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Sessão da manhã

“Carroll Shelby Goes Racing”: uma aula de pilotagem com o Cobra, o Mustang GT350 e o GT40 em 1965

Qualquer um que passa muito tempo lidando com carros de corrida — seja os pilotando, os consertando ou até mesmo escrevendo sobre eles — inevitavelmente imagina como eram as coisas há décadas atrás, quando carros que venceram corridas e entraram para a história ainda eram protótipos em desenvolvimento; e os engenheiros, designers e pilotos envolvidos com eles não sabiam se todo o tempo, dinheiro e trabalho investido seriam compensados com vitórias.

Se você já se pegou pensando nisso, este vídeo é para você. “Carroll Shelby Goes Racing” é um vídeo promocional feito para mostrar o que a Ford e a Shelby estavam fazendo juntas nas ruas e nas pistas. É uma produção bem anterior às câmeras digitais, às técnicas de edição computadorizadas que podem mudar totalmente o clima de uma cena com apenas alguns cliques em um mouse, e aos pen drives e cartões SD, naturalmente. Por isso, é impressionante que possamos ver um filme feito há exatos 50 anos e saber como eram os preparativos para as corridas e os testes dos carros naquela época, em uma autêntica visão das raízes do automobilismo.

Vamos nos situar no tempo. Era 1965, o Ford Mustang havia sido lançado no ano anterior e Shelby havia acabado de apresentar sua primeira versão preparada, o GT350 — que tinha o V8 de 4,7 litros e 274 cv originais preparado para entregar 310 cv, novo eixo traseiro e freios maiores. O Shelby Cobra Daytona, versão cupê do clássico roadster britânico com um V8 americano, também havia estreado no ano anterior e era a principal aposta da Ford para derrotar a Ferrari nas corridas de longa duração. E o Ford GT40 havia acabado de deixar sua fase de protótipo e se preparava para estrear nas pistas — e ainda nem era conhecido como “GT40”, apenas “GT”.

Um Carroll Shelby de meia-idade e sem muita intimidade com as câmeras (e com um inconfundível sotaque texano) se apresenta: “meu nome é Carroll Shelby e desempenho é meu negócio”. Depois de contar como começou a pilotar nos ovais de terra, migrou para os protótipos e atingiu o auge de sua carreira como piloto ao vencer as 24 Horas de Le Mans de 1959 pela Aston Martin com o DBR1 (história que você pode ler aqui), Shelby mostra como andam as coisas agora que ele é dono de uma preparadora e comanda uma equipe de automobilismo.

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Normalmente é o tipo de coisa que vemos em fotos, mas aqui dá para ter uma noção bem interessante de como as coisas funcionavam na prática — é só reparar nas carrocerias do Mustang, prontas para serem aliviadas e receber os novos componentes, dividindo espaço com alguns Cobra sendo preparados para a corrida e dois protótipos do Ford GT40 Roadster, do qual foram feitas quatro unidades.

Com uma transição nada suave, o vídeo muda para o circuito de Willow Springs, na Califórnia — um dos mais legais dos EUA, vale dizer. Shelby quer mostrar o passo mais importante no desenvolvimento de um carro de corrida vencedor: os testes. “Carros de corrida só podem ser testados pelos melhores pilotos, porque eles conseguem levar o carro ao limite”, ele diz, e por isso chama Pete Brock, Ken Miles e Dan Gurney para dar algumas voltas no circuito.

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Em 1961 Shelby havia acabado de se aposentar como piloto e, para não ficar parado, decidiu abrir uma escola de pilotagem. Ele convidou o amigo, designer e piloto Pete Brock para ser o instrutor-chefe da Carroll Shelby School of High Performance Driving, que ensinava entusiastas as técnicas usadas nas corridas. Os instrumentos? Os primeiros Shelby Cobra de rua fabricados, todos com motores small block de 4,7 litros e pouco mais de 300 cv, semelhantes aos do GT350 — que mais tarde também foram usados como ferramenta de ensino.

Ken Miles era um dos pilotos da Ford na época e, em 1965, era uma das promessas da Ford para as corridas de endurance nos EUA e na Europa. De fato, no ano seguinte ele venceu as 24 Horas de Daytona e as 12 Horas de Sebring pela Ford, além de ser o segundo nas 24 Horas de Le Mans — antes de, tragicamente, morrer em um acidente no circuito de Riverside, na Califórnia, enquanto testava um protótipo do GT40.

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Dan Gurney, por sua vez, era um cara que fazia tudo — ele já era piloto experiente em 1965 (com três vitórias e outros oito pódios na F1), ano em que competiu com o Shelby Cobra Daytona em Le Mans. Sua vitória com o GT40 viria em 1967, e ele foi o criador do tradicional banho de champanhe no pódio.

Aqui, porém, todos os três são pilotos de testes pronto para demonstrar algumas técnicas de pilotagem em Willow Springs. Pete Brock (ainda menos à vontade em frente às câmeras do que Carroll Shelby) ensina a contornar algumas curvas do circuito da forma exata, dando destaque à importância de encontrar o trajeto correto e conhecer cada centímetro do circuito, enquanto os três pilotos demonstram algumas de suas lições na prática — com um GT350R, versão de corrida do Mustang Shelby; um Cobra preparado para competir e um Ford GT40 Mk1 que, de acordo com Shelby, estava prestes a fazer sua estreia nas pistas.

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Chega a ser engraçado ver Brock e Gurney especulando sobre o desempenho do GT40, que correria em Le Mans no ano seguinte. Gurney diz que o GT40 é muito rápido e acredita que “com certeza ele vai passar dos 320 km/h na reta”, referindo-se à Hunaudières (ou “Mulsanne”). Bem, hoje sabemos que, em 1966, três GT40 com motor V8 big block de sete litros cruzariam a linha de chegada nas três primeiras posições. Ironicamente, o carro pilotado por Dan Gurney, que poderia ter sido o quarto, foi o único que não terminou a prova.

De fato, a última parte do filme é dedicada a mostrar o desempenho dos Ford nas corridas — mais especificamente, em Daytona e Sebring, onde o GT40 chegou em primeiro e segundo lugares, respectivamente. O futuro da parceria entre Shelby e a Ford parecia mesmo promissor, mas ninguém sabia como seria realmente. Hoje, a gente sabe.

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