Edição diária: 19/06/2019
FlatOut!
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Técnica Zero a 300

Como funciona a suspensão ativa que vê os buracos da estrada?

Há pouco mais de um ano relembramos a história da suspensão ativa da Bose, que se ajustava automaticamente para reduzir os movimentos da carroceria do carro, proporcionando mais conforto para os ocupantes. Infelizmente, o sistema nunca passou da fase de protótipo por ser muito caro na época de seu desenvolvimento e também porque seu criador, Amar Bose, se aposentou antes que a tecnologia necessária para baratear esta suspensão se tornasse acessível e popular.

Isso só foi acontecer em 2013, quando a Mercedes-Benz lançou seu sistema “Magic Body Control”. Você deve lembrar dele por causa daquele vídeo ridiculamente divertido com galinhas “agitando” ao som de “Upside Down” de Diana Ross:

Mesmo que você não conheça a suspensão, as galinhas deixam claro que se trata de um sistema que mantém a carroceria estável independentemente do que acontece com as rodas. O sistema não tem nada de mágico, mas usa esse nome porque em vez de reagir aos inputs do motorista e dos fatores externos, ele antecipa o que vem pela frente e ajusta a suspensão antes que o carro passe por um buraco ou por uma lombada, por exemplo.

A mágica está na câmera estereoscópica instalada no topo do para-brisa do carro. Uma câmera estereoscópia — ou simplesmente câmera estéreo — usa duas ou mais lentes e o mesmo número de sensores para obter um efeito estereoscópico, que permite enxergar em três dimensões. Parece algo complicado, mas é simplesmente o mesmo princípio da visão humana: com dois pontos de visão (nossos dois olhos) podemos perceber a profundidade de campo e ter a noção da distância entre objetos em planos diferentes.

Já entendeu onde isso vai dar, não é? Com um sistema de câmeras estereoscópicas um computador consegue “ver” as imagens capturadas em três dimensões, o que significa que o sistema podecalcular a distância entre o carro e o obstáculo. Por usar câmeras de alta definição, o sistema é capaz de notar variações de até 3 mm na altura ou profundidade da superfície adiante.

Como a ECU do sistema também tem a informação de velocidade do carro, ela pode calcular o tempo até chegar ao obstáculo. Com a imagem processada, a ECU calcula como irá atuar sobre cada um dos amortecedores e bolsas de ar da suspensão, controlando compressão e retorno dos amortecedores e pressão das molas pneumáticas.

Já o controle da inclinação, empinamento e mergulho é um pouco diferente: ele usa sensores de movimento para compensar as transferências de peso. Se o carro faz uma curva para a direita, por exemplo, ao detectar a mudança na posição do volante e um início de rolagem o sistema enrijece o lado esquerdo da suspensão do carro para conter os movimentos da carroceria por meio de um sistema hidráulico que opera com até 200 bar de pressão.

O monitoramento é feito constantemente enquanto o sistema estiver ativado e os controles funcionam a até 130 km/h – ou seja: em praticamente todas as situações de uso civilizado. O único inconveniente é que o sistema que lê a pista não enxerga sob chuva forte ou neblina (ou poeira), então o controle da suspensão para cancelar o efeito dos buracos e irregularidades só funciona com o tempo limpo.

Outro carro que usa esse sistema de detecção de buracos é o Ford Fusion Sport, o modelo V6 biturbo de 330 cv vendido exclusivamente nos EUA. O funcionamento no Ford, contudo, é um pouco mais simples e foi derivado do sistema já oferecido no Lincoln MKZ. Ele não usa câmeras, mas 12 sensores de alta resolução na parte inferior do para-choques dianteiro para perceber que há uma imperfeição adiante.

Quando isso acontece, o sistema envia um sinal elétrico que retém a compressão do amortecedor, segurando a roda em sua posição e impedindo-a de cair no buraco. Outra diferença em relação ao sistema da Mercedes é que, por ser baseado em sensores em vez de câmeras, ele funciona mesmo em condições adversas de visibilidade, e seu monitoramento é constante.

O mais recente modelo equipado com um sistema ativo capaz de ler buracos é o Audi A8 Sedan. Sendo de uma geração mais moderna que os outros dois modelos, ele também usa um sistema mais complexo.

Audi A8

A base do sistema da Audi são as câmeras estéreo, como no Mercedes, porém elas são capazes de gerar 18 imagens por segundo. Outra diferença é que em vez de bolsas de ar e amortecedores hidráulicos, a Audi está usando um sistema eletromecânico de alta potência (algo possibilitado por seu sistema elétrico de 48 volts) que consiste em um motor elétrico, um atuador mecânico e um tubo rotativo com uma barra de torção ligada à suspensão de cada roda.

Quando o sistema detecta alguma imperfeição na pista à frente, o motor elétrico recebe o sinal de seu módulo de controle e atua sobre a suspensão também controlando compressão e retorno dos amortecedores. O motivo do uso de um sistema eletromecânico em vez de hidráulico, como no Mercedes, é a velocidade de ação mais rápida — incluindo no controle de rolagem das curvas, uma vez que sua atuação pode ser vinculada ao movimento da caixa de direção. Veja como ela funciona na prática:

O sistema da Audi ainda vai além do conforto e inclui ainda um recurso de segurança: caso as câmeras e sensores detectem a iminência de uma colisão lateral em T, os motores elétricos elevam a lateral que será atingida em 80 mm para proteger os ocupantes.

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