele não precisava mais “trabalhar por fora” para quitar seus empréstimos.

 

BMW M1 Procar

Foi só em 1979 que Lauda retornou brevemente para as corridas de turismo. E foi um belo retorno: ele foi um dos pilotos que competiram na M1 Procar Series, categoria monomarca que serviu como apoio à Fórmula 1 em 1979 e 1980.

Baseados na versão de rua do BMW M1, os carros que competiam na Procar tinham conjunto aerodinâmico mais agressivo e, com turbocompressor, chegavam tranquilamente aos 800 cv no motor seis-cilindros central traseiro. As corridas eram disputadas antes das provas da Fórmula 1, e os pilotos eram classificados de acordo com seu desempenho nos treinos da F1. Além de Lauda, caras como Nelson Piquet, Mario Andretti, Hans-Joachim Stuck, Alan Jones, Clay Regazzoni e Jacques Lafitte participaram.

Lauda venceu três das oito provas que compunham a temporada – as etapas de Monaco, Hockenheim e Silverstone. Foi o bastante para lhe garantir o título com 78 pontos, contra 73 do segundo colocado, Hans-Joachim Stuck.

Niki Lauda não voltou a correr na Procar em 1980 – ano em que o campeão foi Nelson Piquet. Na verdade, ele não tornou a competir fora da Fórmula 1, aposentando-se das pistas ela primeira vez no fim de 1979. Quando retornou ao automobilismo, em 1982, o austríaco dedicou-se apenas à Fórmula 1.

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