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Como nascem os ícones: a força e a importância da rivalidade nas pistas (e nas ruas)

 

 

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No último dia 14 de outubro a Mercedes-AMG alinhou pela última vez no grid da DTM. A fabricante já havia anunciado o fim de sua participação na categoria em julho do ano passado, comprometendo-se apenas com a temporada 2018 do Deutsche Touring Car Meisterschaft. Depois disso, a equipe concentraria seus esforços na Fórmula E e na Formula 1.

Logo após a saída da Mercedes, uma de suas maiores rivais no campeonato publicou um vídeo de despedida, lamentando a partida,  relembrando os grandes duelos e elogiando a rivalidade que ambas mantiveram ao longo de décadas. Com uma narração marcante, uma música dramática e uma sequência matadora de imagens orquestradas com o texto, é impossível ficar indiferente ao vídeo — a menos que você não tenha sentimentos ou não curta corridas de carros — ainda que esbarre em uma dezena de clichês.

Prezada Mercedes

Você está indo embora e, temos que admitir, sentiremos sua falta.
É claro que sentiremos falta. Das brigas, dos voos, das brigas, dos conflitos, das batidas.
Das emoções, da rivalidade, da alegria. 
E o que aprendemos com tudo isso?
Que “lenda” não é apenas um piloto que vence corridas.
Que “equipe” não é apenas um grupo de pessoas. 
Que a rivalidade nasce da paixão e que a DTM não é apenas feita de corridas.
Juntos, a tornamos muito maior. 
Prendemos o fôlego, perdemos o senso de direção, saímos da pista de formas espetaculares. Graças a deus saímos vivos. 
Quando somente tampas de bueiro poderiam nos parar, ou quando tudo o que queríamos era enfiar a cabeça em um buraco. 
Quando o tempo fica louco. Dias e noites. 
Às vezes não compreendemos, mas também cometemos nossos erros. Desculpe por essa.
Amamos, odiamos, mas sempre nos respeitamos de um jeito que nos tornamos uma família.
Mas agora a história está chegando ao fim e, claro, adoraríamos deixar você vencer facilmente, mas… sinceramente… desse jeito é muito mais empolgante!
Temos certeza de que vamos nos encontrar de novo. Na pista. No paddock. No pódio.

A gente se vê, Mercedes.

Trata-se de uma óbvia ação publicitária — algo que chamamos de marketing de oportunidade: usando um fato sobre sua rival, a Audi promove sua imagem valorizando a Mercedes. O significado da mensagem te pega, não pelo improvável sentimentalismo, mas pela valorização do cavalheirismo e da rivalidade, e nos leva a pensar sobre a importância dos rivais.

 

“Se um dos meus concorrentes estiver se afogando, enfio uma mangueira em sua boca e abro a torneira”

Você já deve ter lido esta frase; ela foi proferida por Ray Kroc, o homem que transformou a pequena rede dos irmãos McDonald no império do McDonald’s que todos conhecemos, e é frequentemente usada como a síntese perfeita do capitalismo selvagem que derruba os concorrentes a qualquer custo. E embora seja fácil aceitá-la como uma verdade sobre o mercado, a ideia de eliminar os concorrentes não é apenas moralmente inaceitável, mas também tecnicamente equivocada.Ray-Kroc-Net-Worth

O McDonald’s nunca teria se tornado a maior rede de fast food do mundo sem a motivação de derrotar seus concorrentes de forma leal. A necessidade de superá-los levou ao aperfeiçoamento da empresa, tornando-a mais competitiva e, por consequência, melhor — uma vez que para obter lucros é preciso agradar o cliente. Quanto mais acirrada a rivalidade, mais alto será o nível de competitividade.

As tecnologias derivadas das Grandes Guerras do Século 20, por exemplo, revolucionaram o mundo e uma delas até mesmo deu origem a outra rivalidade: a Corrida Espacial travada entre EUA e União Soviética. Em 1955 os dois países declararam que iniciariam a exploração espacial e teriam satélites em órbita até o fim da década. A disputa era uma demonstração de poderio tecnológico das duas potências da Guerra Fria, mas ganhou o nome de corrida justamente por conta da rivalidade acirrada, que acelerou as conquistas e colocou Yuri Gagarin no espaço em 1961, Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins na Lua e milhares de satélites artificiais em órbita para permitir um sistema global de comunicação.

