Como era o mundo da última vez que não havia brasileiros na F1?

Leonardo Contesini 5 novembro, 2017 0
Como era o mundo da última vez que não havia brasileiros na F1?

É o fim de uma era. Eu não gostaria de começar o texto com este clichê, mas os clichês só existem porque funcionam e, nesse caso, não há forma melhor de expressar o que significa a saída definitiva de Felipe Massa da Fórmula 1. A temporada de 2017 encerra uma era de quase 50 anos de brasileiros na categoria máxima do automobilismo. Uma era que fez o Brasil ir além do futebol, que nos colocou na elite de um esporte naturalmente elitizado, que mostrou que um brasileiro pode ser reconhecido mundialmente por algo além de carnaval e futebol (e filmes na favela), e que nos colocou entre os países mais bem-sucedidos na Fórmula 1.

O fim desta era, contudo, também mostra como a concentração de poder é um dos nossos grandes males, escancara a decadência do nosso automobilismo e nosso talento inigualável em perder o bonde da história e as grandes oportunidades.

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A era do Brasil na Fórmula 1 começou em 1969, quando Emerson Fittipaldi pegou a mala que ganhara de seus pais e foi para a Inglaterra disputar a Fórmula Ford naquele ano, onde fez sua primeira corrida em 7 de abril. Em apenas três meses, Emerson foi chamado para integrar a equipe de Jim Russell no campeonato britânico de F3 daquele mesmo ano. Emerson foi, correu e venceu, o que lhe rendeu uma promoção para a Fórmula 2 no ano seguinte.

Na F2 Emerson disputou três das quatro primeiras etapas do campeonato de 1970, conquistando um segundo lugar em Hockenheim, um quarto lugar em Barcelona e um sexto lugar em Rouen. Seu bom desempenho levou Colin Chapman a chamá-lo para disputar o GP da Inglaterra de F1 naquele mesmo ano.

A estreia aconteceu em 18 de julho no autódromo de Brands Hatch. Emerson largou na 21ª posição com o antigo Lotus 49 (os dois pilotos principais da Lotus, Hill e Rindt, usavam o novo 72) e chegou em oitavo lugar dos nove que completaram a prova.

Ainda em 1970, ele se dividiu entre o campeonato de F1 e de F2. Na categoria menor, ele terminou o campeonato em terceiro lugar, atrás de Clay Regazzoni e Derek Bell. Na F1, Emerson terminou em décimo, graças à sua vitória no GP dos EUA em 4 de outubro.

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O que aconteceu em seguida todos conhecemos muito bem: embora não tenha conquistado nenhuma vitória em 1971, Emerson terminou o campeonato em sexto lugar. No ano seguinte, seu irmão Wilsinho Fittipaldi e seu amigo José Carlos Pace seguiram o caminho e disputaram a temporada pela Brabham e pela Frank Williams Racing Cars, respectivamente. Emerson se tornou campeão mundial.

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Em 1975, em uma empreitada corajosa dos irmãos Fittipaldi, nasceu a primeira equipe 100% brasileira de Fórmula 1, a Copersucar Fittipaldi. Naquele mesmo ano vimos a primeira dobradinha brasileira: José Carlos Pace venceu o GP do Brasil seguido por Emerson Fittipaldi.

No ano seguinte, 1976, foi a vez de Ingo Hoffman e Alex Dias Ribeiro, pela Fittipaldi e pela March, respectivamente. Em 1978, foi o amigo mais novo de Alex, Nelson Piquet, que chegou à F1, primeiro com um carro alugado, depois pela Ensing, e a partir de 1979 pela Brabham, ao lado de Niki Lauda.

Em 1981, quando Piquet conquistou seu primeiro título, Chico Serra estreou pela Fittipaldi. Em 1982 tivemos Raul Boesel na Ligier, e Roberto Moreno, outro amigo de Piquet e Alex Dias Ribeiro, que fazia sua estreia na F1 como substituto de Nigel Mansell, que havia quebrado o pulso, na Lotus. Sua carreira na F1, contudo, só teve início mesmo no final de 1986.

Antes disso, Nelson Piquet igualava o bicampeonato de Emerson em 1983 e Ayrton Senna ganhava a atenção do mundo na temporada de 1984.

Em 1988 Senna finalmente cumpriu a promessa de ser campeão, e seu amigo Maurício Gugelmin chegava à categoria pela March. Embora o carro não fosse dos mais confiáveis, Gugelmin conseguiu pontuar em quatro das 31 corridas que terminou (somente os seis primeiros pontuavam na época), com direito a um pódio no GP do Brasil de 1989.

