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As modalidades de corrida mais bizarras do automobilismo, parte 1

Corridas são algo bem direto, não? Seja um piloto, entre em um carro, dê umas voltas para largar bem, ultrapasse os outros caras, não deixe os outros caras te ultrapassarem e você pode até vencer. Ah, e bater o carro também não é uma boa ideia. Eis o básico de uma corrida de automóveis

Mas é claro que existem algumas modalidades (ou categorias) que vão além – afinal, a capacidade de inventar e reinventar é uma das coisas que separam os humanos dos outros animais, assim como nosso gosto por velocidade. E é por isto que, ao longo dos anos, os entusiastas foram criando novas formas de correr de carro. Algumas, bem diferentes do conceito básico de automobilismo que descrevemos no parágrafo anterior. Em algumas, você não precisa ser um piloto. Em outras, você não precisa nem de um carro de corrida. E algumas até dispensam classificações e ultrapassagens, ou exigem que você bata seu carro.

É destas categorias (ou modalidades) bizarras que vamos falar agora!

 

Demolition derby, as corridas de demolição

Da mesma forma que um dos brinquedos mais legais do parque de diversões é o carrinho de bate-bate, há décadas homens crescidos constroem carros de corrida feitos especialmente para bater. É melhor bater nos outros carro de modo a imobilizá-los, e não bater no muro – sendo o primeiro a cruzar a linha de chegada (ou o último a abandonar a prova), você vence. São as corridas de demolição, que têm centenas (ou quem sabe até milhares) de campeonatos espalhados pelo mundo, todos funcionando mais ou menos do mesmo jeito.

Dizem que quem começou tudo isto foi o piloto de stock car Larry Mendelsohn,  que teve a ideia em 1958. De acordo com um artigo escrito publicado em 1996 no New York Times, Mendelsohn percebeu que boa parte do público, senão a maioria, ia até os autódromos para ver os acidentes mais do que a corrida em si. Nascia, então, as corridas de demolição, que em inglês são chamadas de demolition derby.

O maior campeonato da modalidade que existe é o Figure 8 Racing, que surgiu das corridas de demolição originais. Foi de Mendelsohn a ideia de incorporar um X ao traçado, em 1962, misturando uma corrida “de verdade” a uma corrida de demolição. Com vinte ou trinta carros percorrendo um curtíssimo traçado em forma de “8” (coisa de 300 a 350 metros de extensão), era inevitável que eles acabassem chocando-se uns contra os outros. Mas existem outros espalhados pelo mundo, como este na Holanda:

A única maneira de destruir uma perua Volvo da antigas

As provas passaram na televisão americana por mais de 20 anos, entre as décadas de 60 e 80. Mas são populares até hoje. Agora,  existem diversas subcategorias: picapes, bugues, hatchbacks de tração dianteira, e até ônibus — estes, simplesmente porque a chance de bater é maior, e os estragos são ainda mais fáceis de se ver.

 

EXTREME BARBIE JEEP RACING

A formatação do FlatOut faz todos os subtítulos ficarem em caixa alta, mas nesse caso aqui a caixa alta é de verdade. Porque não existe nenhuma frase que mereça caixa alta mais do que EXTREME BARBIE JEEP RACING.

EXTREME BARBIE JEEP RACING, P*RRA!

São caras barbudos que usam jipes de plástico da Barbie para disputar corridas em circuitos de terra, barro e lama usando veículos de plástico que foram feitos para seus filhos pequenos, e não para eles. E nem sempre são Jeeps. Mas é aí que está a graça da coisa toda, caso você não tenha percebido. Os eventos acontecem há pelo menos dez anos, e costumam ser uma atração extra em eventos off road com Jeeps de verdade.

Não há exatamente muitas regras: como os jipes não têm motor (ainda que alguns sejam elétricos, mas não muito potentes), o objetivo é descer uma ladeira de terra e chegar até o final sem cair ou destruir o veículo. É quase impossível, e por isso mesmo é tão divertido de assistir. Deve ser legal de participar, também. Quem encara?

