Bianco S: o esportivo com mecânica Volkswagen e cara de protótipo de corrida que brigou com o Puma

Dalmo Hernandes 19 março, 2017 0
Bianco S: o esportivo com mecânica Volkswagen e cara de protótipo de corrida que brigou com o Puma

A maioria dos entusiastas já o é desde pequeno. Eu mesmo gosto de carros desde que me lembro – desde quando não fazia ideia de como eles funcionavam, ou de quem os fabricava. Já prestava atenção nos detalhes, nas formas da carroceria e no ronco do motor. Sendo assim, lembro exatamente do momento em que vi, pela primeira vez, um Bianco S. Mesmo sem saber que o que era.

O carro estava abastecendo, em um posto sem bandeira. Era vermelho. “Olha, uma Ferrari”, eu exclamei para meu irmão. Criança não pode ver carro esportivo vermelho e já acha que é Ferrari. Claro, não demorou muito mais tempo para que, em uma revista que provavelmente já foi para o lixo, vi a foto de um Bianco (desta vez, verde) e reconheci imediatamente.

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De fato, as formas do Bianco são marcantes: dianteira curta, traseira longa, curvas sinuosas, rodas bem nas extremidades e silhueta baixa, como um carro de corrida. Até porque a carroceria era inspirada em um carro de corrida…

Você já deve tê-lo visto aqui no FlatOut, inclusive: trata-se do Fúria Alfa Romeo, que esteve na edição de 2016 do Clássicos Brasil, em São Paulo. O protótipo foi projetado por Toni Bianco para a Divisão 4 do automobilismo brasileiro, com inspiração nos bólidos que disputavam o World Sportscar Championship na Europa. A Fúria Auto Esporte Ltda. foi fundada por Bianco em 1970 em sociedade com a Camioauto, revenda FNM da capital paulista, e por isso o primeiro Fúria tinha o mesmo motor do FNM 2150, um quatro-cilindros de 2,1 litros (2.132 cm³) capaz de entregar 138 cv.

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As portas eram asa-de-gaivota, e as carenagens dianteira e traseira se abriam por completo

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O interior típico de carro de corrida, feito com o único intuito de acelerar. Mas diz aí: não é bonito?

A estrutura era tubular, e a suspensão projetada por Bianco tinha braços triangulares sobrepostos e amortecedores ajustáveis nos dois eixos. No total, seis exemplares do Fúria foram feitos em 1970 e 1971, cada um com um motor diferente: além do motor FNM, um usava o quatro-cilindros de Opala, com 2,5 litros e prepração para render 170 cv; outro usava o V8 Dodge 351; outro um motor BMW; e os dois outros motores V12, um Lamborghini e outro Ferrari. Tanta variedade era possível porque a estrutura do cofre era modular, e podia ser reposicionada para se adequar a cada um dos motores.

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Como dissemos na cobertura do Clássicos Brasil 2016, este Fúria originalmente tinha o motor V8 Dodge, mas recebeu um quatro-cilindros Alfa Romeo depois de restaurado, tornando-se um tributo ao primeiro Fúria

O carro competiu nos 1.000 Km de Brasilia em 1970, chegando em quinto lugar, e também nas Mil Milhas de Interlagos no ano seguinte, também chegando em quinto.

Com a boa experiência, Bianco decidiu fazer um Fúria de rua. A princípio, seria o Fúria GT, cupê 2+2 inspirado no Lamborghini Jarama e feito com muito capricho: a plataforma era a mesma do sedã 2150, porém encurtada. O interior tinha acabamento caprichado, bancos concha reguláveis e espaço mais do que razoável para quatro ocupantes. O motor quatro-cilindros tinha quatro carburadores, comando duplo no cabeçote e 130 cv. Mas, infelizmente, o Fúria GT não chegou a ser produzido em série.

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Um protótipo com carroceria de metal foi feito, e sua apresentação no Salão do Automóvel de 1972 foi um sucesso. Mas não passou disso: os modelos de produção, que teriam carroceria de fibra de vidro, jamais viram a luz do dia, e a Fúria Auto Esporte encerrou suas atividades em 1974.

Toni Bianco, porém, não desistiu de criar um esportivo de rua. E conseguiu.

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Para isto, o projetista seguiu uma receita mais acessível. Assim como o bem sucedido Puma, seu carro usaria o chassi do Fusca, barato, fácil de encontrar e bastante receptivo a outras carrocerias. A inspiração para o desenho do novo carro foi justamente o Fúria de corrida. Mas na verdade a gente nem precisava dizer:

O chamado Bianco S parecia um Fúria modificado para andar nas ruas, com alguns detalhes mais conservadores, como as portas que abriam para a frente (e não para cimabian como no protótipo), detalhes cromados e lanternas traseiras circulares vindas do Chevrolet Opala. O capô dianteiro e a tampa do motor também eram  O entre-eixos tinha os mesmos 2.400 mm de entre-eixos, que eram aproveitados por apenas duas pessoas em bancos individuais, com um razoável espaço para bagagem atrás deles; mas o comprimento era menor – 3,8 m, mais de 20 cm a menos que os 4,05 do Besouro.

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O motor, claro, ficava na traseira – um boxer 1600 com dupla carburação, 65 cv a 4.600 rpm e 11,7 mkgf de torque 3.200 rpm, moderados pelo câmbio de quatro marchas do Fusca. Era pouco para o estilo arrojado do carro, que era comparado a Ferrari, Lamborghini e “Di Tomazo” no material publicitário da época: o 0 a 100 km/h era cumprido em 15 segundos, enquanto a velocidade máxima era de cerca de 150 km/h.

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OK, o carro não corria muito. Na verdade, não corria nada. Mas era bom de curva, pelo que diziam testes da época. Além disso, o acabamento do interior era muito bom, assim como a visibilidade, graças à enorme área envidraçada. A ergonomia era típica dos fora-de-série esportivos da época: você ia sentado praticamente no chão, com as pernas esticadas – e, no caso do Bianco S, empunhando o belo volante de madeira.

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O Bianco foi apresentado no Salão de São Paulo de 1976, e também fez muito sucesso: nada menos que 180 exemplares foram vendidos ali mesmo, no estande. Para atender à demanda inicial, a produção teve início logo depois, com cerca de 20 unidades deixando a fábrica da Bianco em Diadema, São Paulo, todos os meses.

O sucesso garantiu uma reestilização leve em 1978, a chamada Série II: como conta o Best Cars, o capô perdeu as entradas de ar no capô, os para-lamas traseiros tinham entradas de ar para o motor e os bancos eram novos, com revestimento em couro. Além disso, um cuidado maior foi tomado na vedação do interior, reduzindo a chance de infiltração. O painel de instrumentos recebeu novo desenho, e agora vinham cintos de três pontos para os ocupantes.

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No mais, o carro não mudou muito, e conseguiu emplacar mais algumas dezenas de unidades no fim da década de 1970. Embora não tenha chegado a repetir o sucesso do Puma, o Bianco conseguiu conquistar alguns admiradores – incluindo, talvez, o dono do Bianco S vermelho que morava na minha cidade.

Por onde será que anda aquele carro?

Fotos: Fabio Aro