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Prost, Mansell e Gugelmin

Em 1990, Senna conquista seu segundo título após a colisão com Alain Prost no GP do Japão, que ainda viu a última dobradinha brasileira na categoria: a vitória de Nelson Piquet e o segundo lugar de Roberto Pupo Moreno, que substituía Alessandro Nanini na Benetton e formou com o amigo de Brasília (a cidade, não o carro) a primeira dupla brasileira em uma equipe estrangeira, quando ambos foram anunciados pela Benetton para a temporada de 1991.

Os oito títulos acumulados por Fittipaldi, Piquet e Senna abriram as portas da F1 para os pilotos brasileiros. 1992 viu a chegada de Christian Fittipaldi e 1993, de Rubens Barrichello, que se tornaria o piloto que mais disputou Grandes Prêmios na História da Fórmula 1 — e ainda acumularia dois vice-campeonatos. Infelizmente, a pressão popular em ver um novo campeão substituindo Ayrton Senna ofuscou as qualidades de Barrichello e deformou a opinião do grande público, mas você não se torna uma lenda da Fórmula 1 sendo um piloto mediano.

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Barrichello e Diniz

Em 1995 Pedro Paulo Diniz chegou à categoria com um forte apoio da Parmalat na Forti Corse. Em 1996 Ricardo Rosset estreou na Footwork e Tarso Marques na Minardi. Três anos depois Ricardo Zonta estreava na BAR e no ano 2000 Luciano Burti assumia o posto na recém-formada Jaguar. 2001 viu a chegada de Enrique Bernoldi na Arrows. Em 2002 Felipe Massa fazia sua estreia pela Sauber e, no ano seguinte, foi a vez de Cristiano da Matta na Toyora, recém-chegado de um título na CART, e Antônio Pizzonia na Jaguar.

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Tarso Marques e o novato Fernando Alonso Díaz

Em 2008, quando Felipe Massa foi campeão por 15 segundos, Nelsinho Piquet estreava pela Renault ao lado de Fernando Alonso e conquistou um segundo lugar no GP da Alemanha daquele ano. Em 2010 Bruno Senna e Lucas di Grassi estrearam na categoria, mas só o sobrinho de Ayrton continuou na temporada seguinte.

Com a saída de Rubens Barrichello ao final de 2011 e de Bruno Senna ao final de 2012, Felipe Massa foi o único brasileiro na categoria até 2015, quando Felipe Nasr se tornou o último estreante brasileiro na Fórmula 1.

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Foram exatamente 47 anos e 48 temporadas ininterruptas com ao menos um piloto brasileiro no grid — uma marca que nos coloca ao lado das grandes potências do automobilismo: Grã-Bretanha, Itália e Alemanha. É tanto tempo, que se tornou natural ver um brasileiro nos Grandes Prêmios e, quem tem seus 60, 70 anos hoje, mal lembra de como era a Fórmula 1 sem eles. Na verdade, faz tanto tempo que o mundo parecia (e talvez fosse mesmo) um outro planeta. Quer ver só?

 

A Brasilia ainda não existia. Nem o Maverick. Nem o Chevette

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Os anos 1970 foram marcados pela chegada e pela consolidação de novos modelos para rivalizar com o Fusca, como o Corcel e o Chevette, e as novas alternativas de luxo, como o Opala e o Maverick. Também foi quando a Volkswagen tentou modernizar o Fusca criando a Brasilia — que no fim acabou convivendo com o irmão mais velho e saiu de linha por ter falhado em seu objetivo.

Mas quando Emerson Fittipaldi estreou na F1 o Opala estava em seu terceiro ano, assim como o Corcel. Os outros modelos que marcaram os anos 1970 começaram a chegar no ano seguinte, em 1971, quando foi lançado o Dodge Charger R/T e o Opala SS cupê. O Maverick, o Chevette e a Brasília chegaram somente em 1973, quando Emerson já era campeão mundial. O Fiat 147 demorou ainda mais: só deu as caras em 1976.

 

A Volkswagen não produzia motores “a água”

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O primeiro Volkswagen com motor arrefecido a água foi o K70, mas em 1970 ele ainda não era oficialmente um Volkswagen, e sim um NSU. Foi somente em 1971 que ele recebeu o logotipo da marca do povo e passou a ser chamado de Volkswagen K70.

Ele foi produzido até 1974, quando foi substituído pelo Passat, que foi o primeiro modelo desenvolvido pela Volkswagen a usar um motor de arrefecimento líquido. Nesse ano Emerson conquistou seu segundo título.

