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Bōsōzoku: a história das gangues de motociclistas do Japão

Muitas subculturas icônicas surgiram em tempos difíceis, do inconformismo e do desejo de afirmar uma identidade, de ter sua voz ouvida. E, muitas vezes, não estamos falando de protestos ou organizações, mas de expressão, simplesmente. Em meio a um mundo difícil de lidar, é importante – especialmente para os jovens – pertencer a um grupo e manifestar, ainda que coletivamente, sua individualidade.

É o caso dos bōsōzoku, os motociclistas fora-da-lei do Japão – o paralelo nipônico às gangues de motociclistas dos Estados Unidos, que são muito mais conhecidas mundialmente. Em vez de jaquetas de couro e motos cruiser, macacões e sobretudos coloridos e motos esportivas customizadas com muita extravagância. Em vez de longas viagens por rodovias no deserto, corridas de rua nos grandes centros. Vamos conhecer esta subcultura e sua história neste post.

A cultura bōsōzoku tem sua origem na década de 1950, pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Foi um período de grande expansão da indústria japonesa, especialmente entre as fabricantes de automóveis – em parte, com incentivo dos Estados Unidos, como retratação após o conflito. Entretanto, a presença dos EUA não levou apenas um crescimento econômico ao Japão: também houve influência cultura. Estas duas coisas foram os principais catalisadores do surgimento dos bōsōzoku.

Não é difícil entender. Com o crescimento das atividades industriais do Japão, houve um massivo êxodo rural por parte da população Japonesa – quem trabalhava no campo acreditava que se tornar empregado na indústria era garantia de um futuro melhor. E, inicialmente, foi assim mesmo – até que a oferta de mão de obra começou a ficar maior que a procura e, consequentemente, o preço da mesma despencou. E isto acabou empobrecendo a população de trabalhadores.

A juventude que cresceu neste meio, então, começou a se juntar. Inspirados pelos american choppers que começaram a se popularizar pouco antes nos EUA – logo após o fim da Segunda Guerra, mais especificamente – eles também formavam grupos com dezenas de membros, a maioria deles com idade entre 16 e 19 anos. Eles usavam as motos que podiam comprar, geralmente de segunda mão e com deslocamento entre 250 cm³ e 400 cm³, e as tornavam verdadeiras expressões de sua personalidade.

Chamadas Kaizōsha (“veículos modificados” em japonês), elas tinham, inicialmente, certa inspiração nas cruiser customizadas dos Estados Unidos (notável pelo tamanho do guidão, chamados shibori) e nas cafe racers britânicas, porém com o tempo uma identidade própria foi surgindo: cores vibrantes, pinturas com a bandeira do Japão e figuras temáticas do folclore japonês, encostos extremamente altos nos bancos e carenagens dianteiras enormes, quase cômicas.

O mais importante, porém, talvez fosse o sistema de escape, que era deixado livre e recebia saídas alongadas, voltadas para cima (os chamados shugo). Além de usá-las para fazer barulho e perturbar a vizinhança dos bairros ricos, os bōsōzoku também cometiam outros delitos, como andar sem capacete, acelerar entre os carros (menos para disputar corridas e mais pela adrenalina), destruíam patrimônio e organizavam brigas com armas brancas, como facas, espadas de madeira, tacos de baseball e até mesmo coquetéis Molotov. Não por acaso, a palavra bōsōzoku significa, literalmente, “tribo fora de controle”.

Era fácil identificá-los – eles geralmente usavam macacões iguais aos dos trabalhadores industriais  e sobretudos que chegavam até as canelas, geralmente bordados com cores vivas e frases de efeito em japonês.

 

Com o passar dos anos, a cultura bōsōzoku foi ganhando popularidade – embora tenha surgido do descontentamento dos jovens da década de 1950, seu auge veio nos anos 1980. Estimativas das autoridades policiais diziam que havia mais de 42.000 membros de gangues bōsōzoku espalhados pelo Japão.

Eles geralmente se reuniam em grupos de mais de 100 pessoas e ocupavam rodovias e vias expressas. Em grandes números, eles andavam bem acima do limite, evadiam cabines de pedágio e ignoravam as ordens da polícia para reduzir a velocidade ou parar.

Eles também escolhiam datas comemorativas onde as vias estavam cheias de carros para causar confusão – e retaliando com ameaças e até agressões quem quer que tentasse impedi-los ou mesmo manifestasse descontentamento.

Esta situação permaneceu ao longo da década de 1990 e só foi mudar a partir de 2004, quando uma nova lei de trânsito deu aos policiais mais poder para encarar os bōsōzoku, perseguindo-os em alta velocidade e usando de força para detê-los. Consequentemente, o número de ocorrências diminuiu bastante, bem como a quantidade de adeptos – em 2012, pouco mais de 7.000 motociclistas estavam fichados como membros de gangues bōsōzoku.

Apesar disto tudo, a estética das gangues de motociclistas japonesas possui muitos admiradores, e não é difícil encontrar entusiastas que customizam suas motos com inspiração nos bōsōzoku. Não é muito diferente do que ocorre com os atuais motoclubes, que inspiram-se no visual e nos aspectos positivos do estilo de vida sobre duas rodas, como liberdade, companheirismo e filantropia.

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