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E se você está se perguntando o que isso tem a ver com o automobilismo, tente contar a história de Ayrton Senna sem falar de Alain Prost — ou a história de Prost sem mencionar Ayrton Senna — e a importância da rivalidade ficará clara. Os feitos dos dois pilotos são realçados pela qualidade do adversário que ambos derrotaram. Senna se tornou um gigante ao derrotar Alain Prost. Prost já era bicampeão quando superou Senna, mas a fase mais valorizada de sua história começa quando superou Piquet e Mansell em 1986, e depois Ayrton Senna em 1989 e 1993. É por isso que a foto dos quatro pilotos em 1986 se tornou tão emblemática: eram quatro rivais de altíssimo nível, que escreveram suas histórias individuais superando uns aos outros. Onze títulos mundiais em uma única foto – três  de Piquet, três de Senna, quatro de Prost e um de Mansell.Formula One World Championship

Essa situação se repetiu para todos os grandes campeões da Fórmula 1: Fangio, Ascari e Farina, Fangio e Moss, Moss e Hill, Hill, Clark e  Brabham, Stewart e Fittipaldi, Lauda e Hunt, Piquet e Mansell, Senna e Prost, Vettel e Hamilton. A imagem dos ídolos é proporcional à qualidade de seus principais rivais porque os rivais estabelecem um parâmetro de comparação.

Talvez por isso Schumacher, apesar de ser heptacampeão, tem seus feitos frequentemente diminuídos: seus títulos foram conquistados contra pilotos “menores” como Damon Hill e Jacques Villeneuve nos anos 1990, e sobre seu companheiro de equipe nos anos 2000. Sua rivalidade mais acirrada, segundo suas próprias palavras, foi com Mika Häkkinen nas temporadas de 1998, 1999 e 2000. Por esta mesma razão Alonso jamais teve seu talento questionado, apesar de ter conquistado seu último título há 11 anos: ele “aposentou” Michael Schumacher, superando-o em seus dois títulos mundiais, e foi o único a ameaçar Vettel em sua sequência de quatro títulos na Red Bull.

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Com os carros não é diferente: o que seria do Gol GTi sem o XR3 e o Kadett GSi? Ou do McLaren F1 sem o Jaguar XJ220, o Lamborghini Diablo e o Bugatti EB110? LaFerrari sem P1 e 918? Camaro sem Mustang — esse em especial, pois o Camaro nasceu como uma resposta ao Ford e dividiu com ele o imaginário dos fãs. Também por isso o Camaro foi um dos primeiros a homenagear seu rival. Em 2014, quando o Mustang completou 50 anos, a Chevrolet publicou uma imagem do Camaro com duas velas de aniversário e uma mensagem: “Feliz aniversário, Mustang!” e a legenda “Que venham mais 50 anos de rivalidade. De seu amigo Camaro.”

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Quem também valorizou a rivalidade em uma ação publicitária foi a Mercedes na ocasião dos 100 anos da BMW, com uma mensagem que sintetiza a importância da competição:

“Obrigado por 100 anos de rivalidade, BMW. Os primeiros 30 foram um pouco chatos”

A Porsche foi outra: quando retornou a Le Mans em 2014, seu 919 liderou quase 20 horas de prova, mas acabou perdendo a liderança para a Audi, que faturou mais uma vitória. De forma discreta, eles mencionaram “respeito” à Audi, mas terminaram o vídeo dizendo que a prova de 2014 foi o primeiro dia da preparação para a edição de 2015.

Esta foi mais uma ação corporativa que preparou o público para o fim do programa da Audi em Mans, uma vez que ambas as marcas pertencem ao grupo VW. Além disso, no ano anterior a Audi havia dado as boas-vindas à Porsche de um jeito um tanto jocoso:

A Porsche por sua vez, respondeu em 2015 com a mesma campanha:

Mas o início das reverências ao rival aconteceu nos anos 1990, após a morte de Ayrton Senna. Na época, Alain Prost deu uma série de entrevistas sobre sua relação com o brasileiro e, entre as várias histórias contadas sobre suas carreiras e a rivalidade, Prost disse:

“Quando ele morreu, disse que senti que uma parte de mim havia morrido também, porque nossas carreiras estavam muito interligadas. Acredito que a competição que enfrentei naquela época me fez ser um piloto melhor, embora eu só tenha realmente compreendido o significado da minha rivalidade com Ayrton depois que me aposentei.

Nossos duelos realmente beneficiaram a Fórmula 1 e elevaram a disputa para um outro nível, mais humano. Nós tínhamos personalidades diferentes, formas diferentes de pilotar e uma visão diferente sobre o esporte. Mas depois que parei de correr, entendi que o jeito de Ayrton foi muito mais claro, e preciso agradecê-lo, porque 50% do meu sucesso se deve a ele.”

 

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