Auto Union Type C: 16 cilindros, 530 cv e 340 km/h… em 1936!

Leonardo Contesini 24 junho, 2014 221
Auto Union Type C: 16 cilindros, 530 cv e 340 km/h… em 1936!

Nas últimas duas semanas a Audi conquistou nada menos do que os dois primeiros lugares nas 24 Horas de Le Mans e o primeiro lugar nas 24 Horas de Nürburgring, Em Mans, os três Audi R18 e-tron classificaram-se somente na terceira fila, e tiveram uma série de problemas ao longo da prova, mas depois de 24 horas dois deles conseguiram chegar ao topo do pódio, reafirmando o domínio da marca no automobilismo mundial nos últimos 15 anos. Mas como você sabe, essa história não começou em 1999, quando a Porsche abandonou Le Mans deixando o caminho livre para a marca das quatro argolas.

Na verdade essa história começa muito antes, mais exatamente na década de 1930 e também com uma pequena ajuda da Porsche. Ou melhor, de Ferdinand Porsche.

No começo da década de 1930, o cenário mundial não era dos melhores, apesar dos tempos de paz. A Crise de 1929 colocou o planeta em uma depressão econômica e, mesmo sendo um engenheiro reconhecido chamado Ferdinand Porsche, as ofertas de trabalho eram escassas. Sem oportunidades, Porsche decidiu unir-se a dois amigos chamados Adolf Rosenberger e Karl Rabe para fundar a Hochleistungs Motor GmbH (Companhia de Motores de Alta Eficiência) e, juntos, começaram a desenvolver um motor de corrida por conta própria, para tentar vendê-lo a quem quisesse ou pudesse comprar.

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Ao fazer isso, Porsche tornou-se o homem certo na hora certa. As fábricas alemãs Audi, DKW, Horch e Wanderer uniram-se sob o nome Auto Union para encarar a crise mundial. Nessa mesma época, o recém-indicado chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, ofereceu 500 mil Reichmarks à Mercedes-Benz para o desenvolvimento de um carro de corrida. Os Grandes Prêmios estavam em alta, e vencer corridas era uma forma de demonstrar a superioridade tecnológica de um país. Os alemães perceberam que teriam mais chances com duas fabricantes no páreo, e por isso o orçamento acabou dividido entre Auto Union e Mercedes-Benz — 250 mil Reichmarks para cada.

Porsche ainda era ligado à Wanderer e por isso acabou envolvido no projeto do novo carro de corrida da Auto Union. Com menos dinheiro do que o ideal para o desenvolvimento do carro nos padrões mais altos da época  — motor dianteiro com tração traseira —, Porsche e sua equipe projetaram um carro pequeno, baixo e com motor central-traseiro, pois dessa forma não seria preciso usar um cardã, nem um túnel de transmissão.

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O motor era nada menos um V16 de seis litros com 32 válvulas e ângulo de 45 graus entre as bancadas de cilindros. Como muitos motores de corrida na época, ele era sobrealimentado por um compressor roots, e produzia 527 cv. Com 40% do peso na dianteira e 60% na traseira, o carro tendia ao sobre-esterço e em uma época em que o diferencial de deslizamento limitado não havia sido inventado, o carro destracionava facilmente acima de 240 km/h.

A suspensão usava um sistema de eixo dividido com barra de torção, que dava conta do recado na dianteira. Na traseira o carro tinha braços arrastados com semi-eixos oscilantes e feixe de molas transversal. Para cobrir tudo isso havia uma carroceria de alumínio desenvolvida no Instituto Alemão de Aerodinâmica para proporcionar arrefecimento eficiente e efeito aerodinâmico.

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O resultado? Um monoposto de 733 kg capaz de chegar a 340 km/h. Sim: trezentos e quarenta quilômetros por hora em 1936.

Bernd Rosemeyer at the Grand Prix in Donington, 1937

Mas um carro excelente não é nada sem um grande piloto, diria Sebastian Vettel para Mark Webber décadas mais tarde. Então a Auto Union escalou alguns dos maiores nomes da época para domar o Auto Union Type C: Hans Stuck, Achille Varzi, Ernst von Delius e o lendário Bernd Rosemeyer.

Mit Audi Tradition Geschichte neu erleben

Foi Rosemeyer quem aprimorou o chassi e transformou estes carros em campeões, faturando seis vitórias em doze corridas na temporada de 1936. As vitórias levaram a Auto Union a conquistar o campeonato de marcas, e Rosemeyer conseguiu o título de Campeão Europeu. Nos dois anos seguintes ele venceu outras oito corridas e só perdeu para a Mercedes em 1938, quando as duas fabricantes empataram em número de vitórias, mas a Mercedes tinha mais voltas na liderança com seu novíssimo W125 (sobre o qual falaremos em um próximo post) e com esse critério de desempate, faturou o título.

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O Auto Union Type C representou uma inovação na engenharia automotiva de sua época, algo que se repetiria em 2006 com o lançamento do R10 TDI, e em 2012 com o R18 e-tron. Foi ele quem definiu os padrões dos carros de corridas modernos, com motor central-traseiro e piloto à frente do carro, colaborando para que os carros ficassem mais leves e mais rápidos — que é o que realmente importa no automobilismo.

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[ Fotos: Paulo Keller/Flickr (P&B), Kevin Stec (carro número 5 em Mônaco), Mattbee/Flickr (painel) ]