A beleza bruta da usinagem de metais – e seus diferentes processos

Leonardo Contesini 9 outubro, 2017 0
A beleza bruta da usinagem de metais – e seus diferentes processos

Já notou que todo futuro distópico e feio é repleto de máquinas? Pode observar: “Blade Runner”, “O Vingador do Futuro”, “Brazil” e “Metropolis” são filmes com enredos diferentes e de épocas diferentes, mas em comum todos têm um panorama feio e obscuro, onde as máquinas predominam sobre os homens — e muitas vezes mecanizam a humanidade.

Trata-se de um recurso de semiótica. Pense nas características das máquinas: elas são impessoais, racionais, invariáveis, frias e rígidas. Máquinas são feias e sujas. Sua função é substituir o trabalho manual, o calor humano e a busca pela perfeição que é o trabalho artesanal. Uma máquina banaliza a produção, cria produtos impessoais. E é por isso que o predomínio das máquinas e a mecanização do homem simboliza a decadência da humanidade. Imagine se no lugar de árvores tivéssemos máquinas que capturam gás carbônio para produzir glicose e oxigênio? Se em vez de pintores e escritores tivéssemos máquinas que pintassem quadros e escrevessem histórias com base em fórmulas matemáticas.

Isso tudo, claro, naquele contexto do futuro que deu errado. Porque na realidade que deu certo (embora muitas vezes pareça o contrário), as máquinas são ferramentas que ajudam o homem a chegar mais perto da perfeição. Você não consegue riscar um círculo perfeito, mas um compasso feioso te ajuda a desenhar uma bela argola. Da mesma forma, uma calçada plana exige uma régua de nível, que te ajudará a fazer uma bela calçada.

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É aí que mora a beleza das máquinas: na perfeição de seu resultado. Uma calçada não é bonita. A gente fala “que beleza de calçada” porque ela é simétrica, plana, alinhada e, por isso, funcional. Sua beleza está na sua função prática. É como o SR-71 Blackbird. Ele parece um platelminto nojento ou algum bicho monstruoso das profundezas do oceano. Sua pintura é manchada e sua fuselagem tem vãos tão largos que o combustível vaza por eles. Mas ele chega a Mach 3.2, o que equivale a quase 4.000 km/h. E é esse aspecto de seres repugnantes que o permite atingir essa velocidade (junto de seus motores, claro). Também é por isso que sua fuselagem é vazada: a velocidades supersônicas o atrito com o ar aquece tanto a superfície que ela dilata e os vazamento se fecham. Perfeito, não? Esta funcionalidade é sua beleza.

É exatamente por isso que é possível encontrar a beleza nas fresadeiras e tornos — máquinas indispensáveis para a criação das máquinas mais belas do planeta: os carros, motos e aviões. Se você duvida que elas podem ser belas, dê uma boa olhada nesse vídeo, que mostra processos de usinagem em câmera lenta em uma estação CNC:

Não parece um daqueles “satisfying videos” que viralizam na internet? Essa sensação agradável que temos ao ver os objetos ganhando forma ao longo do processo e resultando em uma peça perfeita, simétrica e prática é justamente resultado da beleza funcional do maquinário.

Agora… não somos um site de filosofia, então vamos deixar esses conceitos aristotélicos de estética de lado para concentrarmos no que interessa: vamos falar brevemente sobre cada processo de usinagem visto no vídeo e suas aplicações relacionadas ao universo automotivo.

O vídeo exibe majoritariamente três processos de usinagem diferentes: o torneamento, a fresagem  e o escareamento. O torneamento é uma usinagem na qual o objeto é girado em torno do eixo da máquina ao mesmo tempo em que uma ferramenta de corte retira material periférico para definir a forma e as dimensões desejadas para a peça. Esse tipo de processo é usado para retificar discos de freio, volantes inerciais e superfícies de rodas, além de fabricar cardãs e semi-árvores, por exemplo.

O torneamento mais conhecido é a “diamantação” das rodas. Diferentemente do que se imagina, o nome popular do processo não se deve ao abrilhantamento da superfície, e sim ao metal duro usado na ponta da ferramenta de corte, também conhecido como “vídia”. Por conter uma grande quantidade de carbono, ele foi chamado inicialmente de wie diamant, que é o termo em alemão para “como diamante”. Wie diamant virou wiedia e em português acabou se tornando vídia.

Depois temos a fresagem, que é um processo que retira o excesso de material da superfície de uma peça para dar a forma e o acabamento desejado. É por esse processo que são fabricadas, por exemplo, engrenagens, mesas de motos e bikes, faces das rodas de liga leve forjadas, suportes de acessórios, flanges para coletores, pedais de bicicletas e motos e praticamente qualquer peça feita a partir de um bloco sólido de material.

O corte automatizado como você vê neste vídeo é feito por um processo chamado CNC, sigla para “comando numérico computadorizado”. Você insere a programação do projeto na máquina e, com base em cálculos de posição em eixos (X, Y e Z), ela realiza os cortes com precisão.

As rodas forjadas, por exemplo, têm seus aros moldados por impacto (forja), e a face usinada por fresagem a partir de um bloco sólido de metal forjado.

Por último, temos a perfuração e o escareamento. A perfuração é o tipo mais básico de usinagem e consiste apenas em produzir um furo para parafusos ou encaixe na peça. É o que você faz com uma furadeira em uma chapa de metal, por exemplo. Já o escareamento é a abertura de fendas e ranhuras (como na imagem de abertura), e alargamento de furos, como o assentamento para cabeças de parafusos.