 

A Kombi “corujinha” ainda era fabricada

Modelo Kombi, ano 1968 com inacreditáveis 28.000km

 

Quando Emerson estreou na Fórmula 1, se você entrasse em uma concessionária Volkswagen para comprar uma Kombi, o que se encontrava era o modelo clássico com para-brisa bi-partido, janelas corrediças e frisos na dianteira, que ficou conhecido por aqui como “corujinha”. O modelo saiu de linha somente em 1975, quando o Brasil já tinha três pilotos na F1, uma equipe brasileira e também quando vimos a primeira dobradinha brasileira, com José Carlos Pace e Emerson Fittipaldi.

 

Não existia TV em cores no Brasil

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A TV em cores foi lançada nos anos 1950, pouco depois da transmissão em branco e preto, mas devido ao seu alto preço inicialmente, ela se tornou popular somente no final dos anos 1960 nos EUA, Europa e Japão. Por esse motivo, a Copa do México de 1970 foi a primeira transmitida em cores.

No Brasil, a primeira transmissão colorida demorou um pouco mais: ela aconteceu em 1972, quando a TV Difusora de Porto Alegre usou a tecnologia para transmitir a Festa da Uva de Caxias do Sul (RS) daquele ano.

 

A rádio FM estava engatinhando

Hoje a rádio FM está sendo substituída por rádios por satélite nos EUA e na Europa, mas em 1970 a transmissão por modulação de frequência (ou frequência modulada, para manter a sigla) estava apenas engatinhando.

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Apesar de ter sido patenteada nos anos 1930, foi somente nos anos 1950 que as primeiras rádios FM apareceram nos EUA, mas sua popularização aconteceu somente no fim dos anos 1960 com o surgimento dos primeiros discos de rock estereofônicos. No Brasil a primeira estação a transmitir com esse tipo de frequência foi a Rádio Tropical FM de Manaus, no Amazonas, em 1968.

 

Os pneus radiais ainda não eram usados nos carros novos

Os pneus radiais são o padrão da indústria automotiva há mais de 30 anos, porém quando Emerson Fittipaldi inaugurou a era brasileira na F1, eles não eram usados em nenhum carro zero-quilômetro. E não estou falando do obsoleto mercado brasileiro: o primeiro carro do planeta a ser equipado com pneus radiais de série foi o Lincoln Continental MKIII 1970, lançado no final do primeiro semestre daquele ano.

 

Barrichello e metade dos 30 pilotos brasileiros da F1 não eram nascidos

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Christian e Rubens Barrichello em algum momento dos anos 1980

Considerando os pioneiros independentes como Chico Landi, Fritz d’Orey, Gino Bianco e Nano da Silva Ramos, o Brasil teve nada menos que 30 pilotos de Fórmula 1 em toda a sua história. Metade deles sequer era nascida quando Emerson Fittipaldi alinhou em Brands Hatch para o GP da Grã-Bretanha naquele 18 de julho de 1970.

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Ayrton Senna nos anos 1970

Os mais velhos, logicamente, foram os pioneiros citados acima. Depois vêm os contemporâneos de Emerson: Luizinho Bueno tinha 33 anos, Wilsinho Fittipaldi e José Carlos Pace tinham fariam 26 no final daquele ano. Alex Dias Ribeiro tinha 21, Nelson Piquet estava prestes a completar 18 anos. Ingo Hoffman tinha 17, Roberto Moreno tinha 11 anos, Chico Serra tinha 13 e Raul Boesel, 12. Senna estava começando no kart, com 10 anos, e Gugelmin era apenas uma criança de 7 anos.

Christian Fittipaldi, Rubens Barrichello e toda a geração dos anos 1990 só vieram ao mundo quando Emerson já estava ganhando Grandes Prêmios.

 

O Brasil tinha 90 milhões de habitantes – e 22 estados

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Em 1970 a população brasileira estava chegando aos 90 milhões — menos da metade da população atual, que está na casa dos 210 milhões. A divisão administrativa também era bem diferente, uma vez que Rondônia, Roraima e Amapá eram territórios, e não estados, o Mato Grosso do Sul ainda fazia parte do Mato Grosso, e Tocantins ainda não existia, fazendo parte de Goiás. Existia ainda o estado da Guanabara, que compreendia apenas a cidade do Rio de Janeiro.

A divisão regional havia acabado de tomar a forma atual. Até então São Paulo fazia parte da região Sul; Minas Gerais formava o Leste com Rio de Janeiro, Guanabara, Espírito Santo, Bahia e Sergipe. Goiás e Mato Grosso formavam o Centro-Oeste com o Distrito Federal. O Nordeste era formado pelo Maranhão, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O Norte era apenas o Pará, Amazonas, o Acre e os três territórios nacionais (Roraima, Rondônia e Amapá).