Como o Bugatti EB110 deixou de ser um cover do Lamborghini Diablo (sim, isso quase aconteceu)

Dalmo Hernandes 16 agosto, 2017 0
Como o Bugatti EB110 deixou de ser um cover do Lamborghini Diablo (sim, isso quase aconteceu)

Hoje em dia a Bugatti é conhecida por não medir esforços, recursos financeiros e engenharia na hora de criar seus hiperesportivos. Sob o guarda-chuva da Volkswagen, a marca agora tem peito para fazer um hipercarro limitado a 500 unidades com motor quadriturbo de 1.500 cv e ter certeza de que vai vender todos eles com fila de espera. A sede da marca, em Molsheim, na França, é um paraíso de design, tecnologia e luxo – uma verdadeira fábrica de sonhos, com tratamento VIP aos clientes e infra-estrutura de ponta.

As coisas eram menos glamourosas nos início dos anos 1990, porém. A Bugatti estava começando a se reerguer com o empresário italiano Romano Artioli no comando, mudando o foco dos carros de alto luxo para os superesportivos, e ainda não havia encontrado seu nicho – a ideia era rivalizar com Lamborghini e Ferrari mais diretamente do que hoje em dia. E o resultado foi o Bugatti EB110, batizado em homenagem ao 110º aniversário do fundador da companhia original, Ettore Bugatti, nascido em 1881.

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Você conhece a forma final do EB110, com seus faróis meio estrábicos, seu perfil que lembra de leve um Lamborghini e seu motor V12 quadriturbo de apenas 3,5 litros – quase um downsizing antes do tempo. Ele tinha 560 cv a 8.000 rpm e 62,3 mkgf de torque moderados por um câmbio manual de seis marchas e levados para as quatro rodas, pesava 1.620 kg, era capaz de chegar aos 100 km/h em 3,2 segundos e tinha velocidade máxima de 350 km/h. Há quem diga que ele foi o ápice da Bugatti, e que o que veio depois é puro exagero opulento.

O fato é que o EB110 é um carro mais mundano, como prova este vídeo. Aparentemente o italiano Davide Cironi, que testa esportivos europeus das antigas e posta tudo no YouTube, tem uma bela rede de contatos. Ele conseguiu acesso a imagens jamais vistas de dois dos protótipos do EB110 sendo testados na neve em algum momento entre 1989 e 1990. Chega a ser nostálgico:

O renascimento da Bugatti nas mãos de Romano Artioli era uma empreitada ambiciosa, mas tudo era mais simples do que hoje em dia. A oficina onde os carros eram montados parecia uma oficina comum, os mecânicos e engenheiros ficavam brincando na neve e um cachorro acompanha os testes o tempo todo, perseguindo os carros e latindo para eles.

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Mas o que mais chama a atenção, sem dúvida, é como os protótipos são diferentes do design final? Isto porque, em 1989, a Bugatti contratou quatro designer italianos para apresentar propostas para o EB110: Giorgetto Giugiaro, Nuccio Bertone, Paolo Martin e Marcello Gandini. Cada um deles tinha um estilo diferente, e o de Marcello Gandini foi o escolhido por Paolo Stanzani, responsável pela engenharia do EB110 e ex-engenheiro da Lamborghini.

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Acima, as propostas de Martin, Bertone, Giugiaro e Gandini

Romano Artioli não gostou muito do que viu, e começou a achar que Gandini e Stanzani estavam aproveitando o projeto da Bugatti para construir um novo Lamborghini. De fato, o formato da dianteira lembrava bastante o Diablo, lançado em 1990, embora o restante da carroceria fosse significativamente diferente – especialmente a traseira, que tinha lanternas horizontais baixas e largas e abusava das linhas retas.

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Não obstante, o trabalho de desenvolvimento continuou. Mas Stanzani era “apenas” o engenheiro-chefe enquanto Artioli era o dono da p*rra toda, e no fim das contas, sua palavra pesou mais: Stanzani deixou o projeto, Gandini também, e Giampaolo Benedini, arquiteto que já havia projetado a sede da Bugatti, foi chamado para fazer uma reestilização de emergência no EB110.

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O empresário também contratou dois engenheiros para substituir Stanzani: Nicola Materazzi, que cuidou do projeto da Ferrari F40 e do Lancia Stratos; e Pavel Rajmis, um dos responsáveis pelo sistema de tração integral quattro da Audi.

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O resultado: uma dianteira mais arredondada, faróis maiores, expostos e ocupando o lugar das entradas de ar no capô, e uma traseira totalmente nova, com dois pares de lanternas circulares sob lentes de acrílico. A grade dianteira ganhou um elemento em formato de “capela”, em um aceno aos radiadores dos Bugatti do início do século XX, que foi adotado no Veyron e no Chiron. Coberturas sobre os para-lamas traseiros também foram adotados, mas a ideia acabou descartada.

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E foi assim que o Bugatti EB110 ganhou o visual com o qual foi apresentado no dia 15 de setembro de 1991, com dois eventos simuntâneos – no Palácio de Versailles e em frente ao Grande Arco de La Défense, em Paris. Foi um belo presente de aniversário para Ettore, onde quer que ele estivesse.

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Se querem saber, acho que o desenho final tem mais presença do que o protótipo, que ficava até meio desajeitado com faróis tão pequenos. Se eu estivesse lá, Gandini, Stanzani e mais um grupo de envolvidos no projeto do EB110 desde o início, chamavam a reestilização de “pouco-inspirada e desprovida de personalidade”.

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Por outro lado, a proposta de Giorgetto Giugiaro, que foi descartada logo no início, parecia promissora e à frente de seu tempo – tanto que foi aproveitada no BMW Nazca C2.