Edição diária: 18/06/2019
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Car Culture

Como era o mundo quando o Chevrolet Classic foi lançado (e ainda se chamava Corsa Sedan)?

Em 2014 a obrigatoriedade de airbag e ABS em todos os carros novos fabricados e vendidos no Brasil resultou na aposentadoria de alguns modelos que já faziam hora extra no mercado. Foi o caso do Fiat Mille, que completava 30 anos naquele ano; do Volkswagen Gol G4, que ainda era baseado na segunda geração, lançada em 1994; e da Velha Senhora da Volks, a Kombi — tão antiga que era o segundo projeto da fabricante e já estava por aí há quase 60 anos.

Outros modelos igualmente antigos, contudo, voltaram a receber os equipamentos obrigatórios para esticar sua permanência como modelos de baixo custo, caso do Renault Clio, lançado em 1999 e produzido até hoje com uma cara bem diferente; e também do Chevrolet Classic, que em essência é o mesmíssimo Chevrolet Corsa Sedan lançado há vinte anos. Não erramos a conta não: o Corsa Sedan foi lançado em novembro de 1995 como modelo 1996, e mesmo após a mudança de nome e dois ou três facelifts, continua firme e forte e sem sinais de aposentadoria.

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Os facelifts e atualizações mecânicas e de acabamento meio que enganaram a nossa percepção, fazendo com que ele pareça mais novo do que realmente é. Mas para termos uma melhor noção da passagem do tempo, decidimos relembrar como era o mundo quando o Chevrolet Classic, ou melhor, o Corsa Sedan foi lançado.

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Circuitos do tempo ativados, capacitor de fluxo capacitando e lá vamos nós, de volta a novembro de 1995.

 

A Chevrolet ainda vendia o Monza e a D20

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O Corsa Sedan foi lançado em novembro de 1995, mas só chegou às lojas no início de 1996. Em sua estreia no mercado, ele dividiu a loja com dinossauros como a picape D20 (e suas irmãs de ciclo Otto A20/C20), e com o Monza GL e GLS — ambos com o motor 2.0 Família II. Além deles, também estavam presentes o Kadett e sua irmã Ipanema, o Omega e a perua Suprema e os recém-lançados Vectra, S10 e Blazer, além do Astra importado da Bélgica e ainda em sua primeira geração.

 

O Fiat Palio ainda não existia

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O Palio chegou ao mercado somente no segundo semestre de 1996 e o sedã Siena não deu as caras antes do réveillon daquele ano. Na Ford, o Fiesta já estava entre nós, mas ainda em sua versão quadradinha, importada da Espanha (o modelo novo também chegaria somente meses depois). Se você quisesse uma alternativa ao Corsa Sedan, a Ford tinha o Verona GL equipado com o motor AP 1.8 por cerca de R$ 2.000 a mais. Por um preço semelhante a Volkswagen poderia te vender um Voyage quatro portas importado da Argentina com o mesmo motor 1.8 do Verona. Coisas da Autolatina.

 

Honda, Toyota, Peugeot, Renault e Citroën eram carros importados

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As chamadas “newcomers” começaram a dar as caras por aqui somente em 1997. Primeiro a Honda, depois Renault e Toyota em 1998 e mais tarde, em 2001, Peugeot-Citroën. Por terem chegado após o boom dos populares e inicialmente com produtos importados de categorias superiores, essas marcas acabaram ganhando uma imagem “premium” por aqui. A Renault, por exemplo, decidiu vender todos os seus modelos equipados com airbag de série — do mais básico dos Clio ao mais equipado Laguna. Já Honda e Toyota nunca se meteram a fazer carros 1.0, a cilindrada máxima da alíquota reduzida do IPI para os carros “populares”.

 

Os supercarros do momento eram Ferrari F50, McLaren F1 e Lamborghini Diablo

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Sim, está faltando o nome da Porsche, mas a marca de Stuttgart atravessou os anos 1990 sem um supercarro para chamar de seu — havia o 911 GT2, mas ele não era nascido para ser um supercarro como esses três do subtítulo. Naquela virada de 1995 para 1996, os grandes supercarros do momento eram a Ferrari F50, com seu motor derivado da Fórmula 1 e com um visual tão radical quanto controverso; o Lamborghini Diablo, que continuou a tradição do Countach como o supercarro da parede da molecada; e, claro, o todo-poderoso McLaren F1, o carro mais rápido do mundo na época.

A F50 era equipada com um V12 de 520 cv e chegava à máxima de 325 km/h depois de chegar aos 100 km/h em 3,7 segundos. Hoje, sua neta LaFerrari faz o mesmo em menos de três segundos e chega aos 350 km/h com um V12 híbrido de 963 cv. O McLaren usava seu V12 de 627 cv para acelerar de zero a 100 km/h em 3,2 segundos e chegar aos 386 km/h; seu sucessor direto, o P1, usa um conjunto híbrido de 916 cv para chegar aos 100 km/h em 2,8 segundos e à máxima de 395 km/h (embora seja limitado em 350 km/h).

