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Carnaval sobre rodas: como surgiu o trio elétrico?

Se fôssemos do tipo de faz piadas infames e sem graça, começaríamos este post dizendo “o que o seu carro e o Carnaval têm em comum?”, e você naturalmente diria que é o trio elétrico. Mesmo que o seu carro não tenha trio elétrico.

Trio elétrico é um nome antigo, que se costumava dar ao conjunto formado por vidros elétricos, travas elétricas e alarme – especialmente quando os três agem em conjunto: você aperta o botão na chave, os vidros sobem, as portas travam e o alarme se arma. Mas não, não é deste trio elétrico que a gente vai falar. O tema hoje é o trio elétrico do Carnaval mesmo.

Os trios elétricos são um símbolo do Carnaval baiano, especialmente na capital, Salvador, e todos os anos arrastam milhões de pessoas para as ruas ao som do axé. Você pode achar que este assunto não tem muito a ver com o FlatOut – afinal, um trio elétrico é nada mais que um caminhão cheio de alto-falantes e equipamentos de som com uma banda tocando em cima.

Acontece que o primeiro trio elétrico não era um caminhão, e sim um carro. E a música não era o axé – ou ao menos ainda não.

A música veio primeiro. Adolfo Nascimento, mais conhecido como Dodô, conheceu Osmar Macedo em 1938. Ambos eram músicos — Dodô havia sido membro do grupo “Três e Meio”, com Dorival Caymmi — e, na década de 1940, desenvolveram o “pau elétrico”, que era em essência um pedaço de madeira com ponte e captadores de violão elétrico e cordas de violão, cavaco ou bandolim. O intuito do instrumento era explorar novas sonoridades e, ao mesmo tempo, reduzir os problemas de feedback e microfonia causados pela caixa de ressonância do violão.

De certo modo, o “pau elétrico” foi uma das primeiras guitarras de corpo sólido – isto é, sem caixa de ressonância, necessitando de um amplificador para produzir som. Naquela época você só podia comprar guitarras semi-acústicas – aquelas grandonas, com buracos que parecem o de um violino (chamados f-holes). Elas tinham um som mais encorpado, mas sofriam bastante com a microfonia e feedback.

Guitarras de corpo sólido só começaram a chegar ao mercado em 1950, quando a Fender lançou o modelo Esquire, que mais tarde evoluiu para a Telecaster.

Bruce Springsteen empunhava sua Fender Telecaster com braço de Esquire na capa e no clipe de “Born to Run”, um de seus grandes clássicos

Alheios à criação de Leo Fender, em 1950 Dodô e Osmar já compunham suas canções usando o “pau elétrico” – que, aperfeiçoado ao longo de quase uma década, foi batizado guitarra baiana. Dá para dizer que Dodô e Osmar inventaram sua própria guitarra. Com ela, criavam e tocavam composições que uniam elelementos frevo, jazz, rock and roll e música erudita, tocadas em um compasso rápido e animado.

A inspiração era o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, conhecido apenas como Vassourinhas, que desfilou pelas ruas do centro de salvador cinco dias antes do Carnaval. O frevo do bloco animou a multidão e, vendo tudo aquilo, Dodô e Osmar decidiram fazer algo parecido. Eles pegaram um Ford Modelo A 1929, que chamavam de “Fobica”, arrancaram a capota, decoraram toda a carroceria e o equiparam para receber amplificadores e caixas de som, alimentados pela bateria do carro.

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Com suas guitarras baianas plugadas, Dodô e Osmar eram a Dupla Elétrica, e seu desfile foi um sucesso entre o público. Para o Carnaval do ano seguinte, eles convidaram o músico Temístocles Aragão, e a Dupla Elétrica se tornou Trio Elétrico.

Em 1952, a Coca-Cola cedeu um caminhão com equipamentos de som ao Trio Elétrico, inaugurando assim o formato que se mantém até hoje. A partir daí, o Trio Elétrico passou a ser a principal atração do Carnaval de Salvador e a inspirar outros a construir seus próprios trios.

Um deles era o Trio Tapajós, fundado em Recife no 1956, também faziam enorme sucesso. Orlando Campos, o fundador, era um pupilo da dupla, e aprendeu a tocar guitarra baiana com Osmar e só usava instrumentos fabricados por ele.

Ao longo dos anos 1960 e 1970, outros músicos juntaram-se ao Trio Elétrico – Moraes Moreira, ex-integrante dos Novos Baianos, e Armando da Costa Macêdo, filho de de Osmar e talentosíssimo com a guitarra baiana, foram alguns deles. Neste período, o Trio começou a se apresentar em outras cidades e estados do Nordeste.

Trio-Elétrico-Dodô-e-Osmar

Em 1969, o Trio Elétrico Dodô e Osmar foi homenageado por Caetano Veloso com a canção “Atrás do Trio Elétrico”. A música foi o hit do Carnaval naquele ano, e ajudou a espalhar a fama dos trios pelos quatro cantos do Brasil. Ironicamente, Caetano passou o Carnaval confinado na Bahia junto de Gilberto Gil – ambos haviam acabado de voltar do exílio em Londres, mas foram libertados de forma apenas parcial.

Com o tempo, o nome Trio Elétrico deixou de ser usado para se referir à banda, que sempre recebia novos músicos em sua formação, e passou a ser sinônimo do veículo sobre o qual a banda ficava.

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No início, os trios elétricos eram construídos sobre o chassi dos caminhões, consistindo em uma estrutura que abrigava o gerador de energia e os amplificadores na parte inferior. Em cima ficava o palco, cercado para que ninguém caísse de lá de cima.

Por dentro de um trio elétrico

À medida que o público crescia, os trios elétricos tiveram de aumentar a potência do som. Para isto, começaram a ser usados caminhões trucados, que podiam levar mais caixas de som e amplificadores, além de oferecer até mesmo infraestrutura como camarins e banheiros para os que se apresentavam.

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Atualmente, a maioria dos trios elétricos têm dois geradores, recurso necessário para alimentar todos os equipamentos utilizados hoje em dia: mesas de som digitais, computadores, equalizadores, amplificadores, caixas acústicas e cornetas.

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