Cometa Flecha Azul: a história do ônibus mais icônico do Brasil

Dalmo Hernandes 18 março, 2017 0
Cometa Flecha Azul: a história do ônibus mais icônico do Brasil

Foto: Chailander Borges

Nós, entusiastas, relutamos sempre que devemos deixar o volante aos cuidados de outra pessoa. E sempre preferimos viajar de carro, conduzindo, a andar de ônibus. É natural, está no nosso sangue.

Dito isto, entusiastas de verdade também sabem apreciar outros veículos, e os ônibus podem, sim, ser veículos admiráveis. Especialmente no caso do Cometa Flecha Azul, o ônibus mais conhecido do Brasil. E com razão: seu visual tipicamente americano e seu motor que passava dos 360 cv nas versões mais potentes, além do padrão de conforto superior a boa parte dos outros ônibus que circulavam pelas rodovias brasileiras até o fim da década de 1990, fizeram do Flecha Azul uma lenda entre os apreciadores dos grandes veículos de transporte coletivo.

A história da Cometa começa no fim da década de 1930, com o ex-aviador italiano Tito Mascioli, que decidiu morar no Brasil depois de visitar o País algumas vezes. Em 1937, Mascioli comprou um pedaço de terra no Bairro do Jabaquara, na Zona Sul da cidade de São Paulo, e entrou para o ramo imobiliário com um loteamento.

Como não conseguiu vender muitos terrenos devido à localização de seu loteamento, Mascioli decidiu criar uma linha de ônibus para ligar o Jabaquara à Praça da Sé, no centro de São Paulo, a fim de encorajar as pessoas a mudar-se para lá. Era a Auto Viação Jabaquara, que em pouco tempo começou a dar mais lucro que o próprio empreendimento imobiliário que deveria auxiliar. Mascioli, claro, mudou o foco e passou a investir mais em sua empresa de ônibus. Deu resultado: em dez anos, a Auto Viação Jabaquara já havia se tornado responsável por quase 50% do transporte coletivo dentro da cidade de São Paulo.

Acontece que, em 1947, foi criada a CMTC, Companhia Municipal de Transportes Coletivos, estatal que absorveu, entre outras empresas, a Viação Jabaquara. Mascioli foi contratado pela prefeitura para trabalhar como tesoureiro da CMTC, mas não estava satisfeito com o fim que levara sua própria empresa de transportes. Para resolver este problema, em 7 de maio de 1948, o italiano comprou outra companhia, a Auto Viação São Paulo-Santos Ltda., e mudou seu nome para Viação Cometa. A inspiração veio do logo da São Paulo-Santos, que já era uma estrela cadente antes da compra.

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Cometa da linha São Paulo-Itapetininga. Foto: Du Oliveira

Com a aquisição de outras companhias, a Cometa cresce e se destaca pela rapidez de suas viagens entre a capital e o litoral paulista, e também pelas viagens entre as cidade de São Paulo e Campinas, além da criação de diversas outras linhas ligando a metrópole às cidades do interior. O auge do crescimento é a implantação, em 1951, da linha São Paulo-Rio de Janeiro, primeira conexão interestadual da Cometa, passando pela então recém-construída Rodovia Presidente Dutra.

É aí que começa, de fato, a história do Flecha Azul.

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Foto: Denir L. Camargo

Não demorou para que a concorrência começasse ficar cada vez mais acirrada, com dezenas de novas empresas oferecendo transporte rodoviário entre São Paulo e o Rio. Assim, para se destacar, em 1953 a Cometa adquiriu 30 ônibus GM PD-4104, considerados os mais modernos na época: tinham carroceria de alumínio, motor seis-em-linha Detroit Diesel de sete litros e 211 cv, suspensão a ar e ar-condicionado.

Eram os mesmos ônibus usados por diversas companhias americanas de transporte coletivo – como a Greyhound, que de tão famosa se tornou sinônimo de ônibus rodoviário: é comum ouvir os americanos dizerem que vão “pegar um Greyhound”, mesmo que a operadora não seja a Greyhound.

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Aliás, até mesmo as cores da Greyhound, azul e um amarelo pálido, quase bege, parecem ter inspirado a pintura dos Cometa – é só comparar as duas. A empresa diz que a inspiração vem, na verdade, de um jogo de porcelanas no qual Mascioli e a esposa tomavam o chá da tarde quando ainda moravam na Europa. Algo nos diz que, nesse caso, eles tomavam chá no mesmo lugar que o pessoal da Greyhound…

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Foto: Cometa via Ônibus Brasil

De qualquer forma, a carroceria polida de alumínio com painéis estriados e as cores azul e amarelo se tornaram uma combinação icônica. Os ônibus GM, apelidados de “Morubixabas”, eram de fato os mais modernos a circular no Brasil, e muita gente optava por viajar de Cometa pelo conforto dos veículos.