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Já o Lamborghini Diablo SV tinha um V12 de 517 cv que o levava aos 100 km/h em 3,9 segundos e à máxima de 336 km/h. Hoje seu sucessor é o Aventador SV, que não compete diretamente com os hipercarros de hoje.. Em seu lugar entrou o Porsche 918 Spyder, sucessor do 959 dos anos 1980 e do Carrera GT dos anos 2000.

 

O carro mais rápido do mundo estava longe dos 400 km/h

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O McLaren F1 era “o” supercarro da época. Foi o primeiro modelo de rua da McLaren, equipado com um BMW V12 de 6,1 litros e um câmbio manual de seis marchas. Tão impressionante quanto os 627 cv do seu motor era a configuração interna para três passageiros com o piloto sentado no meio do carro. Além disso, ele tinha recursos jamais vistos em um carro de rua, como o cofre do motor folheado a ouro para melhor dissipar o calor e exaustores sob o carro para aperfeiçoar o fluxo aerodinâmico. Isso sem mencionar o monocoque e a carroceria de fibra de carbono, que mantinham o peso do carro abaixo de 1.140 kg.

Na hora dos testes de velocidade máxima ele massacrou o recorde anterior de 342 km/h obtido por Martin Brundle a bordo do Jaguar XJ220 em Nardò. Nessa mesma pista oval, o McLaren F1 chegou a absurdos 371,8 km/h antes do limitador eletrônico segurar as rotações do motor. Sem ele, o carro chegou a 386,4 km/h. Muito perto dos 400 km/h em termos aritméticos, mas muito distante em termos técnicos. Segundo Gordon Murray, o carro passaria dos 400 km/h com um câmbio moderno, com sete marchas e embreagem dupla. Algo que só foi inventado 15 anos mais tarde.

 

Seus games de corrida tinham 32 bits (ou 16!)

Sim, ainda se media a capacidade de processamento dos games em bits. Se você (ou seus pais) tivessem grana, seu video-game de 1995-96 certamente seria o Playstation, um Sega Saturn ou um 3DO, os consoles de 32 bits mais populares da época — e também os mais avançados que se podia ter. O grande sucesso da época certamente era “The Need For Speed”, lançado em 1994 (leia mais sobre ele aqui), mas também havia o clássico Sega Rally para o Saturn.

Se você estivesse atrasado nos consoles, seu negócio eram os games de 16 bits como Rock ‘n’ Roll Racing, Top Gear, Mario Kart, F-Zero, Super Monaco GT e todos aqueles clássicos com cheiro de nostalgia.

 

A internet era novidade

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Quando o Corsa Sedan foi lançado a internet comercial estava começando a ser lançada no Brasil. Na época havia menos de um milhão de conexões em todo o Brasil (isso é metade da audiência mensal do FlatOut) e a velocidade média era de 4,8 kbps — hoje a média é 5 mpbs, mais de mil vezes mais rápida. Os primeiros sites voltados ao automobilismo começaram a surgir naquele mesmo 1996, caso do pessoal do Grande Prêmio, nossos parceiros de conteúdo desde o início do FlatOut, que na época se chamavam ainda Warm Up.

Praticamente nenhum fabricante nacional usava a internet para apresentar seus produtos. Essa imagem acima, por exemplo, é uma captura de tela do site da Chevrolet em dezembro de 1996. Amplie a foto e veja: nenhuma menção à linha de automóveis! Isso só se tornou mais popular nos anos seguintes, embora os grandes fabricantes europeus e americanos já tivessem seus sites interativos. Google? Espere mais dois anos até 1998. Na época você usava o cadê.com.br ou o altavista.com.

 

Michael Schumacher ainda era bicampeão de F1

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O Brasil tinha quatro pilotos no grid (Tarso Marques, Ricardo Zonta, Rubens Barrichello e Pedro Paulo Diniz), Gerhard Berger e Martin Brundle ainda estavam na categoria, Jacques Villeneuve estava estreando na F1, Barrichello ainda era Rubinho e estava na Jordan, Nelson Piquet estava disputando as 24 Horas de Le Mans com o McLaren F1 e a McLaren estava em seu segundo ano com os motores Mercedes na Fórmula 1.

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Sebastian Vettel estava completando oito anos de idade e começava no kart. Lewis Hamilton tinha 11 anos e estava no kart com Nico Rosberg. Fernando Alonso tinha 15 anos e também estava no kart, disputando o mundial com Kimi Raikkonen, que já tinha 16 anos. Felipe Massa também tinha 15 anos e dividia a carreira no kart com o emprego de ajudante de restaurante em Interlagos.

