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Project Cars Project Cars #484

Aletta Rossa: a história da minha Agrale SXT 16.5 1987, o Project Bikes #484

Salve, nação gearhead! É com grandessíssimo prazer que eu começo a contar aqui a história do meu primeiro projeto de restauração: a carcamaninha, a minha Agrale SXT 16.5 1987, ou melhor ainda, a minha Cagiva Aletta Rossa 125 1987.

A ideia aqui é compartilhar com vocês as emoções e dificuldades que um projeto de restauração traz a um marinheiro de primeira viagem, ainda mais quando esse marinheiro é quem faz tudo a bordo – desde a busca por literatura, peças, ferramentas até os trabalhos, retrabalhos e claro os aprendizados e reconhecimento!

 

O início

Pois então vamos começar do início: sempre fui uma criança fascinada por carros. Desde neném eu ficava admirando o trânsito paulistano, sabia de cor cada um dos modelos da época e ficava literalmente HORAS brincando com carrinhos, tipo colocando eles no cegonheiro, fazendo garagens com almofadas, estacionando e mudando de lugar n vezes as dezenas de modelinhos, enfim.

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Diz minha mãe que antes de falar “mamãe” eu falei “bruuum” – true story!.

Fato é que o tempo foi passando e sempre fui cultivando essa admiração por automóveis. Obviamente fiz parte da geração Velozes e Furiosos, Gran Turismo, Midnight Club, Need for Speed e por aí vai – e com isso, na época de ensino médio meu sonho era ter um carro para customizar. Meter aquele louco de tuning dos anos 2000, rodão cromado, carro socado lá em baixo, sub torando no porta malas, aquela coisa (hahaha, que bom que o tempo passa!). Lembro até hoje que eu era louco por uma edição da Revista Fullpower que trazia um Corsa vermelho totalmente modificado.

Era tanta informação nesse Corsinha que hoje em dia você até fica confuso quando olha para ele – nada faz sentido, mas no auge dos meus 12 anos isso era o must

Mais uma vez o tempo foi passando e a febre da customização inspirada nesses elementos foi ficando para trás. Com isso, uma outra paixão que sempre cultivei foi crescendo: automóveis antigos.

Querendo ou não sempre fui uma pessoa saudosa, que fica imaginando como seria a vida em décadas passadas, e uma das maneiras de transpor sua imaginação até lá é através dos objetos – tenho várias coisas aleatórias de outras épocas, tipo máquina de escrever Remington, um toca discos Aiwa, um rádio RCA Victor da década de 40, objetos decorativos, roupas e tals – e apesar de não ter vivido esses anos, eu consigo conectar bem com o tempo que passou e viajar na minha imaginação com a ajuda desses objetos. É engraçado pensar que você consegue tentar reproduzir a sensação de viver os anos 80, por exemplo, dirigindo um Corcel GT tocando um Blitz no rádio ou andando com um jaco jeans em cima da sua Agrale soltando fumaça nas pessoas.

O desejo de ter carros antigos sempre existiu e as poucas vezes que tive a oportunidade de andar em algum só me fez aumentar ainda mais a vontade de iniciar uma coleção. E é aqui que de fato começamos a conectar com a história da Agralona.

 

A escolha da marca: Agrale

Desde meus 18, 19 anos acesso com uma certa frequência sites de classificados para ficar fuçando umas velharias por aí: Fusca, Corcel, Belina, Ladas de vários modelos, cheguei até a pesquisar uns Renaults/Citröens antigos na Argentina, tudo na intenção de achar um antigo para restaurar e começar minha coleção de carros.

Obviamente naquela época eu ainda não tinha um tostão no bolso (e nem noção de quão difícil seria restaurar um Renault 12 ou um Citröen 2CV sendo um mero iniciante no Brasil) e jamais meus pais me dariam dinheiro para comprar uma lata velha qualquer na esperança de um dia colocar para rodar. Minha saída foi simplesmente ficar imaginando qual seria o carro perfeito para começar meu hobby quando tivesse dinheiro e ficar enrolando diversos anunciantes para poder conhecer os carros, fazer um ou outro test drive e conhecer mais de cada modelo.

Acabei testando vários carros, mas nenhum agradou – seja pela complexidade do projeto, seja pelo preço – e foi aí que caiu a ficha: a melhor forma de iniciar meu hobby de restauração seria com outra paixão minha – motos!

Essa foi minha primeira grande epifania. Motos são infinitamente mais baratas que carros, tanto no valor de aquisição, quanto na compra de peças, e a dificuldade técnica seria potencialmente reduzida.