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Cometa Papo Amarelo e GM PD-4104. Foto: Cometa via Ônibus Brasil

Acontece que Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil de 1956 a 1961, tornaria as coisas mais difíceis para a Cometa: sua política de incentivo à industria nacional tornava muito mais cara e burocrática a importação dos ônibus GM, grande diferencial da companhia.

 

Não tem para vender? Mande fazer!

Diante da dificuldade de importação dos ônibus que a Cometa julgava ideais para sua operação, a solução foi buscar parcerias com empresas nacionais e fabricar seus próprios ônibus a fim de manter o alto padrão dos mesmos. Como conta Adamo Bazani, do blog Diário dos Transportes, a primeira parceria foi com a encarroçadora Striulli, que passou a fabricar carrocerias iguais às dos PD-4104 sob licença da General Motors, quase sempre sobre chassis Mercedes-Benz. Não demorou, porém, para que os ônibus apresentassem problemas de construção.

A próxima companhia contatada foi a Ciferal (Comércio de Alumínio e Ferro Ltda.), passou à Cometa alguns ônibus como o Papo Amarelo, o Turbo Jumbo e o Flecha de Prata. Estes foram grandes destaques na década de 1960 e eram feitos sobre chassis Scania. No entanto, a grande sacada viria em 1972, no Salão do Automóvel de São Paulo.

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Cometa Papo Amarelo, Cometa Turbo Jumbo e Cometa Flecha de Prata

Foi quando a Ciferal e a Cometa apresentaram o Dinossauro, seu topo-de-linha. Totalmente inspirado nos GM “Morubixabas”, eles tinham carroceria com rebites expostos e painéis de Duralumínio, uma liga de alumínio, cobre, magnésio, manganês e silício. O Dinossauro foi desenvolvido em parceria com a Scania, depois que as empresas desmontaram duas unidades do GM “Morubixaba” para estudar seus projetos.

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Cometa Dinossauro. Foto: Cid J. Beraldo

De fato, o Dinossauro lembrava bastante os GM PD-4104, mas tinha como marca o teto mais baixo na dianteira, que lhe rendia um perfil distinto. Seu reinado também durou dez anos: em 1982, a Ciferal passou por problemas financeiros e entrou em concordata. A Cometa se viu, novamente, sem um parceiro na fabricação de ônibus.

 

Ninguém para fazer? Faça você mesmo!

Mais uma vez, a Cometa se viu diante de um problema de fornecimento — um verdadeiro pesadelo para qualquer empresa. Foi por isso que, no ano seguinte, eles simplesmente criaram uma subdivisão para fabricar seus próprios ônibus: a CMA, ou Companhia Manufatureira Auxiliar. A ideia era dar sequência à linhagem do Dinossauro mas, por questões contratuais, o nome dos répteis pré-históricos já não podia mais ser usado. Então, os novos ônibus foram batizados de Flecha Azul, por causa das faixa azuis nas laterais.

Para muita gente, a fabricação própria foi a conquista máxima da Cometa, que ganhou liberdade para implementar as inovações que quisesse aos veículos. O Flecha Azul era ainda maior que o Dinossauro, e tinha um visual ainda mais elegante – especialmente na traseira, com quatro lanternas circulares empilhadas de cada lado, que possibilitavam os famosos jogos de luz que os motoristas usavam para comunicar-se entre si.

Os ônibus eram uma excelente forma de publicidade: instantaneamente reconhecidos por qualquer um, tinha interior luxuoso, com revestimento de couro vermelho, ar-condicionado, janelas individuais (sem essa de ficar sentado ao lado de uma das colunas, sem poder olhar a paisagem ou curtir a brisa), suspensão hidropneumática e câmbio automático.

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Foi a última grande revolução da Cometa. Os Flecha Azul traziam novos recursos ano após ano, como ar-condicionado automático, poltronas reclináveis (algumas, do tipo leito) e motores mais potentes, sendo que o último deles foi o Scania DS11, seis-em-linha turbodiesel de 11 litros e 360 cv. Eram ônibus muito velozes e macios, com velocidade de cruzeiro que os deixou famosos – resultado da combinação da carroceria leve com este monstro turbodiesel.

A produção dos Flecha Azul prosseguiu até 1999, depois de oito atualizações. Eles não deixaram de circular, claro, mas foram substituídos na linha de produção pelo CMA Cometa, de visual mais moderno, sem frisos na carroceria e sem o teto rebaixado na parte da frente. Conhecidos como “Estrelão” por causa das enormes estrelas cadentes montadas nas laterais, os CMA Cometa tinham visual mais genérico, mas eram do tipo tribus, com dois eixos traseiros – uma exigência do mercado.

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Dois anos depois, em 2001, a Viação Cometa foi comprada pelo Grupo JCA, que opera a companhia até hoje. No entanto, a JCA não assumiu a operação da CMA que, sem uma parceira fixa, pediu falência em 2003. Os Dinossauros e Flechas Azuis seguiram em serviço, alguns comprados por outras empresas, e existem alguns exemplares restaurados que fazem viagens especiais até hoje.