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Esse era Lewis Hamilton quando o Corsa Sedan/Classic foi lançado

Hoje Vettel é tetracampeão mundial de F1, Lewis Hamilton já faturou três títulos, Nico Rosberg perdeu dois, Fernando Alonso é bicampeão faz tempo e Kimi Raikkonen faturou o título de 2007 e só quer ficar em paz, pois sabe o que está fazendo. Felipe Massa foi vice em 2008 e venceu duas vezes o GP do Brasil na mesma Interlagos onde entregava marmitas.

 

O Plano Real tinha menos de dois anos

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Acredite: a moeda que acompanha nossa vida há vinte anos — e foi a única usada por boa parte de nossos leitores — ainda não tinha completado dois anos.

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Veja a placa: 2060!? Será que a GM já planejava a longevidade do Classic durante o desenvolvimento do projeto?

Na época do lançamento do Corsa Sedan R$ 1 comprava US$ 1,03 (o real era mais valorizado que o dólar devido ao controle cambial do BC) e um Corsa Sedan saía por R$ 14.950 na versão GL 1.6. Em valores corrigidos pela inflação oficial, o IPCA, estamos falando em R$ 62.900 de 2015.

 

O Golf era o carro importado mais vendido do Brasil

No final de 1995 o Volkswagen Golf era o importado mais vendido do Brasil. Na época ele era trazido em apenas duas versões, a GTI 2.0, importada do México e a GL 1.8 importada da Alemanha. Mais tarde veio a versão GLX, que era basicamente um GTI com quatro portas e acabamento mais comportado. Outros importados líderes de venda no Brasil eram o Fiat Tipo, o BMW Série E36, o Chevrolet Astra e o… Asia Towner!

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Hoje a Asia não existe mais — a marca faliu, foi comprada pela Kia, que também faliu e foi comprada pela Hyundai —, mas nome Towner foi comprado pelo importador de uma microvan chinesa. A segunda geração do Astra deixou de ser produzido no Brasil já faz quase três anos e a terceira (o Vectra GT) também. O BMW Série 3 já ganhou outras três gerações e o Fiat Tipo voltará em forma de sedã. O Golf voltou a ser importado em 2013, mas está longe de ser o mais vendido, embora seja um hatch bem mais legal que aquele de 1995.

 

A poupança Bamerindus ainda estava numa boa

Quem viveu a época sabe que o tempo passava, o tempo voava, e a poupança Bamerindus continuava numa boa. O jingle era repetido em todos os canais de grande audiência, no Domingão do Faustão e nas revistas e se tornou uma marca “top of mind”. Na época em que o Corsa Sedan foi lançado o banco havia sofrido um baque antes do plano Real, mas estava tentando se reestruturar. Não deu certo, e em 1997 o Bamerindus acabou incorporado pelo HSBC — que chegou há 15 anos e já anunciou seus planos de deixar o país.

 

O McDonalds ainda vendia seus lanches pelo número

Vá lá: se você é um comedor de fast food lembra que ao pedir um número 1 no McDonalds você recebia um Big Mac com refrigerante médio e batata-frita, que o número 2 era o Quarterão (sem i mesmo) com Queijo, que o número 3 era o McChicken e por aí vai. Esse sistema deixou de ser usado há mais de dez anos e hoje, se você pedir seu sanduíche pelo número vai parecer um gringo tentando se comunicar com os funcionários.

 

Os FlatOuters eram moleques — e um deles nem falava direito

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Sim: em 1996 os FlatOuters eram moleques e ainda nem se conheciam. O mais novo, nosso repórter Dalmo Hernandes, tinha só cinco anos — mal havia aprendido a falar. Eu, Leo Contesini, tinha 12 anos e só andava de bicicleta ou rolimã e colecionava miniaturas como essa Nomad acima, e o editor-chefe Juliano Barata tinha 15 anos e só podia sonhar com seu Dodge Dart.

 

Top Gear era um outro programa de TV

Top Gear estreou na TV britânica em 1977 como uma revista televisiva sobre carros — um formato bem diferente daquele que conhecemos nos últimos 14 anos, e mais parecido com os programas brasileiros atuais. Na época Jeremy Clarkson já estava no programa, mas não era o principal apresentador. Ele dividia os quadros com nada menos que outros oito apresentadores, dentre os quais estão Andy Wilman, Tiff Needell, Vicky Butler-Henderson, Quentin Willson e Michelle Newman. A música tema era a mesma, mas não a versão estilizada, e sim um trecho da música original dos Almann Brothers.

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Como você deve ter notado, após o fim do formato original em 2001, os apresentadores criaram outros programas de TV. Clarkson e Wilman se juntaram a Richard Hammond e mais tarde chamaram James May (que apresentou o Top Gear em 1999). Tiff Needell e Vicky Butler-Henderson criaram o Fifth Gear e Quentin Willson foi para o The Classic Car Show.

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