Alfa Romeo 155 V6 Ti: a história (e o belo ronco) do campeão do DTM de 1993

Dalmo Hernandes 14 julho, 2017 0
Alfa Romeo 155 V6 Ti: a história (e o belo ronco) do campeão do DTM de 1993

Ao pesquisar fotos e vídeos para fazer mais este post da série “Lendas do DTM”, cheguei a uma conclusão em poucos segundos: este é meu bólido favorito do antigo Campeonato Alemão de Carros de Turismo. O fato de ele ser um italiano invadindo o território germânico é quase um bônus – seu visual, o ronco do seu motor e seu histórico de vitórias são o que torna, na opinião deste que vos escreve, tão sensacional.

Antes de continuar e desenvolver melhor o assunto, fiquem com uma demonstração audiovisual do que acabo de dizer. Espero de verdade que você tenha boas caixas de som ou um par de fones de ouvido, porque o negócio é bruto.

Foi até difícil escolher o melhor vídeo. O ronco tem o timbre muito parecido com o de um V12 de competição, especialmente porque estamos falando de quase 12.000 rpm no limite.

O Alfa Romeo 155 já nasceu tendo que provar que era bom. Seu antecessor foi o Alfa 75, lançado em 1985 e vendido até 1991. O 75 foi o último Alfa Romeo desenvolvido pela fabricante antes de sua aquisição pela Fiat, e o último com tração traseira. Ou seja, era o último Alfa Romeo “puro”.

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E era um baita carro, especialmente na versão Turbo Evoluzione

O estilo do Alfa Romeo 155 era claramente uma evolução do 75, mas sua concepção mecânica era radicalmente diferente. Feito sobre a plataforma Tipo Três da Fiat, que era compartilhada com o Fiat Tempra e o Lancia Dedra, o Alfa 155 tinha motor dianteiro transversal e tração dianteira em suas primeiras versões. Não era exatamente o que os fãs esperavam da Alfa, por mais bonito que o carro fosse.

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Você provavelmente sabe que a versão vendida no Brasil era movida por um motor de dois litros com cabeçote de 16 válvulas, comando duplo e duas velas por cilindro – o famoso Twin Spark, com 150 cv nas versões Elegant e Super. Na Europa, havia ainda motores quatro-cilindros 1.6, 1.7 e 1.8, além de um 2.0 turbo, todos da mesma família; e um V6 de 2,5 litros e 166 cv derivado do 3.0 encontrado no Alfa Romeo 164.

O carro que competiu no Deutsche Tourenwagen Meisterschaft, claro, utilizava um motor V6 – até mesmo o deslocamento estava dentro das regras estabelecidas no início da década de 1990.

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A Alfa Romeo foi uma das companhias atraídas pelas mudanças no regulamento do DTM promovida em 1993, quando a competição começou a utilizar as diretrizes da categoria Supertouring da FIA. Em especial, pela eliminação da cláusula que exigia que se fabricasse uma série especial de homologação para que o carro de corrida pudesse competir. Era exatamente o que os italianos precisavam para transformar o 155 em um bólido matador.

A responsabilidade pelo desenvolvimento do carro ficou com a Alfa Corse, equipe de fábrica da Alfa Romeo. Os caras modificaram tudo o que podia ser modificado, de modo que tudo o que há por baixo da bela carroceria, nos dá uma visão bem diferente da que estamos acostumados a ver no Alfa 155 de produção.

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Mecanicamente, o carro aproveitava a base do V6 de rua e o sistema de tração integral do Alfa Romeo 155 Q4, que por sua vez tinha raízes no sistema do Lancia Delta HF Integrale, dotado de um diferencial central eletrônico que variava a distribuição do torque entre os eixos, sendo que a divisão padrão era de 50:50. O câmbio era manual de seis marchas no início da temporada, mas depois foi substituído por uma caixa sequencial bem parecida com a dos carros de Fórmula 1. Os para-lamas da carroceria de plástico reforçado com fibra de carbono eram bem mais largos para acomodar os avantajados pneus slick, que calçavam rodas OZ de 18 polegadas.

Aproveite para dar uma olhada no sistema de suspensão com amortecedores inboard, como nos monopostos

O motor em si também era algo aterrador. Embora seu bloco fosse o mesmo do V6 dos carros de produção, todo o resto era exclusivo do carro (como o sistema de injeção direta de combustível com corpos de borboleta individuais, cabeçotes com maior fluxo, bielas e pistões reforçados). O resultado era um motor de pelo menos 500 cv, e capaz de girar a até 11.800 rpm.

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Também merecem menção as saídas de escape viradas para cima, das quais já tratamos neste post. Nem todos os carros tinham, mas havia um motivo para que alguns tivessem: o V6 era barulhento demais, ultrapassando o limite de 98 decibéis exigido pela FIA para os carros de Supertouring. Virar o sistema de escape para cima evitava que as ondas sonoras refletissem no asfalto e se amplificassem, ajudando o carro a não passar do nível máximo de ruído. Além disso, tais saídas de escape sopravam ar quente para cima, fazendo com que o ar frio sobre a região fosse empurrado para baixo e, consequentemente, ajudasse a bela asa traseira de fibra de carbono na tarefa de gerar downforce.

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Ou seja: se o Alfa Romeo 155 da DTM fazia curvas como se estivesse sobre trilhos (desculpem o clichê, mas não dá para evitá-lo depois de ver os vídeos do carro), até mesmo o sistema de escape tinha certa participação nisto. No entanto, a suspensão também era muito bem acertada, com braços triangulares sobrepostos nos quatro cantos e amortecedores com regulagem eletrônica ativa – eles ajustavam automaticamente sua rigidez de acordo com as condições de pilotagem e levavam em consideração até mesmo a variação de peso do carro à medida que o tanque esvaziava.

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Por todas estas características, podemos dizer que o Alfa 155 era um dos carros mais avançados no grid, que também era dividido com BMW M3, Mercedes 190E Cosworth e Opel Calibra, entre outros.

E ele se saiu muito bem, obrigado, logo em sua temporada de estreia. Com os pilotos italianos Nicola Larini e Alessandro Nanini, o Alfa Romeo 155 V6 Ti venceu nada menos que 14 etapas da temporada de 1993 do DTM, em circuitos como Nürburgring Nordschleife, Hockenheim e Nuremberg, no meio de uma manada de alemães. Italianos atrevidos, aqueles.

Como se não fosse suficiente, outros campeonatos europeus aderiram ao regulamento Supertouring da FIA, na Itália, na Espanha e no Reino Unido. O Alfa Romeo 155 V6 Ti conquistou todos eles entre 1992 e 1994, e continuou competitivo até 1997, quando foi aposentado pelo Alfa Romeo 156. A verdade, porém, é que ele não precisava ter vencido tanto assim para ser um dos carros mais fantásticos que competiram no DTM. E o meu favorito deles.

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O Alfa Romeo V6 Ti em 1997, com pintura da Martini Racing, já na era do ITC