 

24 Hours of Le Mons

Como falar de categorias de corrida bizarras e não citar as 24 Horas de Le Mons, diz aí? O conceito criado em 2006 é bem simples e obviamente inspirado nas 24 Horas de Le Mans mas, em vez de um protótipo de corrida, sua equipe pilota um carro que não pode ter custado mais de US$ 500 para comprar e preparar para a corrida. E há quem faça isto várias vezes por ano. Lemon é o termo que os americanos usam para referir-se àqueles carros que chamamos de “bombas”.

Na pista, vale qualquer coisa: hatchbacks velhos e baratos, sedãs de luxo sucateados, protótipos originais… tudo que possa ser considerado um carro. Há um vencedor “tradicional”, o cara que conseguiu o milagre de ser o que percorreu a maior distância em 24 horas; mas também há vencedores nas mais curiosas classes: o mais feio, o mais improvável, o mais criativo, o primeiro a abandonar a prova. Não há uma volta de classificação: durante 20 minutos, os carros percorrem o circuito sob bandeira amarela, e os que não abrem o bico logo de cara recebem a bandeira verde, quando a corrida começa de verdade. É uma forma de enxugar o grid, pois há quase 150 carros inscritos em algumas corridas.

Há diversas categorias, e o vencedor de cada uma delas ganha US$ 500. O vencedor geral ainda ganha US$ 1.500. O prêmio máximo, porém, é de US$ 501 (não nos pergunte a lógica), e vai para um carro escolhido pelos jurados. Um detalhe: se capotar seu carro, você é desclassificado para o resto da temporada, e só pode voltar a correr no ano seguinte.

 

Jokamiesluokka

Esta palavra esquisita quer dizer “categoria para todos”, ou folk racing em inglês. E é exatamente isto: uma categoria de rali finlandesa que deixa qualquer pessoa se inscrever e sair acelerando. Praticamente qualquer carro é permitido, desde que o motor seja calibrado para render “cerca de 200 cv”. Os circuitos, que lembram estágios de rali ao misturar trechos de asfalto e terra no mesmo traçado, são projetados de forma a limitar a velocidade a cerca de 80 km/h.

A Jokamiesluokka acontece já há algumas décadas e é uma das corridas mais democráticas que existem: você só precisa ter mais de 15 anos e pelo meno 1,50 m de altura. Nem carteira de habilitação é exigência, mas você precisa tirar uma licença especial para participar das competições. Os carros não são muito rápidos e toques são permitidos, mas você não pode bater intencionalmente. Se o fizer, corre o risco de perder para sempre sua licença.

O detalhe mais curioso é que ao fim de cada corrida, todos os carros são automaticamente colocados à venda. E todos os presentes – incluindo os espectadores – podem comprá-los, se quiserem, por um valor fixo que costuma ser de € 1.000. Quem se recusar a vender o carro perde a licença.

 

Pig n’ Ford Racing

Na Feira do Condado de Tillamook, Oregon, que acontece desde 1891, é realizada desde 1925 a corrida “Pig n’ Ford”. Funciona mais ou menos assim: cinco exemplares depenados Ford Modelo T se alinham na pista de hipismo do condado. Então, cada um dos pilotos deve pegar um leitão vivo e, carregando-o nos braços, dar a partida no motor usando a manivela, dar uma volta no circuito e desligar o carro. Depois, pegar outro porco, ligar o carro, dar outra volta. O primeiro a repetir o processo três vezes é o vencedor.

Se você tiver 40 minutos para assitir a uma corrida inteira, aí está

Conta a história que, em 1924, dois fazendeiros de Tillamook pegaram seus Ford T para correr atrás de um porco fugitivo. Eles acabaram se divertindo tando com a perseguição que decidiram transformar aquilo em uma corrida. A brincadeira começou a ser levada a sério, e alguns dos carros que participam da competição são heranças de família, passados de geração em geração.

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