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Antarctic Snow Cruiser: o gigante vermelho que desapareceu duas vezes

A Antárdida um dos lugares mais remotos e, sem dúvida, fascinantes do globo terrestre: o continente gelado, onde fica o Pólo Sul geográfico. Quase não há vegetação, a temperatura durante o verão não passa dos 15°C, e a população varia entre 1.000 e 5.000 habitantes – o número varia de acordo com a rotatividade das bases de pesquisa permantentes espalhadas por sua área, que operam com menos pessoas quando é inverno. Um ambiente belíssimo, porém hostil, onde a influência humana é mantida ao mínimo possível.

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A Antarctica também é o lar permanente de um dos veículos mais curiosos que a humanidade já produziu: o Antarctic Snow Cruiser, um gigante de quatro rodas que serviu como módulo de exploração e moradia para um conjunto de pesquisadores na década de 1930, mas fracassou em sua missão, foi abandonado e desapareceu. Duas vezes. É possível que ele esteja por lá até hoje, em algum lugar, como um monumento perdidos à ambição do homem de conhecer todas as partes do mundo.

O Antarctic Snow Cruiser foi um projeto do governo norte-americano junto ao antigo Instituto Armour de Tecnologia, atualmente Instituto de Tecnologia de Illinois (IIT), na cidade de Chicago. O diretor de desenvolvimento foi Thomas Poulter, cientista e explorador, nascido em 1897 e morto em 1978, aos 81 anos de idade. O veículo foi financiado e construído pelo Instituto, e cedido a Washington D.C. para criar uma base móvel permanente na Antártida, em uma missão que começou há exatos 80 anos, em novembro de 1939.

Thomas Poulter e sua maquete do Snow Cruiser, 1939

O Snow Cruiser em si parecia um gigantesco caminhão “cara-chata”, com um pouco de imaginação. Como dissemos ali em cima, ele era enorme – tinha 17 metros de comprimento, 6,06 metros de largura e 5 metros de altura, além de 6,09 m de entre-eixos. Construído em monobloco de aço, o Snow Cruiser pesava 34.000 kg em ordem de marcha. Para se ter ideia, cada uma das rodas tinha 1,68 m de diâmetro e pesava 2.700 kg. Os pneus feitos pela Goodyear tinham 3,04 m de diâmetro cada um.

O gigante era movido por dois motores de seis cilindros a diesel da Cummins, cada um com 11 litros de deslocamento e capacidade para entregar 152 cv a 1.800 rpm; mais quatro motores elétricos General Electric de 70 cv conectados diretamente às rodas. Tecnicamente, cada motor a diesel funcionava como gerador para dois motores elétricos – o que, em última instância, fazia do Snow Cruiser um híbrido. Mais do que isto: este tipo de configuração hoje em dia é comum em caminhões gigantes usados por mineradoras.

As quatro rodas esterçavam, e eram ligadas a um sistema de direção hidráulica. A suspensão também era hidráulica, independente nas quatro rodas, e permitia que o veículo levantasse ou se abaixasse em relação ao solo, facilitando o acesso da tripulação e melhorando (em tese) a tração com o veículo em movimento.

O interior do Snow Cruiser era um misto de transporte, laboratório e acomodações para cinco pessoas, com uma cabine de três lugares, quatro camas, uma sala de estar, banheiro e uma cozinha que também era utilizada como sala escura para revelar fotos. E ainda sobrava espaço para alguns tanques de combustível com capacidade para 9.500 litros de diesel, mais um tanque para guardar 3.800 litros de gasolina de avião – esta, para uso de um biplano Beechcraft, com capacidade para cinco pessoas, que era transportado no deque superior. No compartimento traseiro ficavam dois estepes idênticos aos outros pneus.

Independentemente das circunstâncias, apenas o fato de um veículo assim ter sido construído de fato já impressiona. Contudo, uma sucessão de acontecimentos infelizes abreviou o tempo de serviço do Antarctic Snow Cruiser. E, apesar da grande exposição que o veículo teve na mídia da época, hoje em dia poucos conhecem sua história.

