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Car Culture

Belly Tank Lakesters: os hot rods nascidos no ar para quebrar recordes na terra — e no sal

Há alguns meses postamos um especial de duas partes sobre os recordes quebrados nas planícies de sal de Bonneville (confira aqui a parte 1 e a parte 2), começando pelos primeiros recordes na década de 1910, passando pelos carros ultra-aerodinâmicos com motores de avião pelos hot rods e finalmente terminando nos carros a jato.

Contudo, um breve “capítulo” desta história é especialmente interessante por sua criatividade: os belly tank lakesters — carros feitos com tanques de combustível de aviões e um formato que mirava na funcionalidade, mas acabava dando a eles um visual para lá de interessante, a ponto de torná-los clássicos apreciados por um nicho muito dedicado dos fãs de hot rods.

Como já dissemos aqui, o fim da Segunda Guerra Mundial ocasionou o retorno de muitos veteranos para os EUA — e uma parcela considerável eles era fã de hot rods. Alguns deles começaram a frequentar as planícies de sal — ao mesmo tempo em que os moonshiners, os contrabandistas de bebidas dos EUA, também iam para lá com seus hot rods. Isto foi mudando o foco das disputas de recordes — em vez de carros caros e gigantescos com motores de avião, os modelos do dia-a-dia modificados para ficarem mais leves e rápidos apareciam com mais frequência.

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Isto abriu caminho para os experimentalismos — e os maiores representantes vieram justamente das guerras. Mais especificamente, dos aviões de guerra.

O primeiro homem a ter a ideia de transformar o tanque de combustível de um avião em um carro se chamava Bill Burke, e ele era dono de uma oficina de hot rods no sul da Califórnia. Sua inspiração eram os carros dos primeiros recordistas — John Cobb, Sir Malcom Campbell e Capitão George Eyston. Contudo, eles eram europeus abastados que tinham orçamentos grandes o bastante para atravessar o Atlântico só para correr em um deserto de sal com carros caríssimos feitos especialmente para acelerar em linha reta.

Bill Burke não dispunha dos mesmos recursos (depois da Guerra, quase ninguém tinha, na verdade), então precisava se virar com o que tinha. E o que ele tinha eram 35 dólares para comprar o tanque externo de um caça P-51 Mustang, em 1946.

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Os tanques externos — também chamados de tanques subalares por ficarem debaixo das asas dos aviões, ou em inglês de drop tanks por seu formato de gota impressionaram Bill Burk com seu formato aerodinâmico e imediatamente ele pensou que dariam ótimos carros para quebrar recordes com sua aerodinâmica neutra. Logo tratou de pegar uma fita métrica para descobrir se um diferencial traseiro Ford e um motor V8 flathead caberiam dentro da carcaça de algum jeito e… descobriu que eles caberiam!

O motor escolhido foi um V8 Mercury com diâmetro dos cilindros ampliado e deslocamento de 272 pol³ (4,4 litros), que foi montado na dianteira, enquanto os outros componentes mecânicos — direção, suspensão e sistemas elétricos — vinham dos Ford Modelo A e Modelo T.

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lakester feito por Burke em 1946 tinha o motor na dianteira, mas esta não se mostrou a melhor solução — o cockpit recuado demais aumentava o fluxo de ar que era jogado sobre o piloto, o que não ajudava muito quando se tentava manter um carro em linha reta a quase 260 km/h em um deserto de sal. Sendo assim, Burke procurou um tanque maior — e encontrou uma pela usada em um caça Lockheed P-38. Com quase um metro de diâmetro em seu ponto mais largo, o tanque do P-38 permitiu a instalação da mecânica em posição central traseira, melhorando não apenas a posição de pilotagem mas também a distribuição de peso — e criando a fórmula que seria seguida a partir dali por todos que se aventurassem a construir um lakester.

Sendo assim, foi esta a fórmula usada por Alex Xydias, que construiu o lakester mais famoso de todos: o So-Cal Belly Tank.

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Com a ajuda de Bill Burke, o dono da So-Cal Speed Shop — oficina que existe até hoje, diga-se — Alex Xydias e uma equipe de mais três mecânicos começaram, em 1948, a dar forma ao So-Cal Belly Tank. A base também era o tanque de um Lockheed P-38, dividido em três compartimentos distintos, separados por paredes de metal: o tanque de combustível, o cockpit e o “cofre do motor”. Este era um V8 Ford fabricado em 1939, com deslocamento de 2,5 litros e equipado com cabeçotes e coletor de admissão Edelbrock, além de dois carburadores Stromberg 81. A suspensão era rígida, apenas com um pequeno feixe de molas na dianteira, enquanto as rodas eram de 16 polegadas na dianteira e 18 polegadas na traseira.

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Não se sabe a potência exata deste carro — o que se sabe é que ele foi capaz de, em 1948, chegar aos 209,4 km/h. Três anos depois, o mesmo carro chegou aos 233 km/h com o primeiro motor. No mesmo dia em que teve esta marca registrada, recebeu um novo motor — um V8 Mercury de 4,2 litros que o levou aos 291 km/h — recorde absoluto em sua categoria e sancionado pela organização responsável pelos recordes em Boneville, a South California Timing Association.

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Os anos que se seguiram viram uma rápida popularização dos belly tank lakesters, mas não demorou muito para que os construtores de hot rods se voltassem aos tradicionais roadsters e cupês — além de os recordes de Bonneville começarem a receber carros ultra-aerodinâmicos novamente, desta vez com motores a jato, a partir de meados da década de 1950. Por outro lado, o culto aos lakesters jamais desapareceu por completo. Em 1952, por exemplo, um hot rodder chamado Tom Beatty até escreveu um artigo ensinando a construir um:

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Até hoje existe uma comunidade dedicada a construir lakesters — como o Crow Lakester Custom Roadster 1917 que, apesar do nome, é bem mais novo e usa um motor quatro-cilindros turbo de 1,8 litro, com a carroceria feita com o tanque externo de um Lockheed Super Constellation, avião de passageiros produzido entre 1951 e 1958. Ele foi leiloado em 2012 pela Barret-Jackson e foi arrematado por respeitáveis US$ 187 mil (cerca de R$ 460 mil em conversão direta).

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Outro lakester moderno emblemático é o GM Ecotec Lakester, cujas formas homenageiam as do So-Cal Belly Tank de Alex Xydias (embora ele usasse mecânica Ford…). Contudo, em vez do tanque externo de um avião aposentado, a carroceria (ou seria fuselagem?) foi feita especificamente para o Ecotec Lakester usando fibra de carbono. O motor é um Ecotec de dois litros que, com compressor mecânico, é capaz de atingir os 316 cv a 7.600 rpm.

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A ideia do Ecotec Lakester, feito em 2005, era mostrar aos americanos — acostumados com motores grandes de seis e oito cilindros — que o Ecotec de quatro cilindros tinha potencial, e este foi demonstrado quando o carro atingiu os 325 km/h no Bonneville Speed Week naquele ano.

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