FlatOut!
Image default
Car Culture Zero a 300

Como eram as atualizações de carros antigos nos anos 1980 e 1990?

Se você acompanha o Project Cars do FlatOut, talvez tenha visto o Chevette 1979 #450, cuja restauração está rolando na FlatCaverna — nossa base secreta localizada no km 52 da rodovia Castelo Branco. Trata-se de um carro que teve somente um único dono durante seus primeiros 38 anos e que poderia estar 100% original se não fosse um detalhe: ele era usado com frequência para viagens de São Paulo ao litoral. E como boa parte dos carros antigos que foram usados rotineiramente ao longo das décadas, ele teve algumas modificações feitas tanto por questões práticas quanto estéticas.

Por exemplo: os faróis do Chevette originalmente são do tipo “sealed beam”. Esse farol tinha projetor e lente selados, com a lâmpada embutida. Quando queimava, você trocava a peça inteira. É claro que isso não era nada prático, mas era o que havia na época. Quando os faróis com lâmpadas separadas surgiram, atualizar seu carro com um destes não era “descaracterizá-lo”, mas torná-lo mais prático. Até porque em determinado momento dos anos 1980 e 1990 as peças mais antigas simplesmente pararam de ser produzidas, e para manter o carro rodando, você precisava atualizá-lo com as peças que encontrava. E foi isso o que o antigo proprietário fez: comprou os faróis mais modernos do modelo 1981/82 e adaptou o conjunto. Com os faróis mais novos ele também aproveitou e adaptou os borrachões e frisos laterais e para-choques do modelo mais moderno, transformando o carro em um Chevette ano 1979-modelo 1982. O resultado não ficou dos melhores, uma vez que as lanternas traseiras são diferentes, mas isso é mero detalhe.

O que importa aqui é que a simplicidade mecânica dos carros da época, somada à longevidade dos modelos — que recebiam atualizações simples para parecerem mais novos — facilitava que a atualização fosse feita por qualquer um. Por exemplo, não era difícil fazer um Monza 1984 parecer um Monza 1990, ou transformar um Uno 1984 em um Uno 1994. Na verdade era uma prática relativamente comum, como mostra essa matéria de 1987 que encontrei em uma antiga revista Oficina Mecânica, explicando quais peças precisariam ser trocadas para transformar seu carro velho em um modelo do ano.

IMG_0062

A linha Volkswagen era a mais fácil. Começando pelo Fusca, que no Brasil foi exatamente o mesmo por quase 50 anos, mudando apenas peças de acabamento interno e externo, como rodas e calotas, bancos e painel, volante, lanternas, para-choques e faróis.

Na época era comum que os modelos dos anos 1960 fossem atualizados. Fazia sentido: os para-lamas e os faróis tipo “olho de boi” não eram tão eficientes quanto os mais modernos oferecidos nos anos 1980. Além disso, você poderia ter um carro exatamente igual ao modelo do ano mudando umas poucas peças por uma fração do preço do carro novo. Tentador, não?

IMG_0065

As Brasilias feitas entre 1974 e 1977 também eram facilmente atualizadas com a mudança das lanternas traseiras lisas pelas estriadas, para-choques, painel e capô.

O Passat 1980, o primeiro com faróis retangulares, pode ser transformado em um modelo 1987 com a substituição dos faróis e grade, lanternas traseiras, para-choques e rodas, friso de borracha na tampa do porta-malas e acabamento plástico na traseira. Parece muito, mas na época custava cerca de 15.000 cruzados, algo em torno de R$ 4.000 a R$ 5.000 em dinheiro de hoje (IPC-A). Considerando que o carro custava mais de dez vezes esse valor e que você podia fazer a atualização aos poucos, a atualização até que era atraente.

1990-Gol-CL-motor-AE

O Gol era o mais problemático da linha: as mudanças feitas em 1987 mudaram drasticamente o visual do carro, com novos para-lamas dianteiros, painel traseiro, grade, faróis, capô e para-choques (o que geralmente exige a mudança da chamada mini-frente, que é onde são afixados os componentes da dianteira), além das lanternas traseiras, rodas e retrovisores.

Chevette 1985 chevette-lendas-brasileiras

Na GM a atualização externa era igualmente facilitada. O Chevette 1983 era facilmente transformado em um 1987 (ou em um 1993 se você estivesse nos anos 1990) trocando apenas retrovisores, para-choques, frisos laterais, rodas e calotas, grade dianteira e lanternas.

Captura de Tela 2018-01-18 às 17.59.56

A receita do Monza era a mesma: o modelo 1984/1985 precisava de grade, faróis, rodas, retrovisores, bancos, volante e um para-choques dianteiro para ficar idêntico aos modelos do final dos anos 1980.

O Opala era o mais complicado, e o único que exigia trabalho de funilaria, uma vez que suas lanternas foram modificadas na segunda metade dos anos 1970 e depois nos anos 1980. Nos modelos do final dos anos 1970 para os modelos dos anos 1980, também mudavam os para-lamas dianteiros e capô.

IMG_0163

Na Ford o Escort tinha sua atualização proibitiva, exigindo mudanças nos para-lamas dianteiros e traseiros, lanternas, faróis, capô, grade, para-choques, rodas e borrachas dos vidros. Mas o Corcel, a Pampa e o Del Rey eram simples, exigindo apenas faróis, lanternas, grade e rodas/calotas novas.

ford belina 1988 01 ford-scala-1985-650x494_00002

Na Fiat não havia muito o que atualizar: o Uno e seus derivados ainda estavam com o visual original, então uma atualização comum na época era a conversão estética dos modelos básicos no 1.5 R. Nos anos 1990, quando a nova dianteira foi lançada, o facelift exigia apenas a grade, o conjunto de piscas e faróis e um friso plástico que preenche o espaço da dianteira antiga.

IMG_0064

Já o 147 exigia troca do capô, faróis e grade de forma que seria preciso modificar toda a dianteira do carro para conseguir a atualização, o que não compensava financeiramente.

Fotos de abertura: André Grigorevski e JFlavioPassat.blogspot.com.br

Matérias relacionadas

Quanto custavam os carros esportivos de ontem em dinheiro de hoje?

Leonardo Contesini

Games que marcaram a infância: Twisted Metal

Dalmo Hernandes

Mercedes C30 CDI: quando a AMG decidiu fazer um o esportivo movido a diesel

Leonardo Contesini