A construção começou em agosto de 1939 e, em menos de três meses, o Snow Cruiser estava pronto. Os motores foram ligados pela primeira vez em 24 de outubro de 1939 e, pouco depois, deu início à sua primeira viagem – mais de 1.600 km, por terra, de Chicago a Boston. No meio do caminho, uma quebra na caixa de direção fez com que o veículo se desviasse do caminho e caísse dentro de um rio, onde ficou por três dias antes de ser retirado e consertado. A chegada em Boston aconteceu no início de novembro e, no dia 15, o Snow Cruiser partiu de barco em direção à Baía das Baleias, onde ficava a base de Little America.

A chegada aconteceu no começo de janeiro de 1940, e passou longe de ser tranquila. Para começar, a rampa usada para transferir o veículo do barco para o gelo antártico cedeu. O próprio Thomas Poulter estava no comando do Snow Cruiser, e conseguiu desprendê-lo usando apenas a força do veículo.

Entretanto, minutos depois, ficou claro que ele não iria a lugar algum: os enormes pneus Goodyear, totalmente lisos, simplesmente não tinham tração suficiente para colocar o gigante vermelho em movimento – e acabaram ficando atolados em uma camada de gelo de quase um metro de espessura.

Os dois estepes foram encaixados ao lado das rodas da frente, em uma tentativa de aumentar a tração, mas sem sucesso. Só depois foi que a equipe percebeu que havia um pouco mais de aderência com o Snow Cruiser andando de ré – e foi só assim que ele saiu do lugar, percorrendo 148 km andando para trás.

Poulter retornou para os Estados Unidos no dia 24 de janeiro, enquanto o restante da tripulação seguiu vivendo no Snow Cruiser por alguns meses – que, segundo os próprios homens, foram bem confortáveis. O espaço era amplo, e o sistema de aquecimento que usava os gases do escape para esquentar a cabine era tão bom que eles só precisavam de cobertores finos para dormir.

Porém, depois de realizar alguns testes sísmicos, recolher amostras e estudar a geografia local, a equipe recebeu uma ordem para encerrar o programa e aguardar a missão que os levaria de volta para casa. O Snow Cruiser seria abandonado – sua operação era problemática e, com a Segunda Guerra Mundial acontecendo, o governo americano tinha outras prioridades. Decidiu-se aguardar pelo fim do conflito e, enquanto isto, o veículo ficaria parado onde estava, com os pneus cobertos para evitar ressecamento.

A missão, porém, jamais foi retomada. O Snow Cruiser acabaria sendo encontrado duas vezes nos anos seguintes. A primeira aconteceu no fim de 1946, quando a missão exploratória Operation Highjump encontrou o veículo exatamente como fora deixado pela tripulação seis anos antes. Nada foi feito, porém, simplesmente por não valer o esforço.

Doze anos depois, em 1958, uma nova expedição encontrou o Snow Cruiser, desta vez soterrado pela neve – porém localizável graças a uma enorme vara de bambu que havia sido deixada pelos exploradores de 1946. O veículo foi desenterrado usando uma escavadeira e, quando foi aberto, estava exatamente como a equipe original o havia deixado – incluindo não apenas os equipamentos, mas também objetos pessoais como revistas, roupas, jornais e maços de cigarro. Não demorou para que a missão chegasse à conclusão de que Snow Cruiser só precisava de ar nos pneus e alguns reparos mecânicos para voltar a operar normalmente.

Não se sabe se os Estados Unidos pretendiam levar o Snow Cruiser de volta para a América do Norte – e, de todo modo, eles levaram tempo demais para decidir. Em meados da década de 1960, uma parte da região onde ficava Little America desprendeu-se do continente antártico – o que ocorre com relativa frequência – e partiu boiando em direção ao Oceano Austral.

O Snow Cruiser jamais foi visto novamente, mas há pelo menos duas possibilidades: ou o veículo ainda está à deriva, perdido no meio do oceano; ou o gelo derreteu, e o Snow Cruiser afundou – o que seria ainda mais trágico.

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