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História

As Flechas de Prata da Mercedes-Benz: a conquista da Fórmula 1, uma tragédia em Le Mans e o esportivo mais rápido do mundo

Após o fim da Segunda Guerra Mundial a Alemanha estava arrasada e suas fabricantes de automóveis não estavam muito melhores. A Mercedes sobreviveu graças à fabricação de modelos Dodge remodelados e voltou a desenvolver suas tecnologias naquele que se tornaria o mais tradicional laboratório automotivo: as pistas da nova categoria mundial, a Fórmula 1, criada em 1950.

O retorno da Mercedes foi forçadamente curto, porém intenso, e teve ajuda dos grandes nomes do período pré-guerra e dos maiores talentos do cockpit dos novos tempos. Tudo começou em 1954, quando o antigo chefe da equipe, Alfred Neubauer, juntou-se ao engenheiro Rudolf Uhlenhaut para comandar a nova equipe.

 

W196 Type Monza — o primeiro Silver Arrow dos novos tempos

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O carro desenvolvido para a volta da marca foi o W196, que apesar de usar um oito-em-linha como seus antecessores da década de 1930, trazia tecnologias inéditas nas pistas. Ele usava válvulas desmodrômicas, desenvolvidas a partir da experiência dos engenheiros com os motores DB600 do caça Bf 109 da Messerschmitt durante a guerra, e também era alimentado por um sistema mecânico de injeção direta. A potência, contudo, foi bem reduzida desde os velhos tempos, assim como a cilindrada: o novo motor deslocava “apenas” 2,5 litros para produzir 260 cv.

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O chassi era do tipo spaceframe com estruturas triangulares, para manter o baixo peso, com suspensão de braços triangulares sobrepostos na dianteira e braços oscilantes na traseira e barra de torção em ambos os eixos. Para pilotá-lo, a Mercedes contratou Juan Manuel Fangio, Hans Hermann e Karl Kling.

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O carro estreou no GP da França daquele ano com uma carroceria aerodinâmica de alumínio, que cobria as rodas — algo permitido na Fórmula 1 da época — e foi adotada devido à alta velocidade do circuito Reims-Gueux. Com essa variação, a Mercedes estreou com uma dobradinha de Fangio e Karl Kling, e teve a volta mais rápida de Hans Hermann.

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No antigo traçado de Monza. Note a tomada da admissão no capô, adotada na segunda metade da temporada

O W196 Type Monza também correu no GP da Itália daquele ano, onde recebeu seu nome. Ela também foi adotada no GP da Itália, realizado no antigo (e velocíssimo) traçado de Monza, onde Juan Manuel Fangio conquistou a pole, cravou a volta mais rápida e venceu a corrida. Hans Hermann ficou em quarto com o outro Type Monza e Karl Kling abandonou a prova devido a um acidente com o terceiro carro.

 

W196 “Open Wheel”

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O W196 ainda teve uma versão com rodas expostas, como um bom Fórmula 1. Isso por que a carroceria aerodinâmica do modelo não era adequada para pistas travadas e sinuosas, como a equipe descobriu em Silverstone após o quarto lugar de Fangio.

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A solução foi produzir um modelo sem para-lamas. Ele tinha exatamente as mesmas especificações mecânicas que o modelo aerodinâmico, porém o motor foi retrabalhado para produzir 290 cv a 8.500 rpm.

Essa versão estreou no GP de Nürburgring daquele ano, vencido por Fangio, e foi usado nas demais corridas da temporada, com exceção do GP da Itália. Com este carro, Fangio venceu o GP da Suíça e chegou em terceiro no GP da Espanha. Como ele já havia vencido as duas primeiras corridas da temporada ainda com o Maserati 250F, o argentino conquistou seu segundo título mundial.

Na época ainda não havia o campeonato mundial de construtores, mas as quatro vitórias do W196 nas mãos de Fangio provaram a superioridade da Mercedes na temporada, e certamente renderiam um título à equipe.

O bom desempenho do carro fez com que a equipe o usasse na temporada seguinte de 1955. Nesta temporada, Stirling Moss juntou-se ao trio de pilotos ajudando a Mercedes a dominar a categoria pelo segundo ano consecutivo, vencendo cinco das sete corridas. Quatro delas foram vencidas por Fangio, que sagrou-se tricampeão, e o GP da Inglaterra foi vencido por Stirling Moss, em sua única vitória na temporada.

O futuro parecia brilhante para a Mercedes-Benz nas pistas, se não fosse um enorme acidente de percurso.

 

300 SLR: a versão de endurance do W196

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Em paralelo à Fórmula 1, em 1955 a Mercedes desenvolveu uma versão do W196 para as provas de longa duração. Seu nome era 300SLR, uma referência ao deslocamento do oito-em-linha, que foi ampliado de 2,5 para três litros, elevando a potência para 320 cv. As letras são de Sport Leicht Rennsport — algo como “esportivo leve para corridas” em alemão.

Com o 300SLR Stirling Moss e Denis Jenkinson conseguiram uma vitória inigualável na lendária Mille Miglia, completando a prova em pouco mais de dez horas com uma média de 160 km/h no trajeto de vias públicas italianas. Isso foi possível graças à invenção do papel de navegador, ideia de Jenkinson, que anotou em um papel todos os detalhes do percurso de 1.600 km de estradas para orientar o piloto. O recorde permanece em pé até hoje.

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Além da Mille Miglia, o 300SLR também venceu o RAC Tourist Trophy (na Ilha de Man!) e a Targa Florio, o que bastou para derrubar a Ferrari e conquistar o título do World Sportscar Championship (semelhante ao atual WEC) de 1955.

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Contudo, no dia 11 de junho daquele ano, tudo deu errado para a estrela de três pontas. Ao volante do 300SLR em Le Mans, Pierre Levegh chocou-se contra o Austin-Healey de Lance Macklin, que desviou subitamente do Jaguar de Mike Hawtorn, que freava para entrar nos boxes. Ao bater no Austin, o 300SLR decolou foi lançado em direção ao muro e ao público atrás dele. O carro era feito de uma liga de magnésio altamente inflamável chamada Elektron, que entrou em combustão lançando pedaços do carro em chamas sobre o público.

No acidente morreram 84 espectadores, além do próprio Pierre Levegh. Depois da tragédia de Le Mans, algo felizmente inigualado até hoje, a Mercedes se retirou do automobilismo e só voltaria aos poucos a partir dos anos 1980 em parceria com a Sauber — uma história que já contamos neste post.

 

Um dos primeiros carros de corrida para as ruas

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Caso a Mercedes-Benz não tivesse se retirado do automobilismo no final da temporada de 1955, este seria seu carro em Le Mans: uma versão cupê do 300SLR, que Rudolf Uhlenhaut dirigia no dia-a-dia. O carro atingia 273 km/h na estrada, o que fez dele o carro mais rápido do mundo em sua época.

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Como o 300SLR era derivado do W196, uma forma de imaginar seu potencial atualmente seria construir um SLS AMG com base no W05 de Lewis Hamilton e Nico Rosberg e fazer dele seu veículo de uso diário. Que tal?

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