Como dirigir sem carteira de habilitação dentro da lei… na Suécia

Dalmo Hernandes 17 outubro, 2016 0
Como dirigir sem carteira de habilitação dentro da lei… na Suécia

Quando você ainda era adolescente e não podia dirigir, tinha sorte se seu pai te deixasse dirigir o quando a família ia passar o fim de semana num sítio – ou não te pegasse no flagra, tentando sair escondido com o carro.

Em outros países, no entanto, existem maneiras mais fáceis de dirigir sem ter carteira de motorista. Na França existe uma categoria de carros que podem ser conduzidos nas ruas sem habilitação por qualquer pessoa com mais de 14 anos. São os VSP, ou voitures sans permis. Falamos deles neste post.

Na Suécia, por exemplo, você pode simplesmente transformar um carro em picape e fazer algumas modificações mecânicas para poder rodar com ele legalmente nas ruas, mesmo sem habilitação.

Nota: está claro que não estamos incentivando você a buscar novas maneiras de dirigir sem habilitação, não é mesmo? A CNH é mais do que uma exigência legal: é uma forma de atestar que o motorista está fisica e mentalmente apto a conduzir um automóvel. Estamos falando apenas sobre uma parte da cultura automotiva sueca, como curiosidade – não nos interprete da forma errada.

Na verdade, tecnicamente, os carros não são transformados em picapes, e sim em tratores, que só podem levar duas pessoas e devem ter sua velocidade máxima limitada a 30 km/h.

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Mas antes, vamos a um pouco de história. Na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, a Escandinávia sofreu com escassez de tratores e equipamentos agrícolas – as fabricantes estavam usando todo seu material e mão de obra para fabricar veículos militares. Com isto, os fazendeiros suecos precisaram improvisar, e passaram a transformar seus próprios carros em tratores.

O fato de serem veículos com carroceria sobre chassi tornava as coisas menos complicadas. Diminuía-se o entre-eixos, removia-se a parte traseira da carroceria e instalava-se uma caixa de redução e pronto: tinha-se um trator feito em casa. A marcha reduzida e as grandes rodas traseiras tornavam estes tratores improvisados quase tão eficientes quanto os de verdade.

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A ideia se popularizou rápido. No início, eram carros bem antigos e baratos, como o Ford Modelo A, mas logo  qualquer coisa que lembrasse vagamente um carro acabava transformada em um trator. E, mesmo depois da Guerra, a prática continuou. Não é preciso pensar muito para entender: era uma modificação barata, que podia ser feita pelo próprio dono, e quase não havia regulamentação. Com o passar do tempo, o governo sueco criou algumas normas: os tratores não poderiam ter entre-eixos maior que 2,2 metros, deveriam levar apenas duas pessoas e ter eixo-traseiro não suspenso. Além disso, o veículo seria registrado como equipamento rural – o que dava permissão aos jovens a partir de 15 anos de idade para conduzi-los.

Foi assim que os “tratores” improvisados começaram a ganhar as cidades interioranas da Suécia, onde havia menos trânsito (e menos fiscalização). Aos poucos, formou-se toda uma cena cultural em volta dos veículos, que passaram a ser chamados de EPA traktors. EPA era o nome de uma cadeia de lojas de utilidades cujos produtos ficaram famosos pelo baixo preço e pela qualidade duvidosa, e “EPA” acabou se tornando sinônimo de algo feito em casa, com o que se tivesse à mão.

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A brincadeira durou até 1963, quando as autoridades decidiram que a situação já estava melhor, e que já era possível comprar tratores de verdade para as fazendas. Assim, a lei que permitia a circulação dos EPA traktors foi revogada.

Os fazendeiros não se importaram muito, no fim das contas, mas quem já havia descoberto que os EPA traktors eram uma forma barata e até divertida de ter um veículo para transporte nas cidades não gostou nada da notícia. Cedendo à pressão popular, o governo decidiu manter os antigos EPA traktors nas ruas e definiu um novo conjunto de regras para novas conversões.

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Chamados A traktors, os veículos foram regulamentados em 1975. A partir dali passou a ser possível transformar praticamente qualquer automóvel em um trator, e não havia mais comprimento máximo para entre-eixos.

São permitidos apenas dois lugares, e o espaço atrás dos bancos dianteiros não pode ser utilizado para transportar passageiros ou carga. Além disso, foi definida uma velocidade máxima de 30 km/h, e ainda é preciso instalar um engate na traseira – afinal, legalmente, ainda estamos falando de tratores. Todos os A traktors precisam ter um triângulo refletor na traseira, que indica se tratar de um veículo de baixa velocidade.

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Um detalhe importante é que, antes da conversão, o carro precisa estar funcionando – ou seja, nem pensem em comprar uma sucata, colocar um motor qualquer e sair dirigindo.

Acredite se quiser: esta lei não mudou praticamente nada até hoje, e já faz 40 anos que os jovens suecos transformam carros velhos em A traktors.

A solução mais comum para a carroceria é transformar o carro em uma picape, cuja área da caçamba não pode ser maior que 1,25 m² e, em tese, só pode ser utilizada para carregar lastro. Boa parte das conversões é realizada em modelos da Volvo, especialmente os da série 200 – que até não ficam mal como “utes suecas” – mas a criatividade dos caras não tem limites. Alguns criam verdadeiros project cars, com modificações na carroceria, interior, novas rodas e até sistema de som.

Para reduzir a velocidade máxima, há algumas técnicas que são, digamos… engenhosas. Alguns modificam o câmbio, lixando ou simplesmente retirando as engrenagens das marchas mais altas. Outros preferem alterar os comandos e válvulas de modo a desativar alguns cilindros, diminuindo bastante a potência do carro.

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De qualquer forma, estamos falando de uma lei razoavelmente flexível: na prática, são poucos os A traktors que não chegam a pelo menos 50 km/h, e também há aqueles que utilizam a caçamba e o compartimento de carga para transportar pessoas e coisas. Além disso, pode-se até usar caminhões e picapes grandes, desde que a cabine seja simples. Se a primeira fileira de bancos tiver três lugares, os três podem ser utilizados normalmente.

Mesmo não respeitando todas as normas, raramente os donos de A traktors se encrencam com a polícia, por algumas razões: há uma espécie de “acordo velado” com as autoridades, e os homens da lei fazem vista grossa quando sabem que aquele veículo, ainda que não esteja 100% de acordo com o regulamento, não oferece risco. Ainda mais em cidades pequenas, onde está a maioria absoluta dos A traktors – nos grandes centros, boa parte das pessoas sequer lembra que eles ainda existem.

Este pode não ser seu tipo favorito de customização, e talvez você ache que picotar um carro desse jeito, por mais velho que seja, é um crime. No entanto, a ideia de poder dirigir um veículo motorizado de verdade aos 15 anos (a idade mínima), totalmente dentro da lei, soa interessante de qualquer jeito. E nos parece mais que suficiente para que os jovens suecos tenham contato com carros de verdade desde cedo.

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[ Fotos: Cars Addicition, Hemmings.com ]