Foi aí que comecei a pensar qual seria o melhor projeto para começar. A primeira moto que me veio na cabeça foi uma Teneré 600, uma lenda do Rally Dakar, mas logo descartei pelo preço elevado que essa moto conquistou.

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A segunda moto que me veio na cabeça foi uma DT180 (mais barata que a Teneré e tão icônica quanto), mas logo fui perceber que dentro da categoria dela, por algum motivo, pegou muito mais preço que as concorrentes.

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E é aí que vem um fato interessante: quanto mais eu pesquisava sobre a DT180 (e aqui vai uma dica: sempre pesquisem muito sobre os modelos que vocês têm interesse. Ter informação, em qualquer âmbito, é sempre MUITO importante e aqui não é diferente. Quanto mais você souber sobre o que está fazendo, mais autônomo você será, menos enganado você será e principalmente, mais dinheiro você vai economizar!), mais eu acabava entrando em contato com outra fabricante nada a ver com Yamaha: a Agrale.

As Agrales eram frequentemente mencionadas nos textos que eu lia, e aos poucos, acabei direcionando a pesquisa quase que exclusivamente para elas! Não vou entrar muito na história da empresa, até porque o FlatOut fez uma ótima matéria tempos atrás sobre isso – mas apenas para dar um mini contexto a quem não sabe, a Agrale fez uma joint-venture com a fabricante italiana Cagiva e licenciou a montagem  e comercialização dos modelos no Brasil. Aqui eles montavam o que na Europa são a Aletta Rossa 125 (aqui vendidas como Elefant/SXT 13.5 e 16.5) e as Elefant 200 (aqui vendidas como Elefant/SXT 27.5 e 30.0).

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A diferença entre os modelos SXT e Elefant era apenas o volume do tanque (11L no primeiro e 16,1L no segundo

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As denominações 13.5, 16.5, 27.5 e 30.0 correspondem à cavalaria de cada um dos modelos. Para vocês saberem, as 13.5 e as 16.5 tinham 125cc, enquanto que as 27.5 e 30.0 tinham 200cc

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Para quem não sabe, Aletta Rossa é Asinha Vermelha em italiano. São modelos menores derivados das Ala Rossa (Asa Vermelha, em italiano), que eram motos maiores ofertadas pela Cagiva na Europa. Elas tinham 350cc. Na época, na Itália, tinha até uma publicidade que brincava com isso: o pai e o filho não precisavam mais brigar, porque cada um podia ter a sua de acordo com o tamanho

As duas parceiras vieram com uma estratégia de mercado agressiva para tentar desbancar a grande parcela da Honda e da Yamaha no Brasil. A Agrale oferecia um projeto europeu, mais moderno em relação aos que tinham naquele momento aqui no mercado nacional, com itens de série pouco usuais na época e um motor mais eficiente – as motos extraiam a mesma potência da concorrência 4T com deslocamento muito menor.

Não vou entrar no mérito da questão, mas fato é que a Agrale acabou não tendo o sucesso condizente com o potencial das motos Cagiva e não foi muito bem recebida aqui no Brasil. Dizem que o estoque de peças mal planejado e a falta de preparo das autorizadas e dos mecânicos em geral acabou criando uma má fama para a marca e as vendas nunca alavancaram tanto.

O bom disso é que seus preços são infinitamente menores do que a concorrência hoje em dia e as tornam projetos bem acessíveis para quem precisa economizar – ainda que a questão das peças seja um risco. Várias pessoas usam as Agrales para fazer trilha ainda hoje, porque são projetos acessíveis e que, se bem preparadas, fazem frente às motos mais modernas como Yamaha TTR 125 e Honda CRF 250 por uma fração do preço.

Com essa imersão na história da Agrale, finalmente cheguei à segunda grande epifania: meu primeiro projeto seria uma Agrale! Seria perfeito buscar um projeto que seria mais barato e que teria um quê de “do contra”, querendo de alguma forma mostrar para os outros que essas motos renegadas têm sim o seu valor e que o que aconteceu lá atrás foi mais uma das teimosias/burrices do nosso eterno atrasado mercado automobilístico brasileiro.

Até porque sempre tive certa aversão à hypes e apesar de ter nascido em 1993, me pareceu que na década de 80 as Hondas e Yamahas eram exatamente isso (fãs de DTs e XLXs por favor não me levem a mal!) e nada mais underground do que uma Agrale para fazer frente à todo esse contexto!

Um fato interessante que também me ajudou a escolher esse projeto foi que em algum momento meu pai teve uma Agrale SXT 16.5. Ele nunca me deu muitos detalhes da moto, não sei o ano nem quando ele teve, só sei que era da mesma cor da minha. Bom, se faltava algum vínculo familiar ou mais emocional com a Agralona, aí está ele.

 

A compra da minha SXT

É incrível como as coisas são.

O ano é 2015 e eu fico dia sim, dia não buscando ofertas de Agrale nos sites de anúncio. Extremamente difícil encontrar modelos de Agrales que ainda estão habilitados para andar nas ruas – minha intenção sempre foi fazer um projeto para uso urbano, com aspecto original e se possível, candidato à placa preta. Eu diria que 85% das Agrales anunciadas no mercado são para trilha e os outro 15% estão em péssimas condições de uso ou já foram restauradas (sem se encaixar no perfil de projeto que estava buscando).

À essa altura eu ainda tinha pouquíssima informação técnica sobre os modelos, mas quando estávamos quase no final do ano de 2015 o Flatout me publica uma matéria sobre Câmaras de expansão e Motores 2T. Li a matéria, como sempre rica em detalhes, e fui para os comentários. Lá eu acabo conhecendo meu primeiro grande amigo dentro desse mundo de Agrales, Jefferson Lamb.

Não lembro muito bem porque começamos a conversar, mas na época demonstrei meu interesse por entrar no mundo das Agrales e ele rapidamente me convidou para fazer parte de três grupos de Agrales e trilhas no Whatsapp. Ainda nem tinha comprado minha, mas isso foi essencial para mim.

Nos grupos você tem acesso à discussões e informações técnicas que enriquecem muito sua bagagem. Fiquei durante quase dois anos acumulando informação e conhecendo os integrantes. É engraçado que quando você entra numa comunidade assim consegue perceber rapidamente quem são as pessoas entendidas, prestativas, quem são os aproveitadores e os que não sabem absolutamente nada.

Com o tempo fui acumulando muita literatura sobre elas – catálogos de peças, manuais do proprietário, manuais de serviço, fotos, posters, etc. E aqui vai um protesto/pedido: Infelizmente aqui no Brasil ainda tem muita gente com a cabeça pequena que esconde informação e tenta fazer dinheiro com ela. Quando você for buscar literatura sobre modelos antigos, saiba que você SEMPRE vai conseguir achar arquivos gratuitos disponíveis em fóruns e websites, nem que você tenha que procurar na gringa (meu caso). Por isso, não dê dinheiro à toa para essas pessoas, e sempre que possível compartilhe o conhecimento com a comunidade – todos ganham com isso!

Há manuais de serviço da Aletta Rossa 125 em quatro línguas diferentes. Não importa o modelo do seu projeto, faça sua parte e procure. Até porque a qualidade do material gringo (em resolução e nível de detalhe) não se compara ao nacional

Fiquei meses lendo e relendo os manuais antes mesmo de ter comprado a minha moto. Somente no final do verão de 2016 que fui efetivamente me deparar com minha SXT 16.5. Acabei encontrando na OLX um anúncio de uma Agrale SXT 16.5 sem informações de ano e algumas fotos simples que apenas mostravam que a moto estava inteira, apesar de judiada pelo tempo que ficou encostada (ela ainda estava com placa amarela). Por coincidência, era exatamente o mesmo modelo e cor da Agrale do Jeff!

Liguei para o anunciante e marquei de visitá-la. Moro perto do centro de SP e fui até a Vila Zelina, lááá na Zona Leste para conhecer a moto. E lá conheço o então proprietário, o senhor Hugo.

Ele era um aficionado por antigomobilismo. Já tinha alguns projetos em andamento entre carros, motos e bicicletas, mas não estava com disposição nem dinheiro para continuar a restauração dessa Agrale. Aos poucos fui perguntando sobre a moto e a sua história.

Ele tinha comprado a Agrale da sua vizinha, D. Claudia, que pegou a moto quando era zero e a usou durante alguns anos, até encostá-la, mas não sabia dizer o ano de fabricação da moto e não tinha nem DUT nem CRLV. Até hoje não sei porque ela fez isso, mas fato é que a moto tinha somente 8.600km quando parou e estava 100% original.

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A moto estava inteira, mas com as típicas condições de um automóvel enconstado durante anos: pneus quadrados, borrachas e vedações ressecadas, sujeira, óleo e gasolina encrostrados.

Realmente a condição da moto me animou. Era o projeto perfeito que eu estava buscando: uma moto original, relativamente conservada, que não exigiria restaurações estruturais e que tinha um bom preço.

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Até as pastilhas e lonas de freio dela eram originais ainda!

Negociamos a venda da moto. A essa altura ele já tinha retirado o anúncio da OLX e disse que se eu não comprasse ele mesmo iria restaurar. Não chegamos a um acordo.

Na época eu ainda era estagiário, não tinha como bancar o que ele estava pedindo, e nem conhecia a D. Claudia, então acabamos não fechando negócio naquele momento. Ainda assim, fiz amizade com ele e com uma certa frequência falávamos por Whatsapp – ele eventualmente me convidava para tomar uns cafés para falar sobre o andamento do projeto, mas infelizmente eles nunca chegaram a acontecer.

Ficamos mais de um ano nessa enrolação e somente no final do verão de 2017 que eu fechei negócio com ele. O senhor Hugo se mudou para a Austrália e antes disso fez uma queima geral dos seus bens. Ele me ligou um dia dizendo que ia fazer a mudança e que era eu que tinha que ficar com ela.

Me senti bem lisonjeado de saber que ele pensou em mim como o próximo proprietário dela, e como já era CLT nessa época, não deixei a oportunidade escapar! Fui até a casa dele para conhecer a vizinha D. Claudia e dar uma última olhada na moto antes de comprar (tinha passado mais de um ano desde que a vi pela última vez, não sabia o que ele poderia ter feito).

Ele não fez nada na moto em um ano, só tirou a pinça de freio dianteira. Fomos até a casa da D. Claudia e ela me passou confiança para comprar a moto e transferir do nome dela quando estivesse pronta. Eu finalmente iria comprar a Agrale!!

Preparei um caminhão para buscar a moto e no mesmo dia fui até a unidade São Bento do DETRAN para levantar as informações sobre ela. Para quem não sabe, os veículos com placa amarela não aparecem no sistema de cadastro das demais unidades – eles ficam armazenados no arquivo da unidade São Bento, no centro de SP. E aqui vão mais protestos/avisos: você SEMPRE é capaz de resolver tudo sozinho no DETRAN. Infelizmente o nosso sistema burocrático incentiva a presença de “despachantes” que nada mais são do que vermes criados por esse mesmo sistema para se alimentar da falta de informação da população. Quando precisar resolver algo no DETRAN, entre no site e busque se informar sobre os processos. Se não achar o que precisa, ligue na central de atendimento – nos últimos anos o serviço deles melhorou bastante – eles certamente vão conseguir te orientar.

Juntando as informações do DETRAN com os números de fabricação do chassis consegui reconstruir boa parte da história da minha Agrale que os dois não conseguiram me responder: pelo chassis eu sei que minha moto foi fabricada em Junho de 1987. Segundo os registros do DETRAN a D. Claudia tirou a moto da concessionária em Novembro de 1987 e licenciou pela última vez em 1998. Desde então ela tinha ficado parada por 20 anos!

A essa altura já me sentia confortável o suficiente com a história da moto e peguei confiança na D. Claudia de que tão logo a moto estivesse pronta ela me ajudaria a passar os documentos para o meu nome. Foi então que a Agralona finalmente chegou na minha garagem, exatamente desse jeito:

As fotos não retratam exatamente o estado de conservação da moto. Por um lado, uma simples lavagem externa já deixaria ela com um aspecto bem mais agradável, mas por outro, as vedações internas, o tanque, mangueiras e pneus estavam em estado deplorável.

Agradeço a quem chegou até aqui na história da minha carcamaninha. O primeiro texto ficou longo, mas a ideia é justamente contar o passo a passo desse processo todo.

No próximo post vou detalhar a compra das ferramentas e o processo de restauração até o momento. Basicamente, dividi a restauração da moto em quatro partes:

1. Elétrica (chicote, iluminação, ignição – CDI, bobina, magneto – partida, etc);

2. Parte do meio para a frente (conjunto dianteiro – suspensão, garfo, freio dianteiro, aro e pneu – conjunto do guidon, conjunto da carenagem dianteira, radiador e tanque);

3. Parte do meio para trás (reservatórios, corrente, coroa e pinhão, amortecedor, conjunto das carenagens traseiras, aro e pneu); e por último…

4. Motor e periféricos (bloco, cabeçote, bomba de óleo, bomba de água, carburador etc).

Se alguém tiver alguma dúvida ou curiosidade pode usar o espaço dos comentários que vou ter o prazer de tentar responder. Valeu, galera!

Por Mário Colonna, Project